Pense no Haiti, reze pela África… Cuba é aqui

Há algumas coisas que me perturbam muito, principalmente quando se transformam em algo praticamente unânime, sobre o quê – bem ou mal – parece ser afronta discordar. Estou falando do Haiti, de Bono e de Cuba.

Com todo o respeito que devemos ter ao país e seu povo, principalmente depois da tragédia que aconteceu, não é confortável entrar – ainda hoje – em um supermercado e ver um cartaz dizendo que X% da linha de produtos tal será revertido para ajudar o país caribenho.

Outro incômodo foi causado pela campanha do Bono Vox, Lace Up. Save Lives, em que 39 personalidades cariocas aderiram à propaganda do cadarço vermelho para tentar ajudar no combate à AIDS, tuberculose e malária na África.

Sobre Cuba, o mundo (inclusive o Brasil, com as exceções de praxe da turma do apedeuta) faz estardalhaço sobre a morte do preso político Orlando Zapata, após 82 dias de greve de fome em protesto contra as condições sub-humanas (tem hífen?) a que os “presos de consciência” (um eufemismo pobre de Zapatero, presidente da Espanha) são submetidos.

E eu poderia encontrar outros exemplos como esses, mas acho que já são suficientes. E, aqui do meu cantinho, fico pensando no papel do Brasil em casos assim.

Será que toda essa turma esqueceu em que país vive? Será que esqueceram que, apesar de estarmos livres dos grandes terremotos e vulcões, temos aí as enchentes, secas e tantas outras mazelas – principalmente sociais – a maltratar o próprio brasileiro? Será os governos, empresas e celebridades que aderem às campanhas internacionais não se dão conta que poderiam mover as mesmas ou até mais palhas para tentar melhorar este imenso terreiro tupiniquim?

Será que estou ficando maluco ou a era da informação é, também, a era da hipocrisia?

Tanto no Haiti quanto na tal campanha do cantor irlandês, o foco acaba sendo o mesmo: problemas estruturais e sociais graves.

O caso de Cuba é um pouco diferente mas, na essência, ainda é mais do mesmo. E aqui vamos falar de algo de nome pomposo: direitos humanos. É um absurdo a existência de presos políticos em Cuba? É claro, mas o caso é o mesmo na China, Coréia do Norte e muitos e muitos outros lugares pelo mundo, inclusive na meca da liberdade e democracia, os Estados Unidos da América. Ou vocês já esqueceram da base de Guantánamo? Isso, claro, sem falar na pena de morte.

E não vejo nenhuma ação realmente contundente das grandes nações sobre o tema. Uma ou outra declaração ensimesmada que a grande mídia reproduz em letras garrafais, tentando traduzir grande mobilização. Tudo para inglês ver.

Disse que é mais do mesmo porque acredito que todo desrespeito aos tais direitos humanos tem a mesma origem: a miséria, crônica e/ou imposta.

No caso do Brasil, a superlotação de nossas cadeias e penitenciárias não dá, aos nossos presos, condições muito melhores do que aos presos de Cuba. E não vejo nossos meios de comunicação explorarem o tema e cobrar ações como deveriam. Mas estão todos aviltados por Cuba. Ora, pombas, por quê?

Apesar de mais uma pérola infeliz de nosso presidente (“lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”), Zapata fez uma opção. Se o protesto vai funcionar ou não, é outra conversa. Mas não vejo ninguém, nenhum editor, nenhum grande jornal ou TV lembrar o bloqueio imposto à Ilha e que – ao impedir o país de se relacionar com o mundo – já matou muito mais do que as prisões de Fidel e sua turma.

Volto a dizer que acho um absurdo a existência de presos políticos em qualquer lugar, Cuba inclusive. Mas me deixa enfastiado a falta de competência de nossa mídia, ONGs e afins, em não olhar para o próprio umbigo, em não cuidar como deveria do próprio quintal. Porque se o Brasil não tem competência para cuidar de si, como é que vai cuidar dos problemas dos outros?

Sinto muito pelo Haiti, pelos tuberculosos africanos e por Zapata e sua família, mas sinto mais pelo José, pela Francisca, pelo Sebastião e pelo Washington, que andaram morrendo embaixo do viaduto, afogada na enchente, no sertão ou vítima de uma bala de fuzil na descida da favela. Gente que também não teve direito aos direitos humanos.

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