Crônica de uma morte anunciada

Gosto de bons textos. E contrariando todas as regras da etiqueta internética, não me importo com o tamanho ou a objetividade (ou falta dela). Para mim, vale o prazer que um texto pode proporcionar, sua construção, argumentos, ironias (finas ou não) etc.

O texto abaixo foi escrito antes do fiasco universal da COP 15, do não-resultado da reunião dos que mandam no mundo, realizada em Copenhage (Dinamarca), sobre os problemas climáticos desse nosso mundo de meu Deus.

Além de absolutamente previsível, a vergonha por não terem feito nada que preste foi tão grande que não houve, sequer, a foto oficial (comum a todos os grandes encontros mundiais) com os chefes de estado ou governo dos países representados.

Enfim, o texto abaixo mostra porque o fracasso do encontro era tão previsível.

Efeito estufa na minha cabeça

Sinceramente, minha paciência com essas discussões climáticas estão se esvaindo quase tão rapidamente quanto a calota polar ártica. A diferença é que em vez de um processo de derretimento, a minha complacência em ser mero assistente deste embate está sendo violentada todo dia.

Não é possível que subestimem tanto o poder de racionalizar de, pelo menos, metade da humanidade, em fazer crer que vai sair algum acordo factível, sem divergências e sem faltas de assinaturas, ao juntar numa mesma mesa, China, Estados Unidos e países africanos por exemplo, e estabelecer regras plausíveis.

Não são as fronteiras políticas que encerram o emporcalhamento do planeta.

Mais ou menos assim: a Europa foi totalmente desmatada já há uns duzentos anos, ou até mais, em países como Reino Unido e França. Burkina Faso continua sendo só floresta (e pretende deixar de sê-lo, para se “desenvolver”).

Os Estados Unidos emitem mais efluentes de combustíveis derivados de petróleo sozinhos do que as outra nove maiores economias do mundo. É toda uma economia, por sinal a mais forte, firmemente baseada em automóveis, gasolina, óleo diesel, caminhões e termoelétricas. No Brasil, em que pese nossos combustíveis serem muito ruins sob o ponto de vista ambiental (enxofre, benzeno e outras quinquilharias carcinogênicas e que promovem a dança da chuva ácida, por exemplo), usamos mais biocombustível (etanol) do que gasolina.

A China que só tem 1,3 bilhão de pessoas saltando da idade média para o século XXI em apenas vinte anos, precisa de energia. Vai usar, claro, a mais emporcalhante forma de energia conhecida, o carvão, que não só tem malefícios dos combustíveis de petróleo, como é campeão de emissão de particulados esquisitos (particulado é aquele negócio que você respira, se aloja num lugar de seu corpo, que não o absorve e dali vira um tumor ou um enfisema). Em contraponto, a Noruega, que já colocou sua meia dúzia de habitantes no século XXI e vendeu seu petróleo quase todo, agora só quer saber de “fontes de energia limpa”.

Convenhamos, dá para convergir para algum ponto?

E de mais a mais, volta e meia surge um estudo bombástico dando conta que arrotos e peidos de vaca e ovelha no mundo todo emanam mais gases que a frota de veículos alemã. Que a Rússia, apesar de um vasto parque de usinas nucleares construídas com tecnologia que vem sendo desenvolvida desde o império romano (são usinas-ruínas), também usa carvão à vera, dado que fica difícil convencer um cidadão casaque ou siberiano a não se aquecer nesse inverno, quando o carvão está ali, no quintal de casa.

Outra coisa interessante. Nunca vi ninguém mais criticado que Thomas Malthus, economista que previu que a população cresceria geometricamente e os meios de produção aritmeticamente… “Ho, ho, ho, tolo Thomas, esqueceste da tecnologia que aumenta a escala e a eficiência”… O tolo Thomas só deve ter pensado num contexto mais amplo. De fato, maquinário agrícola e fertilizantes aumentam a produtividade, fazendo com que mais alimentos sejam produzidos em áreas menores. Só que o maquinário consumiu recursos em outro lugar e o fertilizante, seja de fósforo, potássio ou nitrogênio, ou dos três, emporcalhou um outro lugar longe da plantação. Tenho a leve lembrança de uma fábrica de fertilizantes em Bhopal, na Índia, que teve um probleminha de troca de turno e contaminou uns 3000 elencos de novela de Gloria Peres, que morreram mal, cegos, com peles queimadas.

Enfim, Malthus, esse maluco primata, previu o que está na cara. A Terra comporta com algum conforto uns 3 bilhões de seres humanos. Somos seis bilhões.

Um acordo interessante para Copenhague seria nomear o Hitler, o Stalin e o Genghis Khan da vez e fazê-los trabalhar coordenadamente para eliminar (sem preferências estilísticas, raciais ou comportamentais, ok, herr Hitler?), metade da humanidade. Fazendo sumir rapidamente 3 bilhões de pessoas do planeta, o consumo de tudo cairá bastante, então teremos menos carros na rua, menos carvão queimado, menos batata frita sendo consumida, menos coxinhas de galinha necessárias, enfim, tudo se ajustaria naturalmente. Adeus efeito estufa.

Mas por ser pouco razoável, que mesmo esse incrível trio trabalhando em conjunto, tenha alguma aprovação que dure, digamos, até o segundo genocídio promovido sob o nome pomposo de “redução de consumo natural por sequestro de consumidores”, talvez seja mais prudente partir para outra solução.

E então entram em cena as soluções bodosas. Com metas de redução de emissão de gases e sequestros de carbono.

Vamos por partes. Metas de redução de emissão de gases (hmmm…), ou seja, meu país chega a Copenhague com um estudo feito durante dez anos por pesquisadores multidisciplinares e apresenta: vou reduzir a emissão dos gases do efeito-estufa em 28,333% em 96 meses, a começar em 2015. Tal redução será obtida com veículos híbridos (tecnologia a desenvolver), uso de biocombustíveis (efeitos maléficos ambientais em estudos) e sequestro maciço de carbono. E aqui, vamos a uma pausa.

O que raios quer dizer exatamente “sequestro de carbono”? “Sequestro” eu sei o que é. Pega-se um desavisado da família Getty ou politicamente proeminente, enclausura-se o cidadão, apresentam-se pedaços de seu corpo para provar que está sendo morto aos pouquinhos, exige-se um resgate ou contra-partida e, se os sequestradores forem caras legais, devolvem o sequestrado, talvez sem uma orelha. Ministros brasileiros atuais usaram bastante esta tática na ditadura militar e como bons sequestradores, devolveram, sem muitos desmanches, os diplomatas sequestrados.

Agora, voltemos ao tal “sequestro de carbono”. Florestões seriam responsáveis por retirar o excesso de dióxido e monóxido de carbono. Até aí não vejo configurado o delito penal “sequestro”. E depois? Do claustro da fotossíntese ao que os carbonos sofrerão, terão que confessar que formaram compostos mais limpinhos e serão devolvidos à livre circulação atmosférica, sob condicional. Só pode ser isso. Senão o termo técnico não seria sequestro e sim absorção de carbono.

Tudo me confunde, esquenta minhas sinapses e aumenta o efeito estufa particular. Se dessa COP-15, que já teve a presidente renunciando, o Obama informando que não vai, o Lula lançando um factóide aparentemente genial, mas, que por ser impossível de ser cumprido, é só corajoso mesmo, e pancadarias de Ultimate Fight nas ruas da plácida Copenhague, sair algo que seja minimamente conclusivo será uma baita surpresa.

Nesse meio tempo, sinto falta de mais presença do Al Gore, do Greenpeace, dos japoneses. Será que estão com um comportamento low profile proposital, já prevendo que o COP-15 corre o risco de um fiasco?

Borbulham meus neurônios. Não vejo solução a não ser a tríplice entente Hitler-Stalin-Genghis Khan. Seis bilhões é gente prá chuchu e para qualquer outro hortifrutigranjeiro, incluindo a mandioca.

Será que o documento final de COP-15 definirá regras de crescimento populacional? Como diz um amigo meu, ambientalista das antigas, talvez o resto da conversa seja “merda de boi” – bullshit, expressão em inglês para blá-blá-blá.

A propósito, o cocô das vacas poluiu mais que os gases emanados por motocicletas da Indochina em 2008/2009.

Luiz Octavio BernardesWith a little help from my friends

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