Filhos e pais

Já escrevi algumas vezes sobre meu pai. Nada demais, lembranças de há quase muito tempo. Nada demais que na maioria das vezes é muito sem nos darmos conta. Não vou procurar agora, fazer uma lista completa sobre cada coisa que escrevi, cada coisa que lembrei. Certamente, besteiras como a bolinha de Bombril com a qual me ensinou a jogar botão, as idas ao Maracanã, o autorama que montou como se tivesse voltado a ser criança para brincarmos juntos – um de Brabham, ou outro de Ferrari.

A verdade é ando um tanto emotivo no que diz respeito às relações pai e filho, pai e filha. É certo que Helena tem muito a ver com isso.

E meio que por acaso, descobri que hoje seria aniversário do pai da Elisa. E por acaso descobri que ela tem um blog. Que agora estão aqui, a homenagem que fez ao pai e o link para o Minha vida tão normal…

Hoje seria aniversário do meu pai. Gaúcho pobre da fronteira, de São Gabriel, que encontrou no exército a chance de se tornar um cidadão e mudar o rumo da sua vida. Alistou-se, foi para a Itália tomar parte na conquista de Monte Castelo. Voltou, como muitos, traumatizado com as coisas que viu e ouviu. Sua catarse era através de horas incontáveis assistindo a filmes de guerra e bang-bangs dos quais eu também aprendi a gostar só para estar sempre perto dele.

Aprendi muitas coisas para poder estar sempre perto do meu pai: a carregar peso, a virar concreto, a consertar e lavar o carro, a trocar pneus, a mexer com eletricidade e eletrônica. Aprendi a amar a cultura gaúcha, cantando as músicas que lhe causavam tantas saudades. Aprendi a andar sem destino de carro, procurando coisas malucas em ferro-velhos de beira de estrada. A sair para  comprar um azulejo e acabar lá em Vargem Grande, quando ninguém falava no lugar. A passar horas nos quartéis, mesmo com ele estando já afastado. Gostava tanto que me sentia frustrada pelo fato de não poder estudar no Colégio Militar! O jeito foi me contentar com o Pedro II… rsrs Mas a coisa mais importante que meu pai me ensinou foi a não ter ciúmes. Ele, que era tão ciumento, me deu o melhor exemplo que podia dar justamente por me permitir ver o quanto era feio, o ciúme.

Ele era um cara bacana. Dele, herdei a atração pelo oculto, pelo místico, pela música, pela informação e pelo Direito. Gostaria de ter herdado, também, a generosidade, o carisma, a inteligência brilhante. Agradeço a meu pai por ter me apresentado a Hitchcock, numa madrugada em que permitiu que eu assistisse com ele a Os Pássaros, atração da sessão Coruja. Eu tinha uns 6 anos?? Acho que foi por aí. E foi aí que me apaixonei por cinema.

Meu pai era especial. Adorava cantar “Seu calça larga” e fazia isso com um sorriso  gaiato. Tocava acordeon algumas vezes, violão, sempre. E dançava. Isso eu não aprendi…rsrs E como todo bom negão, adora uma loira! Kkkk

Olho para o capacete da FEB – Força Expedicionária Brasileira -, e me lembro dos poucos relatos que fazia sobre a Segunda Guerra. Nele, estão gravadas as cidades italianas por onde passou e que sempre disse que queria visitar de novo…

Ele nunca voltou a São Gabriel, embora tivesse ido muitas vezes ao Rio Grande. Tenho muitas perguntas sobre meu pai que nunca serão respondidas… Especialmente tentar entender como, no meio de toda a disciplina e dureza que ele tentava impor, havia espaço para tanta generosidade e amor ao próximo.

Saudades, pai.

Elisa Maria

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Um comentário em “Filhos e pais

  1. Ai, Gusta! Obrigada pelo carinho. Esotu aqui chorando de novo, coisa que fiz diversas vezes ao longo desse dia. Fazia tempo que não chorava de saudades do meu pai. Talvez esteja tão sensível por senti-lo tão npróximo de mim num momento em que vou enfrentar mais um desafio profissional. Na verdade, faltam poucas horas… Acho que ele está aqui por perto, me trazendo a paz de que tanto preciso. Por isso choro, porque posso senti-lo, mas não posso ve-lo, tocá-lo, cobri-lo de beijos. Mas sei q ele está aqui pertinho de mim e que, mais uma vez, veio me socorrer, como já o fez outras tantas. Há tanta coisa que não dá para explicar… Beijo enorme e obrigada mais uma vez. Carinho.

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