57 dZ

Como vocês vão ler aí embaixo, pra muita gente hoje é Natal. Pra muita gente, hoje começa o ano 57 dZ. Hoje é aniversário de Zico. Andei quebrando a cabeça sobre o que escrever sobre o cara que me fez apaixonar por futebol e, de quebra, despertou em mim o amor por uma certa camisa vermelha e preta.

Andei meio perdido, sem saber o que escrever porque, mal ou bem, já tinha usado o jogo de final do ano promovido pelo Galinho para lembrar da minha infância e homenagear meu pai.

Daí que recebi a entrevista abaixo por e-mail. Obrigado Marcelo, pela dica; parabéns ao Lúcio pela entrevista; parabéns ao Zico, por tudo. Inclusive seu aniversário.

Zico, 57 anos

     por Lúcio de Castro*

Estar próximo e conviver com seus ídolos. Para muitos que estão de fora do jornalismo e para muitos jornalistas, é um dos grandes atrativos da profissão. Penso exatamente o contrário, e aprendi isso ainda foca. De maneira geral, quase em 100% dos casos, conviver com o ídolo, conhecer, é se decepcionar, perder aquela magia. É o ser humano em carne e osso, com todas as suas fraquezas, vaidades, todas as nossas imperfeições.

Acrescidas geralmente da vaidade absurda das estrelas, de uma vida dupla, uma coisa publicamente e outra privada. Aprendi logo outra lição: com a câmera ligada, todo mundo é legal. Assim que desliga… Quando admiro muito alguém, rezo para não conhecer muito ou conviver para manter isso intacto. Sobraram uns três ou quatro com quem, além de manter intacta a admiração, vi ela ela crescer. Falarei deles com o tempo.

Romário (tão diferentes, mas os dois sangue-bons!), Guga e…Já começo a fazer força…Ainda saem mais uns poucos…Mas Zico é muito diferente. Zico é impressionante. Que se danem os manuais chatinhos, vou fazer uma reverência aqui com imenso prazer.

Imaginem que já fiquei de longe olhando Zico sem que ele soubesse que eu estava ali para ver ele lidando com as pessoas. Aquele cara não podia ser tão legal, tão simples. Quebrei a cara. Sem câmera, sem ninguém ver, Zico é como eu, como você. Sem ser politicamente correto, chato. Para você que tem alguma dúvida se ele é isso mesmo que parece ser, te digo: esse cara é do cacete!

Para muitos que conheço, hoje, dia do aniversário dele, é dia de Natal. Zico também não gosta muito desse papo de Deus. Então, aproveitei para bater um papo sem muitas questões elaboradas, quase um varandão da saudade. O papo que teríamos num botequim. Falando “pra” em vez de “para”, “tá” em vez de “está”, resenhando. Ainda assim, ou por isso mesmo, saiu notícia.

Veja se o seu sentimento é o mesmo que tive: acho que Zico tá pronto pra ser o próximo presidente do Flamengo, e começa a considerar isso. Bastante. Nesse meio do futebol, de nossa cartolagem, vai ser um oásis, alguém duvida?

Lúcio de Castro – Quase sessentão, já dá pra fazer um balanço de tudo até aqui?
Zico – Não, me tira dessa de sessentão! Agora ainda não dá pra sentar nessa de sessentão porque três anos são importante pra caramba! Vai demorar ainda! Tem três anos ainda pra isso, muita coisa pra fazer até lá!!! Tou aqui pra fazer 57 e você vem com esse papo de sessentão!!! Mas dá pra olhar pra trás, agradecer a Deus por tudo, ter feito uma coisa que gosto, que sempre tive vontade, ter construído uma família, ter tido uma família que me ensinou uma série de valores. Dá pra olhar pra trás e me orgulhar.

Lúcio – Em tempos de balanço, já dá pra dimensionar o que é ser avô?
Zico – Um momento maravilhoso. O Parreira me falava nisso, e é realmente maravilhoso. E podendo retomar algumas coisas, alguns momentos da minha vida em que não pude estar tão presente com a Sandra pelos compromissos. Nossa vida é muito corrida, você acaba perdendo muita coisa do crescimento dos filhos, viagem, concentração… Agora tenho tempo, tou vivendo uma uma experiência única vendo uma nova geração da família!

Lúcio – Viver tudo isso que viveu, o Maracanã das tardes de domingo em reverência e idolatria durante anos, Copas do Mundo, Tóquio, Libertadores, a massa gritando que você é o Rei, muda um pouco a condição em relação aos pobres mortais, quer você queira ou não. São experiências únicas, não parecem humanas para nós, os mortais. Talvez por isso quando a carreira acaba a distância de tudo isso seja tão forte e em alguns casos, insuportáveis quando viram apenas lembranças. Como vive isso tudo, essa saudade? Daria muita coisa pra ter um pouco mais dessas emoções?
Zico – Sinto falta, claro mas tem que ter compensação por tudo isso que vivi. Vou num jogo como fui no último jogo do Flamengo, e a torcida tem um enorme carinho. Isso mostra o que realizamos, mas não olho pra trás no sentido de ver o que faz falta e sim das coisas boas que vivi. Falta aquela adrenalina sim, da competição, do clima, o estádio lotado, a maioria sente falta é disso e isso não tem volta. Mas tive a oportunidade como técnico de viver uma adrenalina que não esperava mais. Viver uma Champions League é uma adrenalina muito parecida com a de uma Copa do Mundo, uma coisa muito forte.

Lúcio – Já tivemos a oportunidade de conversar isso antes, pessoalmente, mas não dá pra passar…Na minha opinião, o Flamengo só terá jeito efetivamente quando se livrar das diversas correntes que ali habitam, em sua maioria como parasitas. E para se livrar delas todas, só alguém que tenha com muita força ali dentro, alguém que possa limpar tudo. Ou seja, só você. Tá chegando a sua hora de ser presidente do Flamengo?
Zico – Acho que por tudo o que construí no Flamengo tenho alguma vantagem sobre outros. Acho que tem pessoas capacitadas pra isso, com projetos e programas. Vejo a própria Patrícia Amorim como uma pessoa que viveu dentro do clube, pode fazer transformações. Agora, o que não posso aceitar é que um clube como o Flamengo tenha um colégio eleitoral de dois mil eleitores, e que um presidente seja eleito com 700 votos. Isso que tem que ser revisto. Do jeito que é hoje, o sujeito para ser eleito tem que fazer um monte de acordos, coalizões, e isso pega lá na frente. É isso que gera todas essas correntes vivendo ali dentro.

Lúcio- Mas hoje você avalia mais concretamente essa hipótese de ser presidente do Flamengo?
Zico – Hoje já chego a avaliar isso sim.

Lúcio – O que ficou de mais forte pra você daquele time mágico do Flamengo que você fez parte?
Zico – A amizade, o respeito. Hoje mesmo, antes de falar contigo, estávamos juntos em uma gravação, e o clima ainda é espetacular. Ganhamos muito porque a gente se gostava, se respeitava. Eu sabia do meu papel, minha importância, mas o fundamental era transformar isso em benefício do coletivo. Agora, quer saber mesmo: o mais importante de tudo é que todo mundo jogava muita bola! Todos jogavam muita bola!

Lúcio – Com tanta estrada, tendo visto de tudo no futebol, como ninguém você pode tentar explicar: de onde vem essa magia do futebol brasileiro, que resiste intacta através dos tempos aos piores cartolas, aos piores homens, a um monte de lama…
Zico – Resiste pela qualidade do jogador brasileiro, pela necessidade de sobrevivência, de correr atrás do pão de cada dia. A maior parte vem de baixo mesmo. Isso faz com que se passe por cima de tudo. O jogador sabe que tão acima dele sugando, se beneficiando das coisas, que tem tudo isso. O jogador sabe, mas ele precisa vencer e faz tudo por isso.

Lúcio – Hoje já consegue definir o que é ser Flamengo?
Zico – Não, não… Não dá pra definir. É uma série de coisas mágicas. Amor, paixão, isso tudo que faz o Flamengo ser essa religião que é.

Lúcio – Olhando para trás, pensando em quem ficou na caminhada, quem faz muita falta?
Zico – Meus pais fazem muita falta. E meu irmão Antunes. Na verdade, meus pais viveram a vida deles, fazem uma falta imensa, mas pela lei natural da vida chegaria esse momento. Mas meu irmão Antunes, que foi o cara que me criou, já que meu pai já me teve mais velho, estaria com 65 anos hoje, era para estar aí…Ele tomou conta de mim, aprendi muito com ele, faz muita falta. Mas vivi numa família maravilhosa, muito humilde mas que me passou os valores morais, educacionais, de luta, de trabalho. Meu pai pegava o trem às 7 da manhã pra trabalhar, ia pro centro e voltava só de noite para oferecer o melhor que podia aos filhos. Não deixava faltar nada, mesmo sendo humilde. E no fim de tudo, o que ele teve mais orgulho não foi de ser o pai do Zico, mas de deixar uma família formada com os seus valores.
Me faz muita falta até hoje o Geraldo. Ele foi meu irmão preto, minha mãe tinha ele como filho e chamava ele de “meu filho marrom”. Geraldo foi um talento fantástico, não tenho dúvida de que teria sido um dos grandes da história do futebol brasileiro de todos os tempos. Perdemos ele muito cedo. Geraldo foi um dos poucos jogadores que vi jogar sem olhar para a bola. Quem joga e quem conhece futebol sabe o que estou dizendo. São poucos que fazem isso. Tenho uma lembrança permanente do Geraldo, é muito presente em minha vida.

Lúcio – Pra fechar, quem te agrada e faz parar pra ver um jogo de futebol, quem é diferente no futebol de hoje?
Zico – O Messi é diferenciado, dá gosto de ver. Mas tou adorando ver esse Neymar jogar! Esse garoto é diferente…Rapaz…

(nota do blog: Geraldo Cleofas jogou nas categorias de base do Flamengo com Zico. Se firmou em 1974 nos profissionais, e em 1975 foi convocado para a seleção brasileira pela primeira vez. Em 1976, com 22 anos, morreu de choque anafilático ao realizar uma simples operação de amígdalas.)

*Lúcio de Castro é carioca, formado em História e em Jornalismo, que exerce há 10 anos. Conquistou alguns dos principais prêmios de jornalismo como o Embratel (2003 e 2006), Anamatra de Direitos Humanos 2009, Prêmio Direitos Humanos MJDH 2008, Ibero-Americano (UNICEF-EFE) e Fundación Nuevo Periodismo (dirigida por Gabriel Garcia Márquez).

Fonte: ESPN Brasil

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