O ano em que experimentamos a liberdade


Recebi o texto abaixo por e-mail, da Jamile Attie, pelo Clube de Comunicação. É de Maria Adelaide Amaral, sobre a questão da auto-censura, em pauta nos últimos dias, e publicado no dia 4 de julho, no OESP.

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Toda vez que escuto O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, lembro-me da esperança que nos invadiu em 1979, com os exilados voltando, os ventos da liberdade soprando e Papa Highirtie finalmente no palco, anos depois de sua encenação ter sido proibida pelo governo militar. Oduvaldo Viana Filho não viu sua peça encenada. Como também não assistiu à montagem de Rasga Coração (reprodução do cartaz ao lado), texto escrito em seu leito de morte e igualmente censurado. Tinha falecido em 1974. Nesse ano dava meus primeiros passos como dramaturga, mas só consegui realmente estrear em 1978, com Bodas de Papel.

Lembro-me da nossa tensão no ensaio para o censor, Madeira (não recordo o prenome), um homem bem-educado, senhor do nosso trabalho e da nossa vida. Quando o espetáculo foi aprovado sem cortes, respiramos aliviados e gratos à boa vontade do Sr. Madeira. No entanto, isso era apenas uma das faces perversas da censura: quando se depende da boa vontade de um censor, significa que os critérios que permitem ou proíbem uma obra são pessoais e subjetivos.

Tive muita sorte com a liberação de Bodas de Papel. Já com Cemitério sem Cruzes a história foi diferente. O texto fazia parte da Feira Paulista de Opinião, promovida por Ruth Escobar em 1978, e dela também participavam obras de Dias Gomes, Jorge de Andrade, Carlos Queiroz Telles, Lauro César Muniz, Carlos Henrique Escobar, Gianfrancesco Guarnieri, João das Neves, Leilah Assunção e Márcio de Souza. O evento não chegou a ser realizado porque todas as obras foram proibidas em bloco. Todos nós fomos censurados numa ação decidida pelo próprio Ministério da Justiça. Por que? Porque é assim que acontece nas ditaduras. A premissa é a de que a população carece de maturidade e discernimento para avaliar o que é melhor para si e, portanto, necessita de um grande tutor – o Estado. Cabe a ele decidir o que é melhor para o povo e, não por coincidência, esse ‘melhor’ é tudo que colabora para a estabilidade do regime e a continuidade no poder de seus governantes.

– Está certo. Eles têm a censura deles. Nós vamos ter a nossa – costumava dizer um colega da Abril Cultural, militante de conhecido partido de esquerda (suponho que ainda seja), naqueles anos 70. A primeira vez que ouvi a frase fiquei estarrecida. Alguns companheiros riram, mas não era piada. Ele falava sério. Mas nós não queríamos nenhuma censura, nem de direita nem de esquerda.

Nos anos 70, clamávamos por liberdade para que nunca mais nenhum autor morresse, como Vianinha, sem ver seus textos encenados; para que nunca mais uma peça premiada pelo Serviço Nacional de Teatro (A Patética, de João Ribeiro Chaves) fosse sumariamente proibida porque tratava da morte de um jornalista (Vladimir Herzog) nos porões da ditadura; para que nunca mais razões arbitrárias, escusas ou absurdas determinassem a mutilação ou proibição de um filme, peça ou livro, ou impedissem uma notícia de ser veiculada. Em nome da liberdade abrigamos amigos perseguidos pelos órgãos de repressão, angariamos fundos para os metalúrgicos em greve no ABC, sustentamos a imprensa nanica, saímos às ruas e subscrevemos manifestos e abaixo-assinados contra a repressão.

Para quem viveu os anos de chumbo da ditadura militar e teve que se haver com a truculência ou irracionalidade das decisões da Censura, os sinais de abertura que se fizeram sentir em 1979, eram puro oxigênio. A liberdade não era mais uma palavra, um libelo, um alvo remoto, um destino a atingir. Enfim podíamos respirar, sonhar, escrever, criar livremente. Em agosto de 1979, Cecil Thiré ligou do Rio pedindo para que eu reescrevesse um diálogo fundamental entre os dois personagens centrais de A Resistência, que ele estava dirigindo no Teatro Gláucio Gil. Tratava-se de Léo, um ex-preso político e Luis Raul, que tinha sido de esquerda e acabara aderindo ao movimento hippie. Era um momento de embate, em que as posições políticas e as razões de cada um seriam confrontadas. Um ano antes a cena inviabilizaria a peça inteira. Quando o texto passou incólume pela Censura, senti que os dias de D. Solange estavam contados.

Quase 30 anos depois ressurge o fantasma, não de D. Solange mas o da posição daquele meu colega que justificava a censura do governo militar antevendo a do próprio partido. O colega em questão felizmente não faz parte dos quadros do governo mas as suas convicções continuam ativas a despeito do colapso do mundo que as originou. Não foi para exumar maus cadáveres que saímos à rua lutando pelas Diretas, não foi para isso que combatemos o bom combate. Mas se for preciso combateremos outra vez.

Maria Adelaide Amaral

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