Crônica de sexta-feira (2)

Eu diria que, sob os olhares da sociologia, antropologia, filosofia e – claro – botecologia, Rodrigo é uma personagem interessante.

Uma das manias que esse mineiro que gosta de corrida de automóveis tem é enviar, às sextas-feiras, um texto sobre qualquer assunto. Envia para amigos, colegas de trabalho etc. Geralmente algo divertido, às vezes chamando atenção para alguma data próxima ou usando uma data qualquer como pretexto ou sem qualquer razão específica, apenas para exercitar a escrita, manter a tradição e os contatos em dia. Como no carnaval.

Dessa vez, com o feriado no Rio, só vi o e-mail dele hoje de manhã. E sobre algo que martela minha cabeça já há algum tempo. Principalmente morando em uma cidade onde um sujeito, qualquer um, é capaz de criar um movimento contra os carros que estacionam sobre as calçadas e, pouco tempo depois, sob a desculpa do ‘é rapidinho, só pra tomar um café’, ocupar o espaço sagrado dos pedestres com seu próprio carro.

Enfim, dessa vez, Rodrigo colocou o dedo em uma ferida antiga. O brasileiro é sim capaz de se mobilizar pelo que lhe interessa. O problema é o que interessa ao brasileiro a ponto de movimentá-lo.

Faltam uns tantos dias . . .

Na televisão, no rádio, em outdoors, nos cinemas, nas conversas dos butecos, em casa, com os vizinhos, nos ônibus, . . . nesses dias está difícil não ver, ler, ouvir ou participar de uma conversa – das superficiais até calorosos debates – sobre a Copa do Mundo da África do Sul.

“O Brasil é o país do futebol”. Pode ser. Pelas características básicas deste esporte (popular, praticado em locais abertos, esporte barato para o povo, os títulos conquistados, etc) não há como negar que o nosso país e o futebol são estreitamente ligados através dos tempos.

O que me impressiona é a capacidade de mobilização da sociedade (ou de grande parte dela) em torno de mais uma Copa do Mundo, de mais uma seleção brasileira a caminho do título. Lembram-se dos (tristes) anos Médici?

Será que nós brasileiros sabemos quantos dias faltam para as eleições? Qual o prazo que temos para defender ou criticar  a aprovação de algum projeto de nosso interesse nas nossas Câmaras Municipais, nas Assembléias Legislativas Estaduais, na Câmara Federal, no Senado ou até mesmo na assembléia do nosso condomínio, nas associações de moradores de nossos bairros, nas escolas dos nossos filhos e por aí afora?

Não pensem que este texto pretende ser um protesto contra a mídia esportiva. Não, apenas pretendo registrar o fato – inegável para mim – que a sociedade brasileira consegue, sim, se mobilizar quando assim deseja. Futebol e Diretas Já podem ser citados como exemplos históricos mas na minha opinião muitas e importantes oportunidades já passaram e continuam passando em branco.

Aposto que a maioria de nós não sabe nada dos assuntos descritos acima mas também não se importa mesmo com isso, e vai levando a vida do jeito que está, pois, afinal, vem aí mais uma Copa do Mundo e é isso que interessa mesmo, né Dunga?  Nunca negaria que eu mesmo não me importo com muitas coisas com as quais deveria importar e agir, mas como sou um privilegiado, pela profissão, pelas leituras diárias de jornais, sou mais informado que a maioria da pessoas e por isso talvez devesse me importar mais. Mas pra que? Se está tudo bem comigo, por que se preocupar com o bem comum? Esta é a lição que devemos aprender.

Bem comum, êta expressão tão desconhecida, tão deixada de lado, tão fora de moda nos tempos atuais e nem por isso deixa de ser tão necessária, fundamental para uma perfeita vivência de todos nós numa democracia. Já pensaram uma reunião de condomínio (desculpem a repetição mas, para mim, o condomínio é um dos mais perfeitos exemplos da menor e mais íntima experiência democrática que uma pessoa pode ter) animada quanto um encontro para fazer o bolão da Copa? E assim por diante, depois do Condomínio poderíamos ter participações rotineiras, conscientes na nossa turma, na rua, no bairro, na cidade, na região, no estado…

Utopia? Para alguns pode ser, para outros não, pois é claro que tem muita gente se esforçando para melhorar o bem comum. Pena que fazem parte da minoria. Você conhece alguém? Participa ou apoia alguma iniciativa? Em caso negativo, não se preocupe, você é um(a) brasileiro(a) normal, procurando cuidar do que você precisa cuidar, das suas coisas, dos seus relacionamentos.

Isto não é errado. Errado é constatar manipulações puramente comerciais, algumas sem ética, da consciência coletiva, em favor de benefícios exclusivos para alguns poucos grupos sociais e não fazer nada.

Procure fazer algo, nem que seja um texto semanal dirigido à pessoas queridas. Esta é uma vantagem proporcionada pela Internet, a comunicação rápida e fácil. Faz um bem danado para o ego, ainda que seja uma atitude minúscula sob o ponto de vista geral.

Rodrigo Faria

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