O cara, o manto e a história

Esperei, eu e outros quase 35 milhões de rubro-negros, 17 anos pelo dia de hoje. Isso porque, se Nelson Rodrigues estava certo ao dizer que o Fla-Flu nasceu 40 minutos antes do nada e, então, as multidões desperteram, mesmo os flamengos (flamenguista é invenção de neologista) que não completaram os 17 anos de idade, já eram Flamengo muito antes de nascer.

E algumas derrotas absurdas ao longo desses anos de fila fizeram crescer em mim um pessimismo quase compulsivo, aflorado com força total nos momentos em que o Flamengo chegava às decisões. Para o jogo de hoje, não foi diferente. Durante a semana mais longa, mais arrastada dos últimos 17 anos, mesmo sem procurar, encontrava razões para acreditar (e sofrer por isso, claro) que alguma coisa daria errado hoje no Maracanã.

A primeira delas, a história do Grêmio entregar o jogo. Depois, todo os comentaristas do Brasil darem como favas contadas a conquista flamenga. Adicione a isso a falta de profissionalismo de Léo Moura (ao sacanear publicamente os tricolores pela derrota para a LDU), o mole que Adriano deu ao autografar uma bandeira da LDU que um torcedor levou à concentração do time na Granja Comary e o Bruno resolver jogar com um uniforme em homenagem a Zé Carlos…  Estava tudo fácil demais e apesar da diretoria tentar segurar a onda, vazavam pequenos sinais de que o time poderia acreditar que realmente seria fácil, que estava mesmo tudo resolvido. Essas coisas nunca me cheiraram bem.

Mas havia bons sinais também, não dá pra negar. Quem diria que até Márcio Braga, o presidente mais fanfarrão e falastrão que poderíamos ter, falou sério, que não poderíamos achar que estava ganho, comemorar antes da hora etc. O outro bom sinal, o mais significativo, era Andrade.

O cara ganhou cinco títulos brasileiros como jogador (quatro deles pelo Flamengo) e também buscava o hexa. Durante os muitos anos que jogou ao lado de Zico e Adílio, entre outros, usou a camisa seis. E o mais grave: Andrade foi o cara que selou a maior revanche da história do futebol mundial. Aos 42 minutos (4+2=6), usando a camisa seis, o Tromba (seis letras) fez o sexto gol sobre o Botafogo, devolvendo a goleada sofrida 9 (6 ao contrário) anos antes.

Certamente, todo mundo já ouviu dizer que notícia ruim vende mais jornal que notícia boa. O mesmo aconteceu comigo. Entre os bons e os maus sinais, me peguei com os errados. Porque era óbvio que hoje, dia 6 de dezembro (mês 12, dobro de 6), Andrade comandaria o time na conquista do hexa.

Outro detalhe da conquista de hoje é que o melhor jogador em campo foi a camisa do Flamengo, o Manto Sagrado. Se no time há ídolos, hoje não jogaram bem. Petkovic e Adriano foram meros coadjuvantes em um time do jogadores comuns, empurrados pela magnética. Como na partida contra o Goiás, o time entrou em campo misturando o nervosismo e a ansiedade, resultando em uma apatia digna de pelada de domingo à noite. Pra completar, o Grêmio saiu na frente… Conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, mas o que valeu mesmo foi que o time voltou transfigurado para disputar o final do jogo.

É fato que no intervalo, além de um belo esporro, Andrade evocou toda a tradição da camisa do Flamengo, um manto mais que sagrado, envergado por anjos como Leônidas, Zizinho, Almir, Doval, Garcia, Dequinha, Figueiredo… E nem é preciso citar o time mágico que conquistou o mundo na década de 80.

Por último, o sinal mais importante de todos: “deixou chegar, fudeu!”, uma expressão que é sinônimo de Flamengo, que é a história do Flamengo (apesar dos tropeços dos últimos anos). Só pra não deixar ninguém esquecer: o Flamengo nunca perdeu uma final de Campeonato Brasileiro.

Pois bem, hoje o Flamengo voltou a ser Flamengo. Apesar dos pontos corridos, a decisão na última rodada deu ares de final à partida contra o Grêmio. E foi difícil, sofrido, com dois gols de dois zagueiros (ave Rondi), na raça. Como sempre foi com o Flamengo. O Pernambuquinho Almir, Rondinelli e Anselmo que o digam. O Brasil voltou a ser nosso, o povo está feliz, o sorriso voltou a desfilar nos rostos.

Flamengo não é somente um clube, uma agremiação esportiva. O flamengo é uma religião, uma seita, um credo, com sua bíblia e seus profetas maiores e menores. O Flamengo é um amor, uma devoção, uma eterna comunhão de sentimentos. Por ele muitos deram a vida, alienaram a liberdade, destruíram amizades, arruinaram lares, com homicídios e suicídios. O Flamengo dá febre, dá meningite, da cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação. Deveria ser feita uma Lei Federal que obrigasse o Flamengo a jogar em todo Brasil, toda semana e ganhar sempre. Quando o Flamengo vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas, a vida canta, os ânimos se roboram, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes. Há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz,está feliz. O Flamengo não pode perder, não deve perder. Sua derrota frustra, entristece, humilha e abate. A saúde pública, a higiene nacional exigem que o Flamengo vença, para bem de todos , para felicidade geral, para o bem-estar nacional.

Trecho de uma carta do Sr. Ex°. Dr. Juiz de Direito Eliezer Rosa, apaixonado torcedor do América, dirigida ao Jurisconsulto João Antero de Carvalho

Evoé! O Flamengo é hexacampeão brasileiro.

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