Ouviram do Maraca as margens plácidas

Todos os anos, entre os meses de junho e julho, são lembradas as efemérides relacionadas às participações brasileiras em Copas do Mundo. Em ano de disputa do torneio, então, não passa uma. Afinal, a única seleção do mundo que participou de todas as edições acumula grandes vitórias e derrotas. Hoje, por exemplo, faz 60 anos que perdemos para o Uruguai no Maracanã. E se Nélson Rodrigues disse que perdemos o complexo de vira-latas com a vitória de 58, Roberto Vieira arrisca dizer o Brasil nasceu, de verdade, após o gol de Ghiggia.

16 de julho de 1950: o nascimento de uma nação

Mentem os livros de história.
Como sempre.
O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral.
O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga.
O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950.
Às margens do Rio Maracanã.
O Brasil que se imaginava rico e febril.
O Brasil que sonhva com vitórias nos campos de batalha.
O Brasil que se vestia de branco e azul.
Morreu.
Pelas chuteiras que apedrejam.
Morreu às cinco da tarde em um chute de Alcides.
O alferes Barbosa no chão.
Corpo e alma dilacerados e inconfidentes.
Sem Bastilhas.
Porém, com a cabeça do prefeito guilhotinada.
Transformada em bola de pelada pela turba igualitária.
O Brasil sonhado por poetas de quinta categoria.
Por políticos de plantão em São Januário.
Por técnicos que se elegeriam nas Touradas de Madri.
O Brasil já não existia.
Outro Brasil nascia.
Verde e amarelo.
Um Brasil de inesquecíveis vitórias e derrotas.
Um Brasil, entretanto, com a memória do luto.
A memória Rodrigueana de Hiroshima.
Um Brasil que reconheceu a vergonha da lona.
Muitos caluniaram este Brasil.
Seria uma terra de covardes.
Mulatos e sifilíticos craques sem pedigree.
Cachorros vira-latas.
Melhor seriam os ingleses.
Muito melhor os alemães.
Insuperáveis os norte-americanos que curtiam baseball.
Mal sabiam os sábios.
O Brasil não era Pedro I nem Pedro II.
O Brasil não era 1808.
O Brasil não era a elite do café com leite e açúcar.
O Brasil era a mão calejada das arquibancadas.
Do sonho desfeito numa tarde de domingo.
O Brasil era a lágrima do 16 de julho de 1950.
Reerguendo-se na segunda-feira silenciosa.
Mentem os livros de história.
Como sempre.
O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral.
O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga.
O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950.
Às margens do Rio Maracanã.

Roberto Vieira
fonte: Blog do Juca Kfouri

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2 comentários em “Ouviram do Maraca as margens plácidas

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