Só vai piorar (2)

ExecucaoQuando discordo de alguém, a última coisa que faço é tentar desqualificar esse alguém. Tento entender seus argumentos e, então, rebatê-los. Seja com opiniões ou informações. É que fui educado para respeitar as pessoas e o direito de cada um à sua própria opinião. Mesmo que eu ache ridículo ou daí pra pior.

Agora, vejam o que estão fazendo com Rachel Sheherazade, a comentarista do SBT. Até a demissão dela e processo por apologia ao crime estão sendo “exigidos” por aí. Por quê, ora bolas? Porque ela tem uma opinião diferente do que é bonitinho?

Leiam o que ela disse sobre o caso do moleque que foi preso nu a um poste no Rio, depois de levar uma baita surra e até perder um pedaço da orelha.

O marginalzinho amarrado ao poste era tão inocente que, ao invés de prestar queixa contra seus agressores, preferiu fugir antes que ele mesmo acabasse preso. É que a ficha do sujeito está mais suja do que pau de galinheiro.

Rachel SheherazadeNo país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80% de inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível. O Estado é omisso, a polícia é desmoralizada, a Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, é claro.

O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite. E, aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil, adote um bandido.

Nos dois primeiros parágrafos, o que foi que ela disse diferente de mim, que sou um completo desconhecido? Que é fácil entender o que houve e por que houve? Ora, é claro que é. Eu, por exemplo, sou completamente contra a justiça pelas próprias mãos. E ela? Nem isso fica claro no texto. E mesmo que fosse (ou seja) a favor, ter opinião é crime? Façam-me o favor.

Capa ExtraE o seu último parágrafo, será que eu concordo? Não. Essa história de legítima defesa devolvendo a violência, eu chamo de barbárie. Mas ela tem o direito de pensar assim e dizer. E isso não dá a ninguém de fazer campanha contra a moça, pretendendo calá-la e acabar com a carreira e até com a vida da moça. Srs, todo mundo tem o direito de pensar diferente de nós e todo mundo tem o direito de dizer o que pensa. E, simplesmente, dizer o que pensa, não é nem nunca foi apologia a crime nenhum.

E enquanto está todo mundo gritando contra uma jornalista que disse o que pensa, perde-se tempo em cuidar do que se deve. Porque só vai piorar. E muito. Porque eu não tenho dúvidas de que a esquerda-caviar-politicamente-correta, que adora fazer discurso pelos direitos humanos, vai continuar gritando a favor do lado errado.ONG X PM

 

Só vai piorar

Pivete preso em poste no Rio  /  Foto: Yvonne Bezerra de Mello/ Arquivo Pessoal  /  Reprodução G1Foi só eu reclamar que andava faltando assunto, e pronto. A bola quicou na minha frente. Eu, que sempre fui um baita perna de pau, corro o risco de mandar a redonda na lua. Mas vamos em frente.

Primeiro é preciso dizer que não sou nada a favor da ‘justiça pelas próprias mãos’, ‘olho por olho, dente por dente’ e congêneres. Simplesmente porque posturas e comportamentos do tipo só fazem girar e acelerar a roda nada virtuosa. E, afinal de contas, somos pretensamente civilizados e temos leis.

Agora, antes de começar, peço a todos que me xinguem: facista, nazista e quaiquer outros nomes nada bonitos do tipo são aceitos. E sim, façam por antecipação.

Eu tenho ódio mortal dessa turma bonitinha e corretinha que vive a gritar por direitos humanos. Só porque em 95% dos casos, estão preocupados com os algozes ao invés de pensar nas vítimas. Nada demais, como se vê.

A grita do momento no Rio é por causa de um garoto que foi levemente surrado, perdeu um pedaço da orelha e foi amarrado nu, com uma tranca de bicicleta, em um poste. O garoto, que é menor (!!) e suposto praticante de roubos, já tem três anotações na polícia – justamente por roubos e furtos – e fugiu do hospital para onde foi levado. Um anjo de 15 anos que, é claro, não sabe o que faz. Mas nada disso justifica a violência com que foi tratado, embora um pouco de esforço permita entender porque aconteceu.

Fui jovem no Rio de Brizola, o que diz muito sobre o tipo de cidade que conheci. Fui assaltado com arma na cabeça, sem arma na cabeça, meu prédio foi atacado naquele esquema de render geral e fazer a limpa. Mas a última vez foi um assalto que sofri num ônibus quando voltava da faculdade, há mais de 20 anos.

Toda cidade grande tem violência, claro. Mas o perfil do Rio, com o apoderamento do tráfico, mudou. E a cidade se desacostumou a enfrentar essa violência de rua. Mas hoje, só na zona Sul, esses eventos quase dobraram. E não achei os dados sobre o resto da cidade (a Tijuca, onde moro, e os bairros ao redor estão perigosíssimos).

Pois viva as redes sociais. Apesar dos números oficiais não retratarem a realidade (porque ainda é pequeno o número de pessoas que faz o registro), é alarmante perceber que dia a dia só aumentam as histórias e postagens (boa parte com fotos) de roubos e furtos. E cada vez mais violentos, pontencializados pela praga do crack. E agora chegamos ao ponto.

Por causa da droga, tudo virou um problema social. Desculpem meus amigos, mas não é. Nem todo toxicômano é bandido, nem todo pobre é bandido, nem todo bandido é viciado, nem todo bandido é pobre (Brasília que o diga, mas isso é outro assunto).

Então, uma coisa é problema social. Outra é o problema de polícia, a violência. São sim coisas distintas que, muitas vezes se permeiam. Mas não necessariamente. O Rio, hoje, sofre com as duas coisas.

Sobre o problema social, muito discurso, debate e programas inteiros em vários canais de TV. Mas pouquíssima ou nenhuma ação. E a violência é problema de polícia, que também não é eficiente. E por isso estamos correndo o risco de chegar à barbárie.

Sobre a droga, quando o estado não age, a população não tem muito o que fazer. Mas sobre a violência…

O garoto que foi preso ao poste não é um caso isolado. Em vários pontos da cidade, há grupos se organizando para dar corretivos em marginais. Isso está certo? Claro que não. Mas se a polícia não age… A diferença do caso que foi parar no jornal é que amarraram o garoto e tudo aconteceu no paraíso da esquerda-caviar-politicamente-correta que adoram posar de salvadora e defensora da massa ignara, desde que ela nunca deixe de ser a massa ignara. E, de preferência, pobre pra justificar o discurso. Só por isso virou notícia de jornal.

O número de assaltos e agressões nas ruas, invasões de casas e condomínios, roubos de carro, assaltos a ônibus, roubos de bares e outros eventos do tipo só faz aumentar. E quando o estado não resolve, abre espaço para a reação da sociedade. Que pode ser a melhor possível, mas também pode ser a pior. Foi o que aconteceu com o menino do poste e vai continuar acontecendo enquanto as coisas não forem resolvidas. Infelizmente, é “natural”.

Enquanto o estado e a sociedade (ongs e outras entidades) continuarem a confundir problema de polícia com problema social, romantizando as coisas como se compusessem um belo samba, o horizonte vai ficar cada vez mais negro. Tenho dito que estamos no limiar dos anos Brizola e amigos dizem que sou apocalíptico. Sei não. Toda vez que ouço essa gracinha, infelizmente acerto. E agora, temos o agravante da reação. E a roda gira.

P.S.: sempre disse que as UPP eram um achado de marketing e que o Rio não tinha política de segurança séria. Pois agora que as meninas dos olhos já começam a fazer água – basta ver que o número de tiroteios e ataques a unidades de polícia em favelas ‘pacificadas’ só aumenta –, alguém viu por aí os srs. Beltrame e Cabral dando alguma explicação ou se importando com o aumento da violência? Pois é, apocalíptico…

O que vale um professor?

Sala de aula / Foto: Marcos Santos/USP ImagensEu ainda não consegui digerir direito o que aconteceu no Rio, na noite/madrugada de sábado para domingo.

Pra quem não sabe: os professores do município e do estado estão em greve desde agosto. Há algumas semanas, o alcaide apresentou algumas propostas e como sinal de boa fé, os da cidade voltaram a trabalhar. Como nada do combinado, foi cumprido, retomaram a greve.

Em nova rodada de negociações, o prefeito voltou à carga e apresentou um modelo de plano de carreira. Eu li a proposta que, em quase todos os aspectos, é indecente e alcança menos de 10% dos profissionais de educação da cidade. Mesmo assim, como sujeito democrático que é, enviou o plano para tramitação na câmara dos vereadores – onde tem maioria absoluta e aprova o que bem entende. Só pra se ter uma idéia, dos 51 vereadores, 41 (de 20 partidos!!!) formam a base de apoio. Os 10 da oposição são 4 do PSOL, 3 do DEM, 2 do PSDB e 1 do PV.

Na pauta, o tal plano recebeu 27 emendas, todas de vereadores da situação. E no meio da semana passada, os professores foram à câmara para tentar negociar com os vereadores. Em meio às discussões, o negócio desandou e o plenário foi ocupado por cerca de 150 dos 200 educadores presentes à sessão. E lá ficaram até sábado à noite, sem quebrar um copo sequer.

Porque apesar de sindicalistas, são professores. E aí está a questão: são professores.

Talvez isso seja besteira pra você. Mas ainda entendo que o professor cumpre uma função sagrada – em que pese todos os muitos problemas existentes.

Registros

Se procurarem por aí, encontrarão mil vídeos e fotos do que aconteceu no Palácio Pedro Ernesto: sem qualquer ordem formal, sem qualquer anuência do poder judiciário, sem qualquer documento, a PM foi enviada para a câmara pelo governador do estado que, teoricamente, atendia a pedido do presidente da casa – numa ação que foi contra o que o próprio Jorge Felipe disse dias antes.

O pau comeu na casa de Noca. Apesar da polícia afirmar que a ação não foi truculenta, 20 foram parar no hospital e até vereadores foram agredidos pelos policiais (foi registrada a frase “vereador também apanha”). Um dos professores, cardíaco, desmaiou. E caído no chão, foi chutado por policiais. E esse é só um exemplo.

Não, eu não sou a favor da ocupação e acampamento na câmara ou coisas do tipo. Mas há o jeito certo e o jeito errado de se resolver os problemas.

O nosso governador, abraçado ao prefeito e ao presidente da câmara, escolheu o errado. E nem preciso falar a respeito dos policiais, especialmente seu comando, que podem (e devem) se recusar a cumprir uma ordem ilegal, e não fizeram isso.

Indignação

Outra coisa curiosa, ainda que triste, pode ser vista nas redes sociais. Alguns discursos e imagens fazendo referência à “indignação da sociedade”. Infelizmente, uma baita duma mentira.

Boa parte da cidade nem sabe o que está acontecendo, não viu o que houve no sábado à noite. Não por acaso. Ao menos a parte da sociedade que é capaz de fazer barulho e até se organizar quando quer, não tem seus filhos em escolas públicas. Assim, não são afetadas pela greve nem tomam conhecimento de como as coisas estão caminhando. Ou você vai dizer que aí no seu trabalho ou na academia ou seja lá onde for não se fala em outra coisa?

E é claro que a chegada da polícia no sábado à noite, quando os jornais de domingo já estão fechados, quando a televisão não tem qualquer noticiário, quando boa parte das pessoas está na rua se divertindo ou até viajando, não foi por acaso. Como também não foi por acaso que a única matéria de O Globo no domingo falava sobre como as famílias estão tendo de apertar os cintos para cuidar das crianças sem aula (como se os alunos da escola pública estudassem em horário integral e não tivessem férias).

Perguntas

Por fim, de tudo isso, me faltam algumas respostas. Se alguém se sentir apto a respondê-las, sinta-se em casa.

  1. Em que tipo de sociedade vivemos e qual queremos construir ao violentar (em todos os sentidos) os professores?
  2. A escola pública, em greve, atende à maior parcela da população, mas a menos capaz de fazer barulho organizado. Qual a atuação do sindicato junto às escolas particulares? Por que os professores, todos, não entram em greve?
  3. Por que o Sepe e o SinproRio não trabalham em parceria?
  4. Com tantas imagens (vídeos e fotos), além dos relatos e hematomas de quem viveu e viu aquela noite, como é que governador, comandante da PM e presidente da câmara tem a desfaçatez de falar que tudo o que aconteceu foi legal e normal?
  5. Com tantas imagens (vídeos e fotos), além dos relatos e hematomas de quem viveu e viu aquela noite, como é que os principais órgãos de imprensa (a “mídia golpista”) continua apoiando e até defendendo (vejam as manchetes, interpretem as manchetes) prefeito e governador?
  6. Mais do que quanto, o que vale um professor?

Para quebrar o tédio

SpyFox / ReproduçãoÉ, a idéia era voltar ao trabalho e, ao mesmo tempo, recolocar o cafofo pra funcionar. Mas as coisas andam um tantinho sonolentas e as notícias do mundo nem são as melhores, um baita mais do mesmo: a polícia do Cabral que desce o cacete até em professor, o Amarildo e um montão de desaparecidos que não aparecem, fora um e outro escandalozinho político. Enfado não?

Aí, pra melhorar um pouquinho o humor da tarde, SpyFox. Um espião que, inspirado em Bond e congêneres dos anos 60, salva o mundo da terrível ameaça de um tubarão martelo e suas sardinhas.

O filme foi produzido por Yoav Shtibelman, Taylor Clutter e Kendra Phillips, na Ringling College of Art and Design. E não deixem de assistir o making of.

#vaidarmerda

Foto: Marcio CavalcantiAqui em casa, às vezes, o bicho pega. Eu e Mariana discordamos politicamente em 85, 90% do tempo. Nem por isso se perde o respeito ou se tenta impor ao outro. Sabe aquele papo de democracia, respeito etc? Praticamos.

IMG_5906 cópiaA moça disse que iria à manifestação de hoje. E acendeu o alerta, afinal o pau anda cantando e quando explode, a merda espalha. E Deus sabe para quem sobra o que.

IMG_5908 cópia 2Aproveitei que precisava praticar, fazer fotos novas, e resolvi ir junto. Como se minha presença a pudesse proteger de verdade… Mas vá, que é preciso ter fé.

IMG_5909 cópia 2Acabou que me dei mais ao trabalho de observar e ouvir a turma ao redor do que propriamente fotografar. E acabei chegando em casa com muito mais dúvidas e medos sobre o que anda acontecendo.

IMG_5910 cópia 2A primeira coisa que se percebe é que está todo mundo protestando, cada um com seu cada qual, sem direções, sem foco, sem muita busca por coisas práticas. Os cartazes e gritos mais ouvidos falam sobre generalidades e problemas sistêmicos, como melhor saúde, educação e segurança. Temas sobre os quais não há ações práticas de efeitos imediatos. E, sinceramente, creio que se continuar assim toda essa bagunça tende a perder fôlego.

IMG_5915 cópia 2“Juntos podemos!” Podemos o que? O que é que se quer, afinal? Derrubar o governo? Se sim, é melhor assumir isso logo. Ou então é bom achar coisas tangíveis sobre as quais gritar. De qualquer maneira, é bom deixar registrado que sim, a “festa” é bela. Há de tudo e todos, e isso é fabuloso. Sim, é bom ver e sentir o povo na rua.

IMG_5933 cópia 2Também sabemos que o pau anda cantando a plenos pulmões. E é claro que há radicais e vândalos presentes (como há bandidos se aproveitando da situação). Mas o que me deixou aporrinhado foi ver (e ouvir) de perto como há gente estranha no meio do povo, infiltrados mesmo. É nítido e fácil de identificar, basta ficar com olhos e ouvidos atentos. Perto de nós, hoje, passaram alguns grupos estranhíssimos. Especialmente uma dupla que minha moça ouviu falar claramente: “é por ali que vamos simular a confusão?”

IMG_5952 cópia 2E é aí que surge a segunda questão básica. Levando-se em conta que vivemos uma crise clara de comando, político e moral, no país, a quem interessa a violência? É, estou falando de manutenção do poder.

IMG_5954 cópia 2A outra e última é a seguinte: que porra de imprensa é essa que existe hoje no país, oficialista em todos os níveis? No Rio, por exemplo, a noite terminou com muita gente sitiada em vários pontos da cidade e ninguém falou nada. À tarde, em vários bairros (principalmente na zona norte), fechou-se tal cerco que impediu boa parte da população de se deslocar para o Centro, para a manifestação. Noite e madrugada adentro, em Laranjeiras, a PM jogou bombas em portarias de muitos edifícios por conta de gente que tentava se refugiar. E daí pra pior.

IMG_5962 cópia 2Depois, quando a turma conseguir alcançar o tal “controle social da mídia”, não reclamem.

IMG_5966 cópia 3Enfim, hoje foram mais de 100 cidades com o povo na rua. Ainda que não em guerra, já não dá mais pra esconder que o país está conflagrado. A continuar nesse ritmo, o que será que pode acontecer? Será que alcançaremos o cúmulo da ironia, com terroristas e torturados que lutaram contra as forças armadas colocando as forças armadas nas ruas?

IMG_5983 cópia 2Gostaria muito de ver alguém lúcido o suficiente que fosse capaz de nos dizer quanto longe estamos disso. Basicamente, meu sentimento é que estamos a um pentelhésimo do #deumerda.

IMG_5972 cópia 2

O que virá e pelo fim da hipocrisia

Cinelândia / Foto: Fabio Motta/Futura Press/Estadão ConteúdoFicou evidente, pelo menos pra mim, que o que turbinou as manifestações de ontem foram os confrontos ocorridos nas primeiras manifestações, especialmente em São Paulo, e a cobertura torta da maior parte da imprensa jogando nos ombros das polícias a culpa de tudo o que aconteceu de errado.

Mas essa percepção não esconde o fato de que quase tudo o que aconteceu ontem foi maravilhoso. Porque pro bem e pro mal, com o estopim certo ou errado, ver que a população é capaz de se mobilizar e de se expressar – quando há muito tempo se acreditava que cada um de nós tratava de olhar apenas para o próprio umbigo – é maravilhoso.

Outra coisa fabulosa que houve ontem foi a capacidade, consciente ou não, da massa isolar aqueles que foram às ruas pra fazer cagada.

Violência, segurança e combate

Não consegui acompanhar a cobertura detalhada de cada uma das grandes cidades, mas o que houve no Rio foi muito grave. Pelo que vi e ouvi, ficou claro que a PM tinha ordens diretas para não entrar em confronto, em qualquer situação. Isso explica o cerco aos policiais na Alerj e a demora para a chegada à ação do Batalhão de Choque.

Coquetel molotov na Alerj / Foto: Nicolas Taner/APNo entanto, nem Cabral nem Beltrame deram as caras. O que será feito contra essa turma? “Ah, não podemos fazer nada, era uma multidão e muitos estavam mascarados”. Uma pinóia!

Nas imagens, há muitos de cara limpa no meio da turba. Então o trabalho é Identificar, encontrar, prender e processar. E os crimes são vários. E sim, são bandidos.

A outra coisa é deixar a polícia pronta pra reagir, devidamente orientada sobre como e porquê. É só não inventar nada, sigam as leis e os baderneiros serão detidos.

Mas, acima de tudo, é preciso ter claro que essa violência não é gratuita, por acaso. Vivemos um momento grave, em que a manutenção ou não do poder dá o tom das ações desse governo que está aí. E não vai parar. Nas próximas manifestações, corre-se o grande risco de que eles tentem e consigam não se isolar, fazendo suas cagadas misturados à massa. E aí, será o terror.

Ir e vir

Outro absurdo de ontem no Rio foi a incapacidade da cidade em se preparar. É fato que ninguém esperava a quantidade de gente que apareceu e muito mais gente do que os 100 mil fugiram do centro com muito medo. Mas por que, sem qualquer comunicação ampla, sem avisos prévios, fecharam as duas maiores estações de metrô do Centro às 17h30? Quem tomou a decisão e quem permitiu?

Com 5, 20 ou 100 mil pessoas na rua, o trânsito dá nó. Na outra semana, deu nó por causa de um caminhão acidentado. Então, como é que as pessoas se locomovem, voltam pra casa, se os ônibus não rodam (porque não conseguem) e o metrô está fechado?

O que virá?

Ocupação da marquise do Congresso Nacional / Foto: Ueslei Marcelino/ReutersParece que está mesmo provado que o problema não são os 20 ou 40 (ida e volta) centavos. Há muitas questões reprimidas há muito tempo. Mas e o que vem agora? Já há outra manifestação marcada para a quinta-feira. No Rio, a turma quer colocar um milhão na rua. Os ‘realistas’ falam que 200 mil é algo factível. Talvez seja mesmo, não há dúvidas que o dia de ontem foi especial (em todas as suas conotações) e o pouco tempo entre uma e outra passeata pode ajudar a inchar ainda mais o movimento.

Mas há questões práticas em que se pensar. Não há uma liderança ‘formal’, não há uma pauta organizada. Além disso, Cuiabá, João Pessoa, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife e Vitória já anunciaram redução (graças a uma isenção de impostos) no valor das passagens, ponto inicial das manifestações. Outras capitais e grandes cidades também devem fazer o mesmo. E ssse cenário, a médio prazo, talvez faça com que o barulho se dilua, minguando os eventos, até voltarmos ao silêncio sepulcral de duas ou três semanas atrás.

A falta desses pontos bem definidos também facilita a vida dos nossos ilustríssimos representantes, pois não os obrigam a ‘entender’ o movimento e dar respostas práticas aos quereres da população.

No entanto, também pode acontecer o contrário, o que seria fantástico. Seria uma quebra gigantesca de paradigmas. E, sem dúvida, benéfica para o país.

Até agosto, por exemplo, será decidido o futuro da turma do mensalão. E já há dois novos ministros que foram indicados para reverter, se não as condenações, boa parte das penas. Um deles (Barroso) já declarou em entrevista que o Supremo foi muito duro na ação penal 470. Por aí, vê-se onde podemos chegar. E ainda haverá mobilização até lá?

Cada um com seu cada qual

Acorda Brasil / Foto: Caio Kenji/G1Pra terminar, agora que estamos “todos” na rua ou comemorando o sucesso das manifestações de ontem, deixo as perguntas que o Rica Perrone fez em seu blog. Porque ao contrário do que pensa boa parte, os problemas não são apenas dos outros. E é de bom tom não ser hipócrita.

Agora que estamos na rua por um país melhor, vamos jogar fora a carteirinha de estudante (pra quem não estuda) que usamos e lesamos os não estudantes honestos que pagam mais pra compensar?

Vamos pensar melhor na hora de fumar um baseado e sustentar um traficante que amanhã pode estuprar sua filha?

Vamos pagar a multa e não o guarda que amanhã vai liberar um bêbado que vai acertar seu carro e matar um parente seu?

Vamos pedir pro amigo que tem o GatoNet assinar honestamente o produto pra que não fique mais caro pra você?

Vamos não renovar CNH por fora pra que um bêbado com 100pts não renove e cause um acidente amanhã?

Vamos até o lixo na praia e não deixar na areia nossos restos?

Vamos mudar o Brasil começando por nós?

Cenário, contexto, horizonte

Antes de mais nada é preciso entender que há a maior parte da sociedade (de fato, em números) e há a parte da sociedade que consegue, pode e sabe fazer barulho como se a maior parte da sociedade fosse.

Todo mundo sabe, vê, está acompanhando a história de protestos e violências iniciados com o aumento das passagens como pretexto. E pelas redes sociais e boa parte dos portais de notícias, o barulho foi comprado e, com palavras e discursos mais ou menos fortes, tudo de errado e ruim é culpa das polícias (e dos estados, por óbvio).

As polícias são mal preparadas? Claro que sim, estamos todos cansados de saber. Isso justifica suas enormes cagadas? Claro que não. E daí?

Daí que há um enorme contexto sobre tudo o que está acontecendo e o aumento das passagens, está claro e declarado por todos os líderes desses movimentos, foi apenas e tão somente um pretexto para começar a bagunça.

Até aí, nada de mais, nada mal. Na verdade, é mais do que comum: quando as coisas em geral vão mal (e o Brasil vai mal), uma gota d’água qualquer é/pode ser o ponto de partida para manifestações populares. E seria excelente se esse fosse um hábito brasileiro, protestar, se manifestar.

O grande problema é que há um método nitidamente aplicado, planejado e executado com maestria – dados os resultados – nos movimentos dos últimos dias. Já falei disso aqui. Mas o que está acontecendo de verdade?

Alguém já notou que os principais atos e confrontos aconteceram nas capitais de estados em que há algum tipo de risco efetivo para o PT?

Alguém já notou que, apesar de admitir que os protestos são contra tudo o que está errado por aí, não há sequer uma palavra de ordem contra o governo federal, do PT?

Alguém já notou que as bandeiras e gritos de guerra que se vê nesses protestos são de partidos ou movimentos parceiros ou patrocinados pelo PT?

Alguém já se deu conta que num grupo de 2 mil, 10 mil ou 500, bastam algumas dezenas de pessoas para arrumar um tumulto gigantesco?

Alguém se deu conta que os dois protestos de ontem, no Rio e em São Paulo, resolveram mudar seus trajetos previstos e acordados com as autoridades no meio do caminho?

Pois em São Paulo, os confrontos só começaram quando os manifestantes tentaram furar o bloqueio e foram impedidos. A reação da polícia foi desproporcional? Talvez, não sei. Mas é bom lembrar que no início da semana um policial escapou por pouco de ser linchado por um grupo de 8 ou 10 ‘manifestantes’.

Agora, se os manifestantes não tivessem forçado a barra, o confronto teria acontecido? Duvido.

Também já há um grande escândalo pelo fato de jornalistas estarem feridos, especialmente um grupo da Folha. Sinto muito, mas na hora que o pau quebra, ou você se afasta ou vai correr o risco de levar alguma bordoada. Se ficar no meio do caminho entre policiais com balas de borracha e gás de pimenta e ‘manifestantes’ com pedras e coquetéis molotov nas mãos, alguma coisa vai sobrar pra você. Pode ser trágico, mas é simples assim.

Agora, o Rio. Vejam o trajeto que os manifestantes fizeram e as fotos abaixo.

Alerj / ReproduçãoBanco atacado / ReproduçãoPichação / ReproduçãoTrajeto da passeata / Reprodução G1Durante todo o trajeto, e apesar das pichações e quebradeiras, a polícia não interviu (como deveria) e não houve confronto. No final, resolveram sentar e interromper completamente o trânsito no cruzamento de Rio Branco com Presidente Vargas (e quem é do Rio sabe o que isso significa). Só aí, quando a polícia tentou liberar a via, é que o pau quebrou.

E só então o objetivo estava cumprido, com TVs e fotógrafos fazendo imagens da polícia descendo o braço, a despeito das pedras, do fogo e das depredações.

Como já disse antes, cenário, contexto, horizonte. Não estamos caminhando num rumo muito auspicioso. No ritmo atual, vai dar merda e não vai demorar muito.