O último muro

Nunca fui um defensor ferrenho de Cuba e do Fidel que conheci. Sim, porque o Fidel que conheci é muito diferente do Fidel que derrubou Fulgêncio. E nunca fui partícipe dos maniqueísmos simplórios, como contra ou a favor porque sim ou porque não, que acabaram transformando a revolução cubana e seus líderes em ícones pop.

Mas também sempre tive a certeza que Cuba chegou ao ponto em que está, com todas as dificuldades, por culpa do embargo, disfarçado num rescaldo safado da guerra fria. Certamente, sem o bloqueio, haveria outros problemas e talvez o regime até não existisse mais. Mas ‘se’ não existe (se sapo tivesse embreagem não pulava tanto).

Enfim, segue abaixo um belo texto do Flávio Gomes, que nada mais é que um ponto de vista. Só isso, entre tantas concordâncias e discordâncias que podem haver. Aliás, se alguém quiser discorrer sobre o tema, fiquem bem à vontade.

•••

FidelFidel Castro renunciou hoje à Presidência de Cuba e ao comando das Forças Armadas do país. A data, 19 de fevereiro de 2008, entrará para os livros de História como o dia da queda do Muro de Berlim e da dissolução da URSS. É a História sendo escrita diante de nossos olhos.

Mas esta noite, no Brasil, o assunto será o paredão do BBB.

Essa é uma das diferenças básicas entre as sociedades cubana e brasileira. Nós vemos Cuba sob o olhar de décadas de propaganda americana sobre a ilha. Analisamos o regime sob a ótica da frivolidade, fazendo gracejos sobre os carros velhos, a quantidade de canais de TV, a falta de celulares. E depois, num segundo momento, tentamos politizar a questão cubana com o argumento único de que “se fosse bom não proibiriam ninguém de sair” e coisas do tipo.

Tese superficial como um espinho.

Com nossa visão americanizada de mundo, não conseguimos compreender e nem aceitar uma sociedade em que a prioridade não é comprar carro bonito, ou o último Motorola, ou o apartamento na Riviera. Viver é ter. Qualquer coisa que não seja parecida com isso é não-viver.

Esse é o maior engano que se comete quando se fala de Cuba: não entender que existe gente no mundo que não liga para essas coisas. Cuba vive sob o mesmo regime há meio século. 90% de sua população de 11,2 milhões de habitantes (dado de 2002) — menor que a da cidade de São Paulo — tem até 64 anos. Ou seja: praticamente todos nasceram depois que Fidel derrubou a putaria de Fulgêncio Batista.

Viver, para essa gente, é uma experiência muito diferente da nossa. Batalha-se pelo supérfluo, com a certeza de que o básico está garantido: educação, saúde, emprego (antes de seguir, leia este belo resumo sobre Cuba, com dados muito relevantes; preste especial atenção no quadro que fala sobre a política dos EUA em relação ao país).

Em tudo que realmente importa, Cuba é melhor que a maior parte do planeta. Mortalidade infantil, analfabetismo, miséria, falta de moradia e desemprego não fazem parte da rotina do cubano. Que pode não ter uma vida de luxos e regalias, pode não ter TV de LCD ou um Corolla na garagem, mas olhe para o seu próprio umbigo: quem aqui tem?

Dispa-se de seus pequenos desejos de consumo e responda, com sinceridade: se você fosse sua empregada, morando nos confins da periferia, ganhando 500 reais por mês, com filhos na escola pública, assassinatos no boteco ao lado, camelando quatro horas por dia dentro de um ônibus, tendo de pegar fila no centro de saúde, não acharia um país como Cuba uma maravilha?

A imensa maioria dos brasileiros, imensa mesmo, vive muito pior que o pior dos cubanos. Você pode até viver melhor. Eu vivo. Mas a imensa maioria, imensa mesmo, vive muito pior.

Aqui temos democracia, TV a cabo, loja da Maserati, calças Diesel, celular 3G. Podemos ir a Miami sem correr o risco de morrer afogado numa balsa feita em casa. Mas quantos de nós, brasileiros, vivemos integralmente essa liberdade? Quantos de nós podemos passar diante de uma vitrine, desejar algo e comprar? Quantos de nós podem sonhar com algo muito diferente da balsa que embala os sonhos dos dissidentes?

Nossa liberdade é bem relativa. É condicionada ao que se tem. E, para quem não tem nada, muito mais cruel do que as restrições ao ir e vir a que os cubanos são submetidos. Eles, pelo menos, sabem as regras do jogo, e as regras lá são feitas para a maioria. Sua realidade é a da ilha, e é nela que vivem. Com ambições e pretensões bem diferentes daquelas que nos alimentam, nós aqui do lado bonito e feérico do mundo.

E, afinal, quem somos nós para hierarquizar ambições? Quem é você para achar que seu desejo de ter uma Hilux é mais defensável do que o desejo de um cubano de ter uma geladeira melhor? Quem é você para afirmar que o american way of life adotado e defendido pelo mundo ocidental — esse estilo de vida que permite e aceita a degradação do ser humano miserável, que estimula a competição e que fecha os olhos para a violência diária contra os que não deram a sorte de ter o que você tem — é mais humano que a simple life de um povo como o cubano?

Na verdade, quem somos nós para falar de Cuba? Quem somos nós para troçar de Fidel? Quem somos nós para caçoar dos prédios decrépitos de Havana? Que país nossos pais nos deixaram, e que país estamos deixando para nossos filhos? Podemos nos orgulhar de alguma coisa? Podemos nos orgulhar de ter construído, com nossos meios e nossas mãos, uma nação onde as pessoas têm as mesmas chances, onde todos têm direito a uma escola, a um médico, a um trabalho?

Cuba pode. Nós fracassamos, eles venceram.

Flávio Gomes

Anúncios

6 comentários em “O último muro

  1. Plong,
    Seu comentário deveria ser o direito de resposta ao publicado.
    Muito bem escritos, os dois. Parabéns. É muito bom saber que, AINDA, existem cabeças pensantes neste país, governado por antas, lulas e etcs…

    Curtir

  2. Boa, Luiz Vela!!!

    Mas apresar disso, os dois textos estão muito bem construídos!

    Parabéns à nossa liberdade de expressão!!! Pelo menos isso nós temos!!

    Beijos saudosos!

    Mariana Borges

    Curtir

  3. LV, é claro que sou contra qualquer cerceamento de liberdades: de expressão (incluo aí a necessidade do politicamente correto), de ir e vir etc.

    Mas acho que a grande questão que o texto levanta é “será que a nossa visão, de fora, está correta?”

    Liberdade e outros desejos não estão ligados à expectativa que criamos? E qual seria a expectativa dos cubanos? Na verdade, mais do que um tratado sobre o tema, o que o autor do texto fez, finamente, foi uma provocação. Além de deixar claro o que ele pensa a respeito.

    Curtir

  4. Gustavo,
    Legal o texto, mas me explique porque se eu quiser ir para Cuba eu vou numa boa e se quiser morar lá não terei problema algum ao passo que se um cubano quiser vir morar no Brasil, tem que ser fugido e torcer para o Tarso Genro não repatriá-lo.

    O preço em Cuba é alto. É o da liberdade, o do livre arbítrio. O da falta de escolha.

    E paredón por paredón, o do Big Brother é menos sangrento.

    Curtir

  5. Fidel é indefensável, como toda a forma de violência é indefensável. Fulgêncio era um troglodita, mas isso não justifica as atrocidades do comandante Fidel e sua revolução. A violência comunista pode?

    Só na china, o comunismo já matou mais de 70 milhões de pessoas, prometendo uma utopia futura e cheia de paz, conseguida com o martelo na cabeça e a foice no pescoço de uma população inteira acossada pelo medo, pela mentira e pelos impostos para sustentar a quadrilha que ocupa o governo e é dona dos meios de produção. (vejam em http://freedomspeace.blogspot.com/2005/11/reevaluating-chinas-democide-to-be.html)

    “Com nossa visão americanizada de mundo, não conseguimos compreender e nem aceitar uma sociedade em que a prioridade não é comprar carro bonito, ou o último Motorola, ou o apartamento na Riviera”

    Quem determina essa prioridade? O indivíduo ou o Estado?

    Então, em troca de um pouco de comida, educação (amar o comandante sobre todas as coisas) e um arremedo de teto vale suprimir brutalmente todas as liberdades, a individualidade, os sonhos e desejos? Ter conforto não é pecado, sonhar com uma vida melhor advinda de uma prosperidade honesta e TRABALHAR para isso não violenta ninguém.

    Países onde existe liberdade de fato, comercial e individual possuem condições de vida muito melhores do que qualquer dessas aventuras comunistas. (v. em http://www.hawaii.edu/powerkills/ )

    O Brasil só não é melhor porque possui um ranço estatista-paternalista-assistencialista que subtrai de seus cidadãos o direito à plena realização pessoal e busca pela felicidade. Afundados na imbecilidade e ignorância, somos um povo que coloca 1 milhão nas ruas para acompanhar uma parada gay mas não bota o nariz para fora de casa para questionar a farra feita com nosso dinheiro em nome de um projeto de poder que vem sendo arquitetado e posto em prática há quinze anos no Foro de São Paulo entre Lula, Fidel, Chavez, as Farc, ELN e outros criminosos, o maior assalto à liberdade e soberania já orquestrado na América Latina e que a grande mídia brasileira, acusada de direitista e anti-Lula, simplesmente finge que não vê. Sabe por quê?

    Se olharmos com lupa de onde vem o grande dinheiro que financia no Brasil o esporte, a cultura e a imprensa, esta via publicidade, teremos lá sempre os mesmos nomes – Petrobras, Caixa, Correios e BNDES, grandes bancos, todos a serviço ou interessados em que as coisas não mudem.

    Ninguém vai criticar de verdade este e qualquer governo enquanto as tetas, perdão, torneiras forem estatais ou diretamente beneficiadas pela política do estado – lei de incentivo à cultura, ao esporte e outras bobagens. Caridade é doação, não é troca.

    Lula e seus asseclas riem do escândalo dos cartões, ou do mensalão, porque são a cortina de fumaça perfeita para encobrir o golpe maior. A imprensa só fala nisso, para conveniência deles.

    Ficamos então aí, vendo hordas de gente aderindo a movimentos criminosos como o dos sem-terra, achando as farc o máximo, engrossando as fileiras do ideal revolucionário porque já entenderam que a melhor coisa é ganhar sem fazer força, pilhando, invadindo, matando e constrangendo inocentes porque o Estado-mãe sempre passará a mão nessas inocentes cabecinhas. E legalizará tudo ao final, dará bolsas, aprovará pensões, indenizações e aposentadorias aos companheiros. Mas não existe almoço grátis. Sabe para quem virá a fatura?

    Como disse o autor, nós fracassamos, eles venceram.

    Curtir

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s