O dia de 35 milhões

Sempre que quero falar sobre o Flamengo, gosto de recorrer aos torcedores de outros times. Não me refiro a análise de jogos ou quetais, que qualquer colunista pode escrever no dia a dia e até eu posso arriscar nesse meu canto. Falo de referências ao que significa o Flamengo e, mais, ao que significa ser Flamengo.

Gosto dos textos de tricolores como Nélson Rodrigues e Arthur da Távola, americanos, botafoguenses etc etc etc. Porque são capazes de reverenciar a entidade, a camisa, sem a paixão que sustenta o coração de, atualmente, 35 milhões de pessoas.

Nasci tricolor pelas mãos do meu pai, como todo pai que tentar ter o filho ao seu lado quando se trata de algo tão importante. Mas um dia conheci o Flamengo. E dei sorte, porque o Flamengo que conheci foi o capitaneado por Zico. Vivi o Olimpo Rubro Negro.

O melhor, ao lado do meu pai. Que respeitando minha escolha de menino, me ensinou que respeitar quem pensa diferente de você é fundamental. E vocês não imaginam como nós dois pensamos diferentes sobre tanta coisa…

E se você é daqueles que pensam que eu e muitos da minha geração se tornaram flamengos por causa do Zico, sinto dizer-lhes que esse é um grande engano. O sujeito que é Flamengo, já o é mesmo que ainda não saiba. E um dia, cedo ou tarde, o sentimento aflora. Não há como fugir do destino.

Hoje é dia de São Judas Tadeu, padroeiro do Flamengo. Hoje é dia de Flamengo. Hoje é o dia do flamenguista. Não gosto desse termo, invenção que pegou. Aprendi que o torcedor do Flamengo é um flamengo. Mas tudo bem, é só respeitar as diferenças que, como em qualquer nação, são incontáveis. E a nossa nação não é diferente.

E para marcar a data aqui nesse meu canto, trouxe um texto de um são paulino (junto ou separado?). Belo texto, diga-se de passagem.

“Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia.“, disse Nelson Rodrigues, fanático tricolor desprovido de vaidades clubisticas na hora de analisar futebol.

Hoje, 28 de outubro, é o dia do flamenguista. Hoje, 28 de outubro de 2010, é o dia seguinte a um jogo onde o Flamengo não brigava por nada no campeonato. Está fora de Libertadores, título, qualquer ambição grandiosa.

Hoje, como sempre, líder ou fora da briga, a capa dos jornais terá o tal do Flamengo.

Decidindo titulo ou não, lá estarão milhares de torcedores, em outro estado, fazendo com que o tal do Flamengo jogue em casa quando deveria atuar fora.

No outro domingo, onde todos jogam mais uma rodada, lá estará ele, de novo, jogando com 12, burlando o regulamento básico do futebol.

E se o time perder, não muda nada. Vão se revoltar, xingar, protestar e, daqui 3 meses, lá estarão eles fazendo juras de amor ao time num clássico qualquer pelo campeonato estadual, aquele que nem eles aguentam mais vencer.

O time mais inexplicável do planeta terra, sem dúvida.

Não ganhava o principal titulo nacional desde 1992. Lá se foram mais de 17 anos e a torcida diminui? Não, aumentou. Segundo pesquisa, a maior entre as crianças do país.

Quando ninguém dá nada pra eles, chegam e surpreendem a todos. Quando todos esperam muito, ele perde e decepciona sua nação.

Favorito em tudo que disputa, simplesmente pelo citado acima. Ninguém é capaz de saber o que esperar do Flamengo, nunca.

E quando eventualmente não tem um time capaz de ser campeão, a cobrança é como se tivesse. Ou seja, não existem jogadores no Flamengo. Existe o Flamengo e ponto final.

Única torcida do planeta que paga ingresso por 2 espetáculos. Um no campo, como todas elas, e outro que ela mesmo proporciona.

O flamenguista vai ao Maracanã pra curtir o time, o jogo, o clima e a própria torcida. É único.

Talvez uma das raras torcidas do mundo que tenha dezenas de ídolos, mas que não há discussão sobre o maior.

Existe o Zico e o resto. E o “resto” inclui, talvez, os dois melhores laterais que o mundo já viu em cores. Leandro e Junior.

A Nação rubro-negra não tem esse nome a toa. São 35 milhões de torcedores, e vejamos: a cidade mais populosa do mundo é Tóquio. E tem 34 milhões de pessoas. A maior do Brasil é são Paulo, com 19.

O Flamengo, sozinho, tem 35. Se cobrasse impostos seria trilhardário.

Não cobra, e vive devendo.

Deve milhões, e isso não faz a menor diferença.

Ao contrário do amor que tanto exaltamos, este não vai embora quando o amado fica pobre. É amor de verdade, o mais puro que existe.

Incondicional, este sim.

Aquele que não analisa, que não raciocina, que não condiciona a nada.

A nação poderia dizer, sem culpa: “Eu te amo, e pronto”.

Não interessa porque, como, quando e nem sob quais condições.

É maior, é inexplicável.

Ser Flamengo é algo que não tem comparação. Eu não nasci assim, e nem ouso dizer se felizmente ou infelizmente.

Flamenguista é aquele sujeito que ama futebol acima do que ele o proporciona. Aquele que não troca amor por resultados, e que não condiciona sua preferencia por um ou outro jogador.

Por aí existe o Santos de Pelé, o São Paulo de Rogério Ceni, o Palmeiras de Ademir.

Lá existe o Zico do Flamengo.

A ordem é sempre inversa. Os valores são sempre diferentes.

Ser flamenguista não torna ninguém melhor do que os outros, nem pior. Diferente, sem dúvida.

Ser maioria é algo que fortalece. É infinito, porque a nação não tem fim, e nem deixará de ser a maior torcida do país nos próximos 200 anos.

Odiar o Flamengo é absolutamente justificavel.

Qualquer um fica irritado em ganhar titulos e mais titulos e ver que a capa do jornal não muda de foto. É sempre a do Flamengo.

Qualquer um se incomoda em saber que titulos e dividas menores não conseguem sobrepor a importancia de um clube que tem sua grandeza baseada em nada atual e concreto.

É grande. Porque? Porque é.

Pode existir algo maior do que o que não se explica?

Entrar num Maracanã lotado e olhar pra aquela torcida é algo que apenas eles sabem o que é, o que significa e o quanto importa.

“Torcida não ganha jogo”, dizem.

“Só se for a sua”, eles dirão.

Hoje é dia do flamenguista.

Você não é Flamenguista?

Que pena.

Rica Perrone

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