Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí

De fato, o que se sucede com a camisa do Flamengo desafia e refuta todas as nossas experiências passadas, presentes e futuras. Vejam vocês: – uma camisa que só falta dar adeusinho e virar cambalhota. Quando o time não dá mais nada, quando a defesa baqueia, e o ataque soçobra, vem a camisa e salva tudo. Diante dela, todos se agacham, todos se põem de cócoras, todos babam de terror cósmico. E vamos e venhamos: – como resistir a uma camisa que tem suor próprio, que transpira sozinha, que arqueja, e soluça, e chora? O Flamengo só perde quando não põe para funcionar o milagre da camisa.

Nélson Rodrigues

É sabido e ressabido (se é que essa palavra existe) que Nélson Rodrigues era tricolor, como Armando Nogueira e João Saldanha eram botafoguenses. Assumidos. Sem qualquer frescura, qualquer necessidade de esconder o time para o qual torcia em nome de uma pretensa isenção no analisar de uma partida.

Pombas, como escrever sobre futebol sem assumir e viver suas paixões? E sem deixar, as paixões, lhes dar nas telhas?

Ando meio incomodado com o que se convencionou chamar de crônica esportiva hoje em dia. Na verdade, um apanhado de espaços nobres ocupados por textos assépticos e espartanos que, em sua grande maioria, analisam e reanalisam tudo taticamente. E apenas isso.

Usando os jogos de ontem como exemplo, como se dedicar tanto à táticas e esquemas pré-moldados de pretensos professores pernósticos e semi-analfabetos quando um Kleber é expulso com dois minutos de jogo ou quando Ganso, apagado até então, resolve abreviar os mais de 30 metros com um tiro único e certeiro, no ângulo? Como não levar em conta o que é mais importante ao se olhar para o gramado? Ainda não deu pra entender que estou falando do sujeito, do ser humano?

Pois é, não existem pranchetas, rádios e computadores capazes de suplantar a soma de coração e cérebro.

E por que cargas d’água todo esse prelúdio?

Porque hoje é dia de Flamengo. Porque hoje é dia em que o Flamengo terá de ser mais Flamengo do que nunca. Puro coração, pura alma. Hoje é dia do Manto entrar em campo, não importa se vestindo imperadores ou vassalos, e viver em 90 minutos os seus 114 anos de história. Hoje é dia de Manto.

E não falo isso porque o tal time chileno é uma maravilha, a quintessência do futebol mundial. Não chega perto. Acredito, inclusive, que o Flamengo seja melhor (apesar de não ter dado certo ainda). Mas o fato é que a coisa anda esquisita pelos lados da Gávea. E é por isso que é dia de manto.

Hoje é uma daquelas noites em que uma pelada se torna épica pelo simples fato de acontecer. Dois a zero nos caras, na casa deles ou em qualquer lugar do universo, seria mole. Deveria ser. Mas não será. Porque o Flamengo é capaz das coisas mais incríveis, das maiores façanhas, das piores tragédias. De fazer qualquer riscar de fósforos se transformar em trabalho de Hércules. E hoje não será diferente.

Acendam-se as fogueiras, apaguem-se os vulcões, dominem-se dragões, derrubem-se as colunas. Hoje é dia de manto.

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Um comentário em “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí

  1. Graaaande Gustavão…que saudade mulequeee!!
    Como vão as Princesas??

    Que belo texto do Nelson Rodrigues, bons tempos!
    Quem, hoje em dia, é capaz de escrever assim?
    O hábito de acordar às 5:30, comprar o Jornal dos Sports,
    subir no 238 e ler as cronicas era puro deleite, de arrepiar!
    Isso aí era 1968/69……que delicia.
    Vc está com toda a razão.
    Fazer o que??…..vamos torcer pelo Fla!

    Abraço

    Leonardo

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