Como será o amanhã?

Durante muito tempo eu fui um dos muitos e muitos rubro-negros que conheço que diziam que o Flamengo precisava de alguém para dar um jeito no clube, mesmo que isso significasse ficar alguns anos aturando resultados chinfrins. Afinal, seria o preço a pagar pela organização que nos daria um futuro ainda mais rico de conquistas do que já foi nosso passado. Dito assim, quase um épico.

Só que o que parecia um sonho, aconteceu. Quer dizer, começou a acontecer. Zico voltou ao Flamengo como diretor e começou a organizar o clube. E se é verdade que os novos reforços não exatamente uma coca-cola, parecem suficientes para se manter na média desses campeonatos muquiranas (em termos de qualidade de futebol) que andamos disputando por aqui.

O senão dessa linda história de final feliz que esperamos ver um dia é que para colocar o Flamengo no prumo será preciso atacar alguns feudos e mesmo uma referência como o Galo enfrentará problemas. Nada demais se imaginarmos que o Flamengo é uma nação dentro de outra, mas com a mesma origem básica. E vocês sabem bem como anda o país que é dirigido de Brasília.

Lúcio de Castro faz bela análise do caso. Leiam com atenção, mesmo aqueles que não forem rubro-negros. Porque em menor escala, muitos clubes passam pelos mesmos problemas. E se você não sabe quem é o Cabo Anselmo, clique aqui ou aqui.

Zico deve tomar cuidado com o Cabo Anselmo

Valdemar Lemos não é um técnico consagrado. Como qualquer profissional, merece todo respeito, mas, convenhamos, o Flamengo talvez tenha sido um pouco demais pra ele. Tamanho e currículo à parte, Valdemar teve um grande mérito no Flamengo, que talvez tenha passado despercebido para a maioria, que, na maior parte das vezes, desconhece o submundo que é o bastidor desse negócio chamado futebol. Pois esse mesmo Valdemar, sem a estatura devida para comandar o Flamengo, teve enorme estatura, se opondo a negócios escusos que se constituíam livremente na feira em que o Flamengo havia se transformado. Não conheço Valdemar nem sei como ele é, mas sei de fontes seguras que, convocado a escalar fulano ou sicrano que beneficiavam esse ou aquele empresário, negou-se a tomar parte da pouca vergonha e disse não. Seguiu escalando o time com suas convicções. Acertando, errando, mas com suas convicções.

No meio da tormenta daqueles dias, estava eu na sala de embarque do Galeão. Avistei um conhecido torcedor rubro-negro, daqueles que vivem profissionalmente do clube. Carregando uma faixa numa bolsa, pronto para embarcar para outro destino. No caso dele, onde o Flamengo ia jogar, se a memória não me falha, Natal, contra o América local. Pergunto pra ele sobre a faixa. Sem pudor nenhum, me conta que um cartola do Flamengo pagara para ele a confecção da faixa e a passagem de avião para estender no estádio um vistoso “Fora Valdemar”. Um cartola prejudicado pelo pé firme do treinador em não ser cúmplice da negociata. Assim funcionam as coisas nos bastidores do futebol, e o torcedor comum, esse ingênuo na maior parte das vezes, desconhece que muitas coisas são encomendas, “matérias pagas” se fizermos uma analogia com o linguajar do jornalismo. Protestos muitas vezes não são espontâneos e atendem a interesses prejudicados, e por aí vamos no mundinho do futebol. E eu me pergunto várias vezes como, mesmo sabendo de coisas assim, gosto cada vez mais do tal do futebol…

A lembrança do episódio, nem tão velho assim, não é gratuita. O amigo logo verá, e possivelmente irá ficar estarrecido. Não devia. Os bastidores são isso aí mesmo. E muitas vezes quando apontamos, o camarada vê perseguição, clubismo, ser do contra, etc. Bobagem. Por dentro, as coisas são muito piores.

Pois não é que alguns desses torcedores profissionais já se articulam pra começar a jogar fervura contra Zico no Flamengo? Quem conhece os bastidores da Gávea anda impressionado com o jogo que começa a se desenhar, os mesmos torcedores profissionais de sempre já sendo articulados pelos mesmos cartolas de sempre também, jogando veneno aqui e ali, vazando negociações para que Zico não tenha tanto sucesso assim, etc…Como Zico é marca acima de qualquer suspeita e de muita força, o jogo é mais sujo ainda, feito nas alcovas e em tom de conspiraçãozinha barata. Mas já acontece.

Vale lembrar que é semana de Flamengo x Vasco, propícia a esse tipo de coisa. E vale lembrar muito mais: em seu pouco tempo de Flamengo, Zico já questionou a ordem anterior, o modo de fazer anterior, e, talvez tenha passado despercebido para alguns, questionou a predominância e força de alguns empresários na Gávea, com o fatiamento de jogadores inclusive na base. As discussões disciplinares, mais rasas, talvez tenham feito muitos perderem a essência de algumas linhas de ação de Zico, já contrariando alguns interesses. È muito impossível imaginar, por exemplo, que um empresário como Eduardo Uram siga, com Zico presente, a conquistar sempre generosas fatias de jogadores rubro-negros. Vale lembrar ainda que Zico herdou um departamento das mãos de Marcos Brás. É, de Marcos Brás. É esse o Flamengo que recebeu.

Muita gente será contrariada nesses novos tempos. Muitos interesses, muitas relações entranhadas já há anos na Gávea. Hélio Ferraz, vice de futebol, o homem que recebeu o empresário Pina Zahavi de braços abertos e tapete vermelho na Gávea, e depois ficou com a conta do helicóptero pra pagar, não apareceu na posse de Zico nem para apertar sua mão.

Falta dinheiro. Vai faltar mais. Assim que o goleiro Bruno foi preso, Hélio Ferraz já pulou para lembrar que existe ainda uma dívida do Flamengo com Pina Zahavi pelo goleiro. Faltam atacantes. Ainda assim, Zico resiste a prática usual do Flamengo dos últimos anos: ser barriga de aluguel para os produtos dos mesmos empresários de sempre.

A memória me leva até outro bastião rubro-negro e seus dias de Gávea, com um monte de interesses sendo contrariados e jogando contra. Leovegildo Júnior, o Maestro Júnior, assumira o futebol. Para limpar. Faltava atacante. Qualquer semelhança…Um cartola se mexe por conta dele e apresenta Dimba (!), ganhando muito acima do que Dimba merecia, e dinheiro na mão, enquanto os salários do time estavam atrasados. Rachou o time, claro. Mas para os interesses contrariados deve ter sido bom. Júnior não resistiu e o Flamengo se atrasou mais ainda no tempo. Puxando pela memória, alguns irão lembrar dos profissionais nas arquibancadas, os coros contra um mito da história rubra-negra, todo esse filme.

Contei aqui recentemente e num programa na ESPN sobre minha experiência sobre a ação de empresários em categorias de base. Em 2003, em parceria com o grande repórter e amigo Fellipe Awi, fizemos uma série para o jornal O Globo chamada “Nos Porões do Futebol”. Entre outros assuntos, mostramos com provas, contratos, depoimentos, que vários jogadores das divisões de base do Flamengo eram obrigados a assinar com alguns empresários. Alguns jogadores que não aceitaram ficaram no caminho. Pois bem: a geração que está aí subindo, é essa, de 2003, 2002, quando estavam no mirim ou infantil. O preço está aí. E Zico tem tocado no assunto do descalabro que encontrou para reposição de peças.

O vespeiro é grande. No meu entender, como sempre disse, só lamento que Zico tenha assumido o Flamengo sem ser a última palavra. Ainda assim, por sua inquestionável morar e ética, pode fazer a única coisa que o Flamengo precisa agora: uma desratização, uma faxina geral. Que já parece ensaiar. Mas o vespeiro é grande, e já começa a se articular, asseguro. Veremos muita gente boa nas arquibancadas da vida e botequins sendo usada como massa de manobra, manipulada e incendiada por torcedores profissionais da vida. Os Cabos Anselmo da vida. Ateiam fogo e saem de cena. E quando a casa é destruída, voltam para seus lugares e seguem rindo de tudo, e gozando dos privilégios de sempre. Com suas quatro décadas de janela, Zico saberá e precisa utilizar seu único instrumento quando os Cabos Anselmo soarem as trombetas do apocalipse e começarem a minar seu trabalho, como já fazem: sua enorme credibilidade para gritar e avisar que tem traíra na área.

Lúcio de Castro

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