A besta, o poeta e o tricolor

Às vezes tenho a plena convicção de que sou uma besta. Ontem foi um dia assim. Melhor, uma noite. Recebi três convites para ir ao Maracanã assistir ao Fla-Flu. Jogo adiado por causa do Pan, o Flamengo mal na tabela e com um time horroroso, o Fluminense vindo de um sacode no Santos. “Vou não, não tô acreditando muito e ainda to duro… Deixa pra próxima.”

Pois bem: assisti ao jogo em casa. Jogo ruim, diga-se de passagem. Mas não é que o Flamengo ganhou o jogo e com dois a menos em campo? Pois sou ou não sou uma besta? Além do mais, me gabo de ser Flamengo e na hora do aperto… Bem feito.

Além da vitória de ontem, hoje se completam duas décadas da morte de Carlos Drumond de Andrade. Pois então, seguem abaixo todas as homenagens possíveis, de uma vez só: um trecho do conto “O torcedor”, do mineiro de Itabira e uma crônica sobre o Flamengo, escrita pelo tricolor Artur da Távola.

Lembrando-se de que torcera pelo vencido, teve medo, para não dizer terror. Se lessem em seu íntimo o segredo, estava perdido. Mas todos cantavam, sambavam com alegria tão pura que ele próprio começou a sentir um pouco de Flamengo dentro de si. Era o canto? Eram braços e pernas falando além da boca? A emanação de entusiasmo o contagiava e transformava. Marcou com a cabeça o acompanhamento da música. Abriu os lábios, simulando cantar. Cantou. Ao dar fé de si, disputava à morena frenética a posse de uma bandeira. Queria enrolar-se no pano para exteriorizar o ser partidário que pulava em suas entranhas. A moça, em vez de ceder o troféu, abraçou-se com Eváglio e beijou-o na boca. Estava batizado, crismado e ungido: uma vez Flamengo, sempre Flamengo.

Carlos Drumond de Andrade

Ser Flamengo é ser humano e ser inteiro e forte na capacidade de querer. É ter certezas, vontade, garra e disposição. É paixão com alegria, alma com fome de gol e vontade com definição. É ser forte como o que é rubro e negro como o que é total. Forte e total, crescer em luta, peleja, ânimo, e decisão.

Ser Flamengo é deixar a tristeza para depois da batalha e nela entrar por inteiro, alma de herói, cabeça de gênio militar e coração incendiado de guerreiro. É pronunciar com emoção as palavras flama, gana, garra, sou mais eu, ardor, vou, vida, sangue, seiva, agora, encarar, no peito, fé, vontade. Insolação.

Ser Flamengo é morder com vigor o pão da melhor paixão; é respirar fundo e não temer; é ter coração em compasso de multidão.

Ser Flamengo é ousar, é contrariar norma, é enfrentar todas as formas de poder com arte, criatividade e malemolência. É saber o momento da contramão, de pular o muro, de driblar o otário e de ser forte por ficar do lado do mais fraco. É poder tanto quanto querer. É querer tanto como saber; é enfrentar trovões ou hinos de amor com o olhar firme da convicção.

Ser Flamengo é enganar o guarda, é roubar o beijo. É bailar sempre para distrair o poder e dobrar a injustiça. É ir em frente onde os outros param, é derrubar barreiras onde os prudentes medram, é jamais se arrepender, exceto do que não faz. É comungar a humildade com o rei interno de cada um.

É crer, é ser, é vibrar. É vencer. É correr para; jamais correr de. É seiva, é salva; é vastidão. É frente, é franco, é forte, é furacão. É flor que quebra o muro, mão que faz o trabalho, povo que faz país.

Artur da Távola

•••

Não é porque ganhou o Fla-Flu que o time ficou bom. Continua horroroso. E os agradecimentos espeicias vão para Juan e Roger que, com duas espulsões bisonhas, arriscaram a derrota e ainda vão desfalcar o time na próxima rodada…

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4 comentários em “A besta, o poeta e o tricolor

  1. Gustavo, que lindo caarinho você fez ao mais querido!! Quase um ato de contrição pelo pecado de nào ter ido ao jogo!
    Fiquei emocionada, não só pela homenagem ao nosso Flamengo mas, também, por trazer os queridos Drummond e Távola de volta.
    Valeu!!!
    Beijocas!!!

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  2. Adorei seu texto e me emocionei com o de Artur da Távola. Mas devo descordar de vc. Nosso time não é horroroso. Não é o melhor do Brasil, mas não é horroroso. Vestir o manto não é para qualquer um. Vide Alessandro (Santos), Luiz Alberto (Fluminense), Aloisio (São Paulo), Paulo Baier (Goiás), Adriano (Inter), e por ai vai … Para Roger e Juan a partida era especial. Eles não saíram bem do Fluminense.

    Somos duas bestas … eu por acreditar demais e vc por não acreditar nunca.

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  3. Em clássicos e momentos difíceis que o peso da camisa e o grito da torcida monstram que Mengão é raça e coração. O 12º jogador entra em campo.
    O time é horrível, mas flaflu é flaflu e toda dificuldade tem de ser superada.
    Um abraço !!!
    Rodrigo Azevedo.

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