Anticlímax (ou por que a Globo faz isso?)

Há pouco tempo escrevi sobre o padrão global na transmissão de eventos esportivos, o ufanismo exacerbado da era Galvão Bueno, a desinformação absurda em detrimento do Brasil-sil-sil. Mas esse não é o único problema da Venus platinada. Não são raras as histórias de que a emissora compre alguns eventos que, para que sua grade básica não seja atrapalhada, acabam sem ser transmitidos ou oferecidos aos pedaços. Isso melhorou um pouco depois da criação dos canais SporTv, mas não acabou. E tivemos um grande exemplo no último final de semana.

Não sou fã da Stock Car, pelo menos da forma atual de se apresentar da categoria. Mesmo assim, como adoro corridas de automóveis, se estou em casa de bobeira e a corrida está na TV, paro pra ver. Mas aí, no último domingo, a Globo assumiu a transmissão da prova realizada no Velopark, previamente programada para a SporTv. E a transmissão foi assim: começou 20 minutos após a largada e foi encerrada a três voltas do fim.

Sobre isso, divirtam-se com o texto abaixo.

Saiam, meus amigos

A giornata é a 36ª e confronta em um de seus dez jogos deste fim de semana a agremiação da cidade de Catania, homônima, e a principal de Turim, a Juventus, uma velha senhora que vira velho senhor por conta da masculinização dos nomes de times, não só de caráter internacional. Ao Catania, resta nas últimas três rodadas fugir do rebaixamento, e à Juve, nada mais que uma difícil vaga na Champions League. Em suma, um jogo de nada com coisa alguma.

Mas o jogo está lá, SporTV, pimpão e imponente, 11 da matina, ocupando o lugar da corrida da Stock Car que estava programada, inclusive no site da emissora, para ser exibida ao vivo e, creio, na íntegra. Troquei para o SporTV2, e lá havia a final do Masters 1000 de Roma, que, óbvio, deve ser passada.

A Globo terminava de transmitir a maratona de São Paulo. Depois, as apresentadoras “jogaram a bola” lá para a África do Sul, onde o apresentador que geralmente divide o estúdio com elas dava início a uma interessantíssima matéria de futebol estilo livre no país da Copa. Entre devaneios e divagações, surgia a Stock Car na tela. Volta 20 de 50. Acionei o cronômetro.

O carro de segurança, que no mundo todo é o safety-car, estava em curso. Aí a gloriosa emissora foi tentar sintetizar o que havia acontecido em 2/5 da prova. Parecia aqueles resumos que o professor de Filosofia pedia para se fizesse em fichamento escritos dez minutos antes de entregá-lo. A largada, o toque ali, o carrinho amarelinho na ponta, seguido pelo carro todo rosa, tudo em microssegundos, e vamos em frente, porque corrida de carros segue uma lógica matemática, e talvez faltasse ali a presença do Dr. Stock, para nos explicar com exatidão, porque confesso que pouco estava entendendo, limítrofe que sou.

Dos primeiros raciocínios lógicos, concluí que aquela primeira curva do circuito do Velopark é, digamos, cretina. A área de escape é válida, mas um cotovelo daqueles espremido só podia resultar em problemas sequenciais — não à toa foram cinco entradas do SC —, também auxiliado pelo fato de que há uma meia dúzia de pilotos ali que destoa de um nível de competição mínima. A corrida em si recomeçava, e com ela o show de caracterização dos carros por suas cores e números, as apostas internas no bolão que não era o BRV e o posicionamento de que aquele era o mais novo autódromo brasileiro numa cidade da Grande Porto Alegre. E então vinha a explicação por Valdeno Brito estar em quarto: os boxes. Que, claro, passaram longe do esboço daquele resumo de porco.

Aos trancos e barrancos lá fomos nós para o fim da corrida, que segundo meu ágil cronômetro já durava 24 minutos, um múlti plus bônus de quatro minutos para todos os espectadores. E o carrinho amarelinho — prazer, equipe RC  — de Ricardo Maurício permanecia em primeiro, com Átila Abreu e Júlio Campos na sequência, e aí veio mais um toque naquele cotovelo de araque, mais uma paralisação, e aí a TV cansou. Já bastava, afinal o público já havia sido deveras agraciado e premiado neste domingo por uma luz incidental semidivina, e um minuto a mais na TV custa uma grana exorbitante. Mas faltavam três voltas ali para terminar a prova, pode ter ali lembrado um mero assistente de direção atento à indicação dos caracteres na parte superior da tela. Corta, corta, gritaram, já deu, e aí o coitado do bom Luis Roberto é obrigado a se ver na vexatória situação de, ao vivo, perguntar para seus tutores, “continuamos ou saímos, meus amigos?”, e “seus amigos”, que não são amigos de ninguém mais, hesitantes, cortaram para o estúdio para tivesse início uma aventura fascinante, formidável e estonteante nas corredeiras de um rio no Tocantins, pelo que compreendi.

Uns tantos minutos depois, a chegada foi resgatada em VT.

Quando eu já me preparava para desancar a falar mal desta patacoada que é o conglomerado Globo-Stock Car, Rubens Barrichello veio ao Twitter para ajudar. “Cortar a transmissão da Stock Car a 3 min do fim é muito frustrante. Até desliguei a TV”, disse, e Barrichello aproveitou o fim deste show de Truman para ir fazer exercício, talvez pensando aqui e ali como ele se põe na mesma posição de todos nós numa situação destas, a de trouxa e babaca, para ficar só neste nível, porque Barrichello poderia ter ido correr e fazer seus polichinelos antes, enquanto eu poderia ter aproveitado algum tempo de sono a mais, e os demais, a mesma coisa. É que nós, Barrichello, eu e todos, acabamos medidos em pontos, e somos poucos, 3 ou 4, e os pontos precisam ser maiores para uma emissora acostumada aos dois dígitos, e a Stock Car representa a escória e o resíduo de sua programação, e nós acabamos sendo nivelados a isto. Só que há uma diferença nesta questão: a Stock Car gosta de ser escória e resíduo.

Porque, no fundo, a Stock Car faz a mesma coisa que a Globo: trata todos os seus patrocinadores, incentivadores, apoiadores e afins como trouxas e babacas. E ao que noto, estes todos que vêm seguindo a categoria nos últimos anos assiduamente gostam de ser escórias e resíduos, embora muitos deles ali estejam porque a Stock funcione para elas como uma bela Brastemp.

Os pilotos, os chefes de equipes e os mecas até poderiam entrar nessa caracterização da merdificação e da babaquice, mas eles são uns coitados, na verdade, porque precisam e querem trabalhar num amplo país reduzido a uma categoria que é subordinada a esta emissora, já que a entidade que administra isso, a tal da CBA, é só o tempero deste prato que ninguém consegue digerir. Uma coisa nova pode vir em 2011, pelo que ouvi dias atrás, mas como o negócio ainda é incipiente, em fase de conversas com montadoras, trabalhemos com esta realidade: é um pecado esta gente toda, competente em sua maioria, depender da Stock Car.

O que aconteceu hoje, enquanto resultado que vi pela TV, não se deu pela primeira vez e talvez não seja a última. Então é simples, meus caríssimos: não vejam mais, não levem a sério a Stock Car, não sejam masoquistas funcionais atrás de uma esperança natimorta. Vão ler um livro, ir para o churrasco dos amigos, passear, correr, dormir, ocupar o tempo do qual todos reclamam em algum momento que é curto com uma alguma coisa útil e proveitosa. E se a questão é ficar na frente da TV, mais simples ainda: pegue gentilmente seu controle-remoto e acione os botões que permitam a troca de canal.

E ainda que não tenha sido feita para o público em geral, todo mundo se sente livre para se intrometer e responde à pergunta feita por Luis Roberto. Saiam, meus amigos.

Victor Martins (Blog Victal)

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