Certo X errado; empresa X imprensa

A essa altura do campeonato, tudo mundo já está mais do que cansado de saber que a psicóloga Maria Rita Kehl foi demitida pelo jornal O Estado de S. Paulo. A razão para a saída da colunista teria sido a publicação de um texto que vai contra o posicionamento político do jornal. Histrionicamente, denúncias e mais denúncias de que o jornal estaria cometendo censura.

E eu, que critiquei a Folha no último post pelo mesmo motivo, ainda não tenho certeza, não consegui mesmo chegar a uma conclusão sobre o caso do Estadão. Então resolvi separar a questão por partes pra ver se alguém passa pelos comentários e – sem faniquitos partidários e/ou eleitorais – consegue me convencer de algo ou me ajudar a alcançar uma resposta válida.

Agora, se você andou fazendo turismo por Marte e seus arredores nos últimos dias e não sabe do que estou falando, clique aqui para ler o artigo e depois volte pra cá para dar seu pitaco.

Vale lembrar que eu não conheço a colunista nem qualquer outro profissional do Estado. Ou seja, todas as minhas opiniões são apenas elucubrações sobre o que foi publicado por aí, nas VERSÕES de cada um publicadas até agora. Além disso, por mais que sobre tudo e qualquer coisa caibam ilações filosóficas, tentemos ser secos, curtos, grossos, objetivos.

1. Maria Rita Kehl era colunista do caderno C2 + Música. Em entrevista à Terra Magazine, Ricardo Gandour, diretor de conteúdo do Grupo Estado, o objetivo era “ter ali, aos sábados, um espaço em torno da psicanálise. Um divã para os leitores.” Ou seja, não era o espaço adequado para discussões sobre o processo eleitoral. Esse ‘desvio de função’ da coluna já teria acontecido outras vezes e as conversas sobre mudanças já aconteciam internamente. Isso é verdade? Não sei, mas não encontrei nenhuma negativa da colunista. Se isso é verdade, Maria Rita era remunerada para fazer uma coisa e fazia outra.
Pergunto: se, na sua empresa, você contrata alguém para fazer algo e esse alguém não cumpre o combinado, você o demite?

2. Maria Rita começa seu texto, o tal que provocou a confusão, da seguinte maneira:

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas.

Depois, ao longo do artigo, ela discorre sobre a desqualificação dos votos das camadas mais pobres, classes D e E, pela elite, indiretamente defendendo políticas do governo atual e de sua candidata.
Pergunto: talvez seja um exemplo extremo, mas se você trabalhasse na Coca-Cola e elogiasse publicamente a Pepsi, você seria demitido?

3. Acredita-se que o conjunto de cronistas e colunistas de um jornal existe para oferecer aos leitores o mais amplo painel de opiniões sobre quaisquer assuntos, independente de qualquer posição editorial ou empresarial. É esse painel, inclusive, o responsável pela reputação de um jornal junto aos seus leitores. E a reputação é um dos maiores (talvez o maior) valores de qualquer publicação.
Pergunto: você demitiria um colunista de seu jornal por que ele discordou da linha editorial?

4. O Estado é acusado de censura pela demissão da psicanalista, até o Conselho Federal de Psicologia divulgou nota de repúdio sobre o caso. No entanto, seu texto foi publicado na íntegra e continua acessível no próprio site do jornal.
Pergunto: isso é censura?

E as últimas perguntas desse post: se não estivéssemos em período eleitoral, essa demissão existira? E se ela fosse demitida, haveria tanta polêmica sobre o acontecido?

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Um comentário em “Certo X errado; empresa X imprensa

  1. Acho que o jornal poderia ter tomado duas atitudes:
    1. explicar (novamente) aos leitores que o conteúdo das colunas é de responsabilidade dos colunistas.
    2. em seguida, publicar nota editorial expondo sua discordância das posições da colunista e por quê.

    Comentários esparsos:
    1. O Olavo de Carvalho foi defenestrado de O Globo e depois do JB por fazer EXATAMENTE o que ele era pago para fazer!
    2. Os jornais precisam aprender a bater boca com seus colunistas. É saudável.
    3. O conselho de psicologia não tem moral para julgar o estadão. O motivo é aparentemente mais polêmico mas, concorde-se ou não, é rigorosamente igual. nos dois links a seguir sobre Rozangela Justino, aquela que atendia pacientes que a procuravam em busca de apoio profissional para deixar a homossexualidade.

    http://www.midiasemmascara.org/artigos/direito/10499-comunicado-de-rozangela-justino-a-sociedade-brasileira.html

    http://www.midiasemmascara.org/artigos/direito/7880-guilda-de-charlataes.html – atenção às notas de rodapé.

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