Os domingos e o vento

“Que domingo é hoje?” A primeira vez que um de nós fez essa pergunta, estávamos – eu, Armando, Sérgio e Pimenta – a aproximadamente sete nós de velocidade, mais ou menos às dez da manhã de terça-feira, fazendo a travessia entre Ilhabela e Santos. Estávamos a bordo do Fandango, o veleiro no qual a Equipe Boteco 1 – faria sua primeira participação na Regata Santos-Rio.

Seríamos sete tripulantes, sete estreantes na regata oceânica mais tradicional do Brasil. A história dessa participação começa agora, em uma espécie de diário de bordo.

1º domingo: terça-feira, 21 de outubro

Na verdade, o início foi na segunda à noite, embarcando com o Armando para Ilhabela. Chegamos a São Sebastião às seis da manhã e fomos direto para balsa que nos levaria à ilha. Tempo fechado e muito vento. Leste. Apesar do tempo ruim, vento favorável para a travessia de 60 milhas (mais de 110km) até Santos.

Eu, Armando e Sérgio, saindo de Ilhabela (foto: Pimenta)

Eu, Armando e Sérgio, saindo de Ilhabela (foto: Pimenta)

Pimenta já estava a postos no píer da balsa, pescando enquanto nos esperava. Enquanto isso, Sérgio já fazia os últimos preparativos a bordo do Fandango. O objetivo era sair o mais cedo possível para chegar ao Iate Clube de Santos (que fica no Guarujá) com dia claro. Deixamos a poita e motoramos até o final do canal. Pouco mais de 20 minutos.

Sérgio nunca tinha testado o Fandango com armação tri sail. Andando a quase 10 nós, acho que ele gostou…

Sérgio nunca tinha testado o Fandango com armação tri sail. Andando a quase 10 nós, acho que ele gostou…

Velas em pé, o sol apareceu e eu aproveitava para conhecer o barco, entender seu comportamento, suas reações. Durante a viagem, conseguimos manter velocidade média próxima de sete nós. Com o balão em pé – por um bom tempo com armação trisail -, o barco voava e tivemos pico de 9,6 nós (18km/h).

Na chegada a Santos, velas pra baixo e motor para entrar pelo canal que leva ao maior porto do Brasil e ao clube. “Porta a porta”, 10 horas. Do clube direto para o hotel e o encontro com a presidente para nosso primeiro jantar. Pergunta daqui, pergunta dali, tem um restaurante logo ali. Depois de seis quadras, encontramos as portas fechadas e acabamos voltando para o restaurante que fica em frente ao hotel. Depois de comer, cama.

Por enquanto, a previsão para o final de semana da largada era de vento a favor, variando entre 6 e 8 nós.

2º domingo: quarta-feira, 22 de outubro

Acordei por volta das 9h, com o ronco do Oscar. Ele chegou ao Guarujá às 6h30 e foi direto para a cama. Quando eu e Armando abrimos os olhos, ele já estava dormindo e nós nem o vimos entrar no quarto. Nosso objetivo ao chegar a Santos três dias antes da largada era treinar e nos acostumar o máximo possível com o barco.

Nossa manhã foi meio burocrática: dar entrada no clube, fazer a inscrição, ler a instrução de regatas e conferir todas as exigências. Algumas delas não eram cumpridas pelo Fandango e tratamos de resolvê-las. Liga para o Rio para providenciar alguns itens e outros detalhes, corre na farmácia pra montar o kit de primeiros socorros, acha um capoteiro para fazer uma linha de vida… Enfim, correria total.

Nossa programação para o dia era o treino noturno. Como não achamos um lugar legal para almoçar, resolvemos comer no clube. PQP!!!! A pedida foi bife a cavalo para quase todos. Recebemos um “bife à pônei”… E depois do lauto almoço que não deu nem pra tapar os buracos dos dentes, todos a bordo.

Auto-explicativo (tem hífen?)

Auto-explicativo (tem hífen?)

Saímos do clube quase às cinco, ainda com muito sol e um calor da porra. Lá fora, merreca. Mesmo assim, com o secretário (eu) e os dois proeiros (Oscar e Pimenta) no barco, começamos a realizar as manobras: camba para um lado, camba pro outro, sobe balão, desce balão, jibe pra lá e pra cá, pilling de genoa. Com dia claro e escuro. Já quase às nove, começou a ameaçar chuva. E como não precisávamos molhar o barco à toa nem arriscar pegar uma gripe, sobe o balão e toca para o clube.

No início do dia, a previsão ainda indicava vento a favor durante todo o final de semana, variando entre 4 e 5 nós. À noite, começamos a enxergar a merreca…

3º domingo: quinta-feira, 23 de outubro

A manhã da véspera da largada nos trouxe mais um tripulante e um monte de outras tarefas. Mas nossa preocupação era o vento. Ou a falta dele. A previsão que vimos enquanto tomávamos café da manhã transformava a ameaça de merreca em certeza. Ao mesmo tempo, nos dava uma esperança: lá fora, longe de terra, uma pequena (muito pequena, na verdade) frente subia a costa e podia nos empurrar para o Rio. Se conseguíssemos estar onde deveríamos na hora certa, teríamos grande chance de brigar até pela vitória.

Igor nos encontrou no clube. Agora só faltavam Humberto e Morcegão. Saímos para treinar logo cedo, pois precisaríamos fazer as compras para abastecer o barco na parte da tarde. Ficou acertado que o jovem estoniano de Campinas faria a secretaria, alternando os turnos comigo. Aproveitei para deixar ele trabalhar bastante e se acostumar com a função. Se todos eram estreantes na regata, o caso do Igor era mais grave, pois só tinha velejado duas vezes na vida. É ou não uma bela maneira de começar de verdade?

Na água, tudo normal e depois de três horas e meia, voltamos para o clube. Da estrada, recebi uma ligação:
– Bom dia meu secretário!
– Cadê você comandante?
– Cambando pra comissão…

Aqui é bom abrir um parêntese antes que vocês me imaginem tomando notas ou sentando no colo do chefe. A secretaria (ou o meio do barco) é de onde desembocam e se regulam todos os cabos do barco, com exceção das escotas. Fecha parênteses.

Última refeição em terra: Boteco 1

Última refeição em terra

Paramos para almoçar no boteco na porta do clube. Santa comida da mamãe!!!! Arroz, feijão, salada, ovos, farofa e carne que não acabava mais. Morcegão chegou a bordo da viação La Torre, pouco depois da nossa presidente, coordenadora e única operária da nossa equipe de terra, ClauPenPen. Para encerrar com chave de ouro nossa concentração para a prova, 20 garrafas sobre a mesa.

O que e quanto comprar?

O que e quanto comprar?

À tarde, supermercado e abastecimento do barco. À noite, nossa extraordinária com as presenças dos sete tripulantes (Humberto chegou!), Armando (que nos treinou e correu no Viva), La Torre e Helô, Claudia, Clícia e Guta, e Nio. Estávamos prontos.

4º domingo: sexta-feira, 24 de outubro

Igor, Oscar, eu e Pimenta preparando o barco para zarpar. Foto do Jorge Somers.

Igor, Oscar, eu e Pimenta preparando o barco para zarpar (foto: Jorge Somers)

É hoje!!! Teve gente que dormiu mal. Teve gente que acordou no meio da madrugada, como se já estivesse fazendo turno embarcado… Ansiedade e adrenalina é assim mesmo. Chegamos cedo no clube e encontramos o redivivo Jorge Sommers, que foi nos dar um abraço e deixar sua energia boa. Últimos preparativos, embarque e toca pra linha de largada.

A previsão era a mesma. Muita merreca e toca pra fora pra tentar encontrar aquela pequena frente… A tripulação consultou três sites e ainda confirmou tudo com nosso navegador, que estava afundado em mapas e previsões em sua base de BH.

O início da regata foi quase animador. Andávamos devagar, mas andávamos (foto: Marcio Finamore).

O início da regata foi quase animador. Andávamos devagar, mas andávamos (foto: Marcio Finamore).

Largamos com um ventinho até razoável e, com média de quatro nós de velocidade, andamos umas 25 ou 30 milhas. Comandante Sérgio fez questão de que todos a bordo timoneassem pelo menos meia hora, para se acostumar com barco. Fui o último da série e anoiteci no leme. Como gostei da brincadeira, fui ficando até o vento e o dia acabarem. Aí…

5º domingo: sábado, 25 de outubro

Nosso sábado começou, na verdade, quando o vento acabou cerca de uma hora depois do anoitecer de sexta-feira. Como disse, o Sergio fez com que todos timoneassem o barco por, pelo menos, meia hora após a largada. Eu fui o último e anoiteci no leme. Pra mim, tudo era novidade. Nunca velejei no leme em regata. Raramente, voltando para o clube ou indo para a raia. E agora, já estava levando o barco de dia e de noite.

Sinceramente, não fiquei preocupado se estava fazendo bem ou mal, apenas tratei de aproveitar a chance de aprender mais alguma coisa.

Era mais ou menos 9 da noite, quando o vento parou de vez e pedi para alguém me substituir. E se falo que o sábado começou nesse momento é porque ficamos a noite e o dia inteiro praticamente boiando. De vez em quando, conseguíamos velejar por uma ou uma hora e meia, ficando parado por mais três ou quatro.

O sábado amanheceu com o mar parado e as velas murchas.

O sábado amanheceu com o mar parado e as velas murchas.

Alguns momentos podem ilustrar o que aconteceu. Durante a noite, boiávamos de tal maneira e as velas batiam tanto de um lado para o outro que chegamos a baixar a genoa por duas vezes, para poupá-la. A outra curiosidade foi um estranho bate-papo entre a tripulação e um pingüim. Estávamos fritando sob um sol inclemente, sem vento algum que nos desse uma esperança, quando o pobre coitado passou por nós, levantou sua cabeça e nos cumprimentou. Pra quê? De repente, os sete estavam em uma animada conversa, falando fluentemente o pingüinês…

Tibetano, o pingüim com quem conversamos muito sobre o sentido da vida…

Tibetano, o pingüim com quem conversamos muito sobre o sentido da vida…

Tínhamos a promessa daquela pequena frente que entraria no final da manhã. Mas ela não veio. E depois de passar o dia inteiro praticamente sem vento e sob o sol forte, conseguimos renovar nossas esperanças. Já passava das sete da noite, o dia já começava a escurecer, quando o Pimenta olhou pra trás e disse “acho que vai entrar…”.

Junto com uma brisinha, chevou um chuvisco e algumas ondas. Dava pra ver que as nuvens estavam aceleradas, então era questão de tempo. Começamos a nos organizar. Só três em cima, os outros quatro na cabine. Eu estava no leme outra vez… Casaco, cinto de segurança e lá vamos nós. O vento chegou e o Pimenta, com o GPS em punho, começou a cantar a velocidade: 3,5; 4,2; 4,8; 5,2; 5,5; 5,9; 6,1; 6,4 nós!

Casaco e cinto de segurança para tocar o barco no vento forte e de noite. Esperança de completar a regata durou 10 ou 15 minutos.

Casaco e cinto de segurança para tocar o barco no vento forte e de noite. Esperança de completar a regata durou 10 ou 15 minutos.

Estávamos em contravento e aos poucos o ‘Fandanguinho’ foi adernando. Da cabine, Morcegão surgiu todo pimpão, pronto para usar pela primeira vez a roupa de tempo que, no Rio, não sai do armário. Quando chegamos aos cinco nós, o batcomandante ia soltando a grande quando o Pimenta gritou “Nããããããããããooooooo Morcegão!!!! Ainda falta muito pra ficar difícil”. Lá embaixo, mais um foi a barla para equilibrar o barco enquanto as ondas iam subindo. Todos pensávamos: “agora vai, vamos chegar no Rio”.

Tudo isso durou dez, talvez 15 minutos. De repente, o vento parou de novo e o céu estava absolutamente estrelado… Foi-se, com o vento, nosso fio de esperança.

6º domingo: domingo, 26 de outubro

Às dez da noite de sábado terminou a reunião. Os sete no deck. Fui voto vencido e ligamos o motor. Depois de pouco mais de 34 horas e 62 milhas percorridas (pouco menos de um terço do percurso), o Fandango ligou o motor. Já se passaram duas semanas e ainda não me conformo em não terminar a travessia, mesmo que não chegássemos dentro do tempo para classificar. Regata tem hora para começar e não tem hora para acabar. Estou frustrado até agora, acho que vou ficar assim até a largada do ano que vem…

Estávamos a 75 milhas da costa (139 km) e motoramos por 14 horas em direção a Angra dos Reis. Tentamos comunicar a desistência imediatamente, mas como o rádio não respondia, só conseguimos fazê-lo às oito da manhã.

Chegando em Angra, contamos com a ajuda dos hermanos.

Chegando em Angra, contamos com a ajuda dos hermanos.

Por volta do meio dia, na entrada da baía de Angra, ficamos sem combustível e sem vento, mas conseguimos ajuda de um casal de pai e filha, argentinos a bordo do veleiro Paraná. Nos deram dois litros de diesel e foi a conta. O motor morreu na hora de atracarmos no posto de gasolina.

Na marina, arrumamos o barco, tomamos banho, almoçamos e, pelas quatro da tarde, a tripulação se separou. Morcego, Igor, Humberto e este que vos escreve seguiram para o Rio de carro. Sergio, Pimenta e Oscar trouxeram o barco para o Iate Clube, sede do Circuito Rio que disputaríamos no final de semana seguinte.

Elucubrações e outros domingos

No Circuito – felizmente – beliscamos o pódio. Foram mais três domingos especiais. Terminamos em terceiro e, pela terceira vez, o Boteco 1 levou um troféu pra casa. A tripulação do Circuito foi comandada pelo Ricardo ‘Amigo do Lodão’ e formada por Pimenta, Oscar, Lulu (sexta), Morcegão e Alfeu (sábado). Eu também estava lá.

No Circuito Rio, o Fandango finalmente encontrou o vento (foto da galeria do ICRJ no Picasa)

No Circuito Rio, o Fandango finalmente encontrou o vento (foto da galeria do ICRJ no Picasa)

Primeiro e segundo colocados foram indiscutíveis. E a briga pelo pódio, com Star Treck e Calamar Rio, uma delícia. Apertada até a linha de chegada da última regata. Dessa vez nós ganhamos. Da próxima, quem sabe. Vai importar, sempre, estar satisfeito por velejar quando chegarmos ao píer.

É claro que velejar com esses caras é algo sensacional. Seu Ricardo é, mesmo quando calado, uma aula de vela ambulante. A amizade entre todos é de emocionar. Eu, não tenho do que reclamar. Apesar de não termos terminado a Santos-Rio, aprendi muito. Sérgio, assim como Ricardo, é um grande professor.

Também não posso deixar de agradecer o patrocínio do SuperCarioca.com, o apoio da Arapongas Tecnologia Mecânica e a parceria do projeto Três no Mundo.

Por hora, beijos e abraços a quem de direito. Ano que vem, a largada será no dia 23 de outubro, por volta do meio dia.

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