Como se não fosse tão longe

Não consigo gostar de Brasília. E uma das razões de não ter escrito nada sobre o cinqüentenário da cidade até agora, foi a minha dificuldade em encontrar uma maneira delicada de falar mal sem ser grosso ou indelicado. Não encontrei, nunca tive muita vocação para o politicamente correto.

A verdade é que há razões suficientes para nenhum carioca gostar de Brasília. Simplesmente porque a transferência da capital federal significou o início da destruição da cidade maravilhosa. E digo isso porque, por mais que ame minha cidade, por mais que as principais características da cidade tenham sido mantidas (até porque já estavam aqui antes dos homens brancos chegarem em suas caravelas), já faz muito tempo que o Rio deixou de ser a Cidade Maravilhosa.

A história da Nova Cap começa muito antes de Juscelino ’50 anos em 5’, pois o presidente bossa nova apenas cumpriu um projeto mais do que antigo. O Marquês de Pombal já propunha mudar a capital do império para o interior do Brasil em 1761. Hipólito da Costa, fundador do Correio Braziliense (primeiro jornal brasileiro, que era editado em Londres por fazer oposição), escreveu um artigo sobre o tema em 1813. O primeiro a chamar de Brasília a futura capital foi José Bonifácio (1823) e na primeira constituição da república, de 1891, já havia um dispositivo prevendo a mudança da capital para o interior do Brasil. Já conhecia um pouco dessa história, mas juntei as informações da Wikipédia, mais organizadas.

Registro histórico feito, ao que interessa. Ao tirar a capital federal de um grande centro, no caso o Rio, toda a cúpula do governo federal se viu livre das pressões naturais que existem pela proximidade com a população. Brasília é uma espécie de ilha da fantasia, cercada de nada por todos os lados.

De quebra, a dinheirama gasta na construção da cidade nos deixou de presentes uma dívida absurda, sem contar na elevação à estatura de gênio de Oscar Niemeyer. Há duas obras do arquiteto centenário que gosto muito: a catedral de Brasília e o MAC de Niterói, um disco voador que paira sobre as águas da Baía de Guanabara. No mais, como está no link indicado pelo Giorgio, é puro concreto, sem vida, sem árvores e até sem janelas (é impossível viver em um edifício criado por ele sem ter ar condicionado ligado o tempo todo).

Sobre o Rio, o que dizer? A cidade foi relegada a segundo plano, culminando com a unificação da cidade estado com o estado do Rio, na década de 70. Pois desafio alguém a me mostrar em que o Rio de Janeiro melhorou desde que deixou de ser capital do país (eventuais evoluções naturais de uma grande cidade e o fato dos nossos deputados, senadores e presidente não estarem aqui não contam). Nada demais nessa constatação, porque é muito diferente cuidar da capital do país e de uma outra cidade qualquer.

Enfim, candangos à parte, não tenho qualquer motivo para comemorar ou mesmo parabenizar alguém ou alguma coisa pelo aniversário de Brasília.

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2 comentários em “Como se não fosse tão longe

  1. Gustavo e Giorgio, blasfemaram os dois!!! Niemeyer nao eh genio? Brasilia eh uma virtuose arquitetonica, uma das maravilhas do mundo moderno, e nao deve ser vitima do recalque gerado pela transferencia da capital. E ele nao eh autor de uma obra soh; nem preciso enumera-las aqui. Tah certo que o conforto termico das suas edificacoes sao um pesadelo (ouvi muito isso no curso de arquitetura), mas, cara, que estilo!

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  2. aliás, existe um outro motivador (ou consequência) em Niemeyer: Brasília e o entorno de qualquer projeto do velho comunista rico garantiram um monopólio de seu escritório em projetos futuros que envolvam estas áreas. Isso é que é fazer arquitetura futurista…

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