Pretextos

Fazia tempo que não pingava nada do Eduardo aqui. Falha séria para quem acredita que pode compensar os amigos, aquela meia dúzia de 7 ou 8 leitores, que freqüentam este meu canto pelas bobagens que escreve republicando bons textos que encontra por aí.

Homenagem

Decisão tomada: na manhã seguinte Adelto passaria pelo escritório do Dr. Eiras, advogado especialista no atendimento a clientes interessados em mudar de nome. O motivo era o de qualquer um na mesma situação – evitar constrangimentos. Não queria mais saber de caras espantadas, comentários e piadinhas sempre que as circunstâncias o obrigavam a identificar-se formalmente. Então, em lugar do funcionário Adelto, da Sapataria 14 Voltas, apresentava-se o cidadão Adeltrudesino Bicudo. Além de exótico, seu nome tinha outro inconveniente, raras vezes confessado: 13 letras. Tudo, menos isso!

Antes de se recolher, o vendedor repetiu o ritual de sempre, levando ao box do chuveiro a cadeira que ficava ao lado de sua cama e virando-a de pernas para o ar. Supersticioso, acreditava que a providência, além de evitar que algum espírito nela se sentasse para observá-lo enquanto dormia, também o impediria de fazê-lo no banheiro. Mas ao segurar o móvel pelo encosto, uma tábua se soltou, fazendo com que a cadeira atingisse um de seus joelhos. Adelto urrou e foi enfiar-se debaixo das cobertas.

Dia claro, o funcionário da sapataria comunicou ao patrão sobre o atraso, por conta de um encontro com advogado para “tratar de assunto relativo a herança de uma tia”. No prédio do escritório, o elevador fez parada no 4º andar para a entrada de um anão. Como, sem espaço suficiente, ele daria três voltas em torno do homem, evitando assim a má sorte? Segurando firme o pé-de-coelho dentro do bolso, o vendedor fez discretamente, às costas do novo passageiro, três pequenos círculos no ar. Coincidência ou não, o nanico desembarcou no pavimento seguinte.

Já na ante-sala do Dr. Eiras, Adeltrudesino Bicudo resolveu puxar conversa com uma cliente que chegara antes dele. Ambos aguardavam a vez para tratar do mesmo assunto. Fisionomia tristíssima, a mulher parecia na iminência de choro inconsolável quando sorria

– A senhora não me leve a mal, mas como passará a se chamar? – perguntou Adelto.

– Vou continuar sendo Luzia mesmo. Só quero assinar Luzia Motta Felismar, ao invés de Luzia Felismar Motta – disse a mulher.

O vendedor mal conteve o riso, mas Luzia captou-lhe a intenção e o esforço.

– Tem importância não, moço, pode rir… O senhor deve estar pensando na contradição de alguém, com esta minha cara, ter nome que soa como feliz marmota. Mas já me acostumei.

Adelto se desculpou, envergonhado e solidário. Disse que também enfrentava problema semelhante, apesar de seu nome ser homenagem a seu pai, Adelmo; à sua mãe, Gertrudes, e a seu padrinho, Josino.

– Mas já me chamaram de Adelson, Adilson, Adesino e até de Adeusinho… – lamentou.

A mulher o fitava com fisionomia desoladora.

– E como quer se chamar? – perguntou ela.

– Joadeludes. Faço questão de manter a homenagem aos meus antepassados – respondeu, orgulhoso, o vendedor de calçados.

Nesse momento a secretária chamou a cliente. Depois se desculpou com Adelto: o Dr. Eiras deveria comparecer ao fórum daí a instantes. Podia marcar outro dia para a consulta? Não podia. Adelto faria viagem próxima, sem data certa de retorno. Ligaria quando voltasse.

Antes de se retirar, o futuro Joadeludes viu entrando no escritório do Dr. Eiras o anão do elevador.

Eduardo Lara Resende
Pretextos – ELR

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