Como se não bastasse o cravo

Há alguns dias publiquei aqui um texto sobre os desvios que essa história besta de politicamente correto pode provocar. Afinal, há escolas em que o cravo não briga mais com a rosa, e que se dane Villa Lobos. Não vou nem falar em atirar o pau no gato e outras coisas do gênero.

E achava que não podia ficar pior.

Mas pode.

O RSS do blog funcionou de novo e descobri que agora o problema é com Monteiro Lobato, no livro Caçadas de Pedrinho. Vejam um trecho da reportagem de Angela Pinho e Johanna Nublat publicada na Folha de S. Paulo de 29 de outubro.

Conforme o parecer do CNE, o racismo estaria na abordagem da personagem Tia Nastácia e de animais como o urubu e o macaco. “Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”, diz a conselheira que redigiu o documento, Nilma Lino Gomes, professora da UFMG. Entre os trechos que justificariam a conclusão, o texto cita alguns em que Tia Nastácia é chamada de “negra”. Outra diz: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.

A história completa está no blog de Reinaldo Azevedo, no site de Veja. E ele comenta, claro. Segue um trecho.

É um escárnio. Submete-se Monteiro Lobato a padrões, debates e proselitismos que estão postos hoje em dia, mas que não estavam dados então. É claro que não se descarta a possibilidade de um professor trabalhar em sala de aula a figura de Tia Nastácia  — que, atenção!, é um dado da formação histórica, familiar, social e moral brasileira. Que seja, pois, tema de aula se for o caso. Proibir a obra ou meter nela uma tarja de “racista” é uma estupidez sem par.

Como diz a mãe da Helena, não seria mais simples queimar tudo o que foi produzido até hoje e começar do zero? Para quê contar aos nossos filhos como o mundo se desenvolveu, todos os seus parâmetros em cada época, os contextos, para que – assim – possam construir com liberdade e seu próprio discernimento suas impressões de mundo, de certo e errado?

Só pra constar, com a ajuda inestimável da grande Edite, conseguimos comprar há alguns meses a coleção completa do velho Monteiro para crianças. E Helena conhecerá todas as histórias e todos os seus significados. Tomara, com o mesmo enlevo e paixão com os quais eu as conheci. E de forma natural, sem preconceitos. Inclusive contra isso que os imbecis tentam chamar de politicamente correto.

Numa casinha branca, lá no sítio do Pica-pau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:

— Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto…

Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas — Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem.

Narizinho tem sete anos, é morena como jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer uns bolinhos de polvilho bem gostosos.

Na casa ainda existem duas pessoas — tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo.

Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho)

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2 comentários em “Como se não bastasse o cravo

  1. Sirelli, eu tenho esse livro e já li para o meu filho. É muita patrulha mesmo. Quando você lê o livro nota a diferença e a ‘incorreção’ política (você mesmo diz: um livro desse não seria publicado hoje. O que é uma pena!)

    E eu fiquei mais preocupado com a crueldade contra a onça (Uma pergunta: alguma instituição de defesa dos animais já se pronunciou para defender a pobre onça pintada?)

    Viva Tia Nastácia e sua negritude! Viva Tio Barnabé e sua sabedoria das matas. Viva a ingenuidade do Zé Carneiro. Viva Saci, a crueldade da Cuca (que te pega daqui, te pega de lá). Viva as criaturas fantásticas: boneca que fala, sabugo inteligente, besouros, burro, rinoceronte falantes e um rabicó marquês.

    Viva Monteiro Lobato e suas histórias.

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