33cm e 44 anos depois

Se você não conhecia a história da bola que não entrou mas que valeu como gol na final da copa de 66 e ajudou os súditos da rainha a conquistarem seu único título mundial, já está devidamente informado após todos os programas de todos os canais falarem sobre o tema, fazendo comparações entre aquele jogo e a partida de ontem entre Inglaterra e Alemanha. Pois aí está o melhor texto que encontrei sobre o tema. Saiu do óbvio…

A porta, Charles

Dona Elizabeth se preparava para aquela cochilada depois da macarronada de domingo, porque mesmo ela curte uma massinha, quando tocou a campainha do palácio de Buckingham. Charles, querido, vê quem é, por favor? E Charles, que não é o mordomo, mas o filho, foi à porta. Estacionada, uma Schnellaster amarela do Deutsche Bundespost. Senhora Elizabeth Alexandra Mary de Windsor, por favor, sir?, solicitou o funcionário dos correios de outras terras. Mamãe está dormindo, sir, em que posso ajudá-lo? Ah, claro, sir, o senhor poderia por favor assinar este protocolo de recebimento? Claro, sir, mas do que se trata? Parece que alguma correspondência perdida alguns anos atrás, não deve ser nada de muito importante, sir, prosseguiu o funcionário dos correios de outras terras, hoje uma empresa de economia mista que entrega pacotes no mundo inteiro. Oh, exclamou Charles, sacando de sua Parker de prata e colocando a assinatura real no protocolo um tanto amarrotado.

O funcionário dos correios de outras terras deu-se por satisfeito, entrou na Schnellaster amarela, que sequer causou estranheza em Charles, e saiu soltando sua fumacinha azul alegremente pelos jardins de Sua Alteza. Charles bocejou e largou o envelope amarelado sobre a mesinha da porta de entrada junto da conta de telefone, do boleto do condomínio e do catálogo do Cold Point, que insiste em enviar catálogos com ofertas de fogões e geladeiras, nós não precisamos de fogões e geladeiras, precisamos de máquinas de café expresso, resmungou Charles, não sem antes notar que aquele tampo de vidro já acumulava uma incômoda camada de pó, porque a diarista ontem saiu mais cedo para levar o filho tomar vacina.

E lá ficou o envelope até que dona Elizabeth, no comecinho da noite, procurando o folheto da pizzaria para pedir aquela redonda de todos os domingos, encontrou-o displicentemente largado por Charles na mesinha, e teve a impressão, dona Elizabeth, que aquele tampo de vidro realmente acumulava uma camada de pó indesejável, mas tudo bem, a diarista vem terça-feira. Curiosa, e também porque o envelope era a ela endereçada, rasgou cuidadosamente uma das pontas, sem muita dificuldade, porque aquele papel retrô, ah, essas papelarias, não ofereceu muita resistência.

Dentro, uma fatura. Oh, mais uma conta, não aguento mais pagar contas, a vida está pela hora da morte. Mas era uma conta esquisita, datada de 1966, com palavras que dona Elizabeth achou desconexas, estranhas, sem código de barras, como farei para pagar isso pela internet, perguntou-se dona Elizabeth, antenada nas coisas da cibernética. Sem código de barras, não pago, decidiu dona Elizabeth. Além do mais, ponderou, se é uma conta de 1966, já deve ter caducado.

Caducou nada, dona Elizabeth.

Flavio Gomes
Blog da Copa

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