Alma, palma e coração

É claro que existem mil razões para alguém escolher sua profissão. Alguém vai lembrar de uma tal vocação e eu rebaterei. Ela, a tal, pode até existir, mas não for despertada de alguma maneira… A conclusão é óbvia.

Um dia, abri o jornal e dei de cara com o texto de Armando Nogueira. Já não lembro qual das suas muitas crônicas era a do dia, mas sei que foi com a sua leitura que resolvi ser Jornalista. Habituado a ler de tudo desde criança, foi no texto de Armando que percebi que seria possível escrever em jornal, sobre o que se gosta, sem esquecer do cuidado, do carinho que a palavra merece.

A essa altura, mais de 24h depois do falecimento do cronista (entre outras coisas), já não cabe tentar descobrir histórias engraçadas ou curiosas para ilustrar qualquer coisa, todo mundo já fez. O mesmo para seus textos e frases espetaculares. Todo e qualquer jornal que circula hoje, os portais, as TVs e rádios de ontem, todo mundo já estampou suas coleções de palavras de Armando Nogueira.

Nesses tempos em que o tempo voa, não foram raras as vezes que ouvi colegas maldizendo seu texto chato, modorrento. Como em um almoço de família, repetia para mim mesmo o chavão ‘é bom que sobra mais’. Afinal, poderia ler em paz sem ninguém pedir o jornal emprestado, poderia folhear o livro sem a pressa de passá-lo à frente.

Sem o hábito de ligar o computador aos finais de semana, ao menos para escrever ou trabalhar, poderia ter gasto a segunda-feira falando da corrida sensacional da Austrália, em que todo mundo agradeceu à chuva e quase ninguém se deu conta de que pilotos estavam mesmo com vontade, com pista seca ou molhada; poderia fazer a piada da hora sobre o Santos (“Crise no Peixe, vitória só por cinco gols gera tensão na Vila); talvez devesse espinafrar o Flamengo pela atuação medíocre contra o América, apesar da vitória; falar bem do juiz que resolveu multar o Lula pela campanha antecipada; reclamar da prefeitura pela falta de manutenção das rampas de acesso nas esquinas da praça Afonso Pena; ou, finalmente, contar como foi a reunião com o secretário de transportes que não apareceu. Ou qualquer outra coisa que me desse na telha.

Sinceramente, não vi sentido em escrever qualquer coisa ontem. Como ainda hoje, mas há que se viver o luto.

Tenho em casa uma pasta de textos que, em revistas e jornais de folhas, me chamaram a atenção. Entre os muitos retalhos de papel que transbordam daqueles pedaços de plástico que tentam imitar o couro, vários são da lavra de Armando Nogueira. Estão lá frases clássicas, como a bola que pediria autógrafo a Pelé e o latifúndio que um guardanapo era para Mané. Também está lá a homenagem a Zico, no dia de seu jogo de despedida, e o texto sobre a primeira conquista de Guga em Roland Garros, em cita a volúpia das paralelas e o cinismo dos lobs do campeão.

Separei três pílulas, pérolas na verdade. Uma espécie de auto-definição, a lembrança do garoto Denner que morreu em um acidente de carro no Rio e uma crônica completa que, sem nenhuma de suas frases que entraram para a história, apresenta todo o estilo de alguém que nunca deixou a crônica esportiva cair no lugar comum.

Tenho a alma, a palma e o coração de jornalista

A morte o surpreendeu enquanto ele dormia. Se ele estivesse acordado, até ela seria driblada

Peladas

Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.

E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe.” Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.

Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA – Especial.” Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.

No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.

Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.

Nova saída.

Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.

O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.

Em cada gomo o coração de uma criança.

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