Um homem de família

Antes de falar do que interessa, gostaria de agradecer à Light por mais uma falta de luz. Dessa vez, a desculpa foi a chuva. De outras o calor. Fiquemos esperando qual será a próxima. E graças a ela, o texto que ficou pronto no domingo à noite, só vai ao ar pela segunda de manhã. Por acaso, não é trabalho. Mas se fosse, quem, como e a que custo pagaria o prejuízo?

Enfim, foi impossível não fazer o mínimo de relação entre esse final de semana, o primeiro de Fórmula 1 do ano, e o filme estrelado por Nicolas Cage em 1999. Não vi qualquer treino, livre ou de classificação. Assisti à corrida, mas a família tra-la-lá já estava pronta pra sair de casa poucos minutos depois da bandeirada de chegada.

De certa forma, não é ruim esperar quase o dia inteiro para sentar e escrever com calma sobre a corrida, deu tempo de pensar em tudo o que aconteceu (e não aconteceu). Pra facilitar a vida de quem escreve e, quem sabe, da meia dúzia de três ou quatro amigos que passam por aqui, vamos por partes – como diria o Tião, açougueiro da esquina.

– Antes de falar da corrida, gostaria de saber quem foi o gênio que resolveu usar um pedaço de pista em que carros de Fórmula 1 não conseguem passar da segunda marcha. Se já não bastasse a falta de personalidade do circuito barenita, substituíram um trecho de velocidade razoável em que havia uma variante de média/alta por trocentas curvas de autorama. É mais ou menos como fazer os carros disputarem uma prova na Estrada do Joá. Só que sem graça, porque em vez da vista do mar e do ambiente da montanha, areia do deserto. Resumindo, uma corrida quase mixuruca em uma pista mequetrefe.

– O primeiro detalhe da prova não foi nenhuma surpresa: a confirmação do tal G4 que a pré-temporada apresentou. Ferrari, Red Bull, McLaren e Mercedes largaram e chegaram nas oito primeiras posições. E se os carros empurrados com motor Mercedes partiram um pouco atrás das outras duas em termos de performance, a Red Bull perdeu uma corrida praticamente ganha para a falta de confiabilidade do seu carro. Um problema no escapamento tirou potência de Vettel no último terço da prova. Italianos, brasileiros e espanhóis vestidos de vermelho agradeceram penhorados.

– Problemas da Red Bull à parte, Alonso ganhou a corrida na saída. Todo mundo achou estranho quando Massa torceu o nariz pelo segundo lugar no grid. E a largada foi didática. Do lado sujo da pista, tracionou mal e – tentando defender posição – acabou entrando nas primeiras curvas em situação desfavorável. Alonso levou a melhor. Sendo a Ferrari extremamente conservadora, dificilmente deixaria seus pilotos abrir uma briga direta por posições. Pra completar, Massa ainda foi obrigado a tirar o pé no final, por problemas de superaquecimento. Para o espanhol, o óbvio: com a vitória na estréia, muita confiança. A luta de Massa será inglória, mas a situação pode ser um dos pontos altos da temporada, porque o brasileiro mostrou que não restou nenhuma seqüela do acidente que o tirou da temporada passada.

– Entre as equipes que fariam parte do segundo grupo, algumas observações. Williams e Force India começam o campeonato brigando pelo quinto lugar entre os construtores e, por algumas circunstâncias de corrida, podem até se meter entre os oito carros mais fortes. Os indianos levam certa vantagem sobre os ingleses se olharmos para a temporada completa, pois têm uma parceria técnica com McLaren, motor Mercedes e mais grana para desenvolver o carro. Toro Rosso e Sauber foram uma grande decepção, principalmente a segunda, que teve seu brilhareco nos treinos coletivos espanhóis. E Renault parece estar melhor do que todos esperavam. Com o talento de Kubica e Petrov (que dadas as possibilidades, fazia uma grande corrida), pode fazer algumas surpresas, principalmente em pistas de baixa.

– Entre as novatas, nada além do esperado. O grande momento foi a fantástica largada de Lucas Di Grassi, um belo cartão de visitas. A Hispania fez pouco mais do que um shakedown, enquanto o time de Richard Branson mostrou as fragilidades de um projeto construído completamente no computador. De qualquer maneira, o carro tem algum potencial. O destaque do dia foi a Lotus, que conseguiu levar seus dois carros até o final.

– De maneira geral, a corrida foi modorrenta. Pela expectativa que havia, parece que foi muito melhor esperar pela festa do que participar dela. De qualquer maneira, as novidades farão bem ao campeonato. Mas é bom saber que mesmo que o número de ultrapassagens aumente, acontecerão muito mais por questões técnicas, como desgaste de pneus ou problemas de freio e motor, graças à nova dinâmica provocada pelo não reabastecimento. Como aconteceu hoje, quando as Ferrari e Hamilton deixaram Vettel pra trás. Se depender da aerodinâmica, nada mudará em relação aos últimos anos. Ainda mais com os pneus dianteiros mais estreitos. Entrar no vácuo, fazer curva embutido… Todas essas manobras de preparação para uma possível ultrapassagem tornam o carro indirigível.

– Da primeira corrida, valeu mesmo o acúmulo de informações que os times levarão para as próximas. As trocas de pneu prometidas a pouco mais de dois segundos não aconteceram. Os tempos devem até cair, mas nada assombroso. No patamar de hoje, entre 4 e 5 segundos, ainda não vale a pena correr o risco de fazer duas paradas em função do tempo total perdido. De quebra, a durabilidade dos pneus – mesmo os macios – não causou grandes perdas de rendimento.

– A próxima corrida acontece em duas semanas, no circuito de Albert Park, em Melbourne. Pista tradicional, muito mais divertida para pilotos e espectadores, meio autódromo, meio circuito de rua. Carros e pilotos não sofrerão com altíssimas temperaturas e areia. Pneus também devem sofrer menos, pois o asfalto é muito menos abrasivo. Se alguma equipe levar atualizações, devem se resumir às novas, principalmente peças mais resistentes na Virgin e qualquer coisa que possa, pelo menos, aproximar a Hispania das outras duas estreantes.

– Por fim, mais uma triste transmissão da Globo. O que é VRT? É como os profissionais da vênus platinada chamará a Virgin. Outra: apesar de ter Emerson Fittipaldi na cabine, e principalmente na hora de se despedir do bi-campeão, o narrador (ele mesmo…) falou muito mais que o convidado. Também tentaram fazer sentimentalismo barato com o Bruno Senna que, brilhantemente, não se deixou levar. No final, narrou o final da corrida uma volta antes do que devia. Triste é ver alguém como Reginaldo Leme preso a essa engrenagem.

– Também pode ser divertido para alguém (tem louco pra tudo) ouvir o Mania de Esporte da semana passada e comparar o que aconteceu na corrida e as previsões que foram feitas.

As fotos são do IG, Globo.com e do site oficial da Fórmula 1

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