O Maraca (2)

maracanazolotado cópiaAo contrário da maioria dos rubro-negros, me acostumei a entrar no Maracanã pela rampa da UERJ. Muito mais perto e prático para quem vinha andando de Vila Isabel ou da praça Niterói. Resquícios de um tempo em que andar entre adversários não era risco de morte. Pelo contrário, risco de piadas e boas risadas de parte a parte.

Assim, já entrava na arquibancada no meio da Raça, aquela multidão e seus urros mesmo em jogos de pouca gente. Também não foram poucas as vezes em que cheguei cedo o suficiente para assistir ao desfile das bandeiras. No tempo em que não havia divisórias e setores no anel superior, as organizadas dos dois clubes que estariam em campo entravam com seus panos desfraldados pelo meio do campo e corriam até chegarem aos seus lugares. Espetáculo sem igual.

Como sem igual era chegar em cima da hora, tudo cheio, e levar aquela pancada de gritos e multidão, tudo já quente em volta. É sobre isso muitas outras coisas que fala Lúcio de Castro.

Mataram meu Maracanã. Podem chamar de Estádio Justo Veríssimo

Tem mais de um ano. Falava aqui dos vendilhões do templo. Para ser mais exato, em 2 de março de 2012. “Os vedilhões do templo – como querem acabar com o carnaval carioca” tratava também do Maracanã. Escrevi outros tantos textos sobre o fim do Maracanã. O sábado que passou foi o dia de enfim passar da teoria para a prática, confirmar tais expectativas.

Minto. Não era necessário confirmar tais expectativas. O fim do templo onde cultuávamos nossos deuses, o sagrado e o profano se misturavam na geral e arquibancada e tanto reis quanto plebeus estavam juntos já havia se confirmado. Na arquitetura do novo estádio que destruiu o antigo e muito mais do que isso: no papel, oficialmente, como no estudo de viabilidade econômica para o futuro administrador, curiosamente feito pela IMX, de Eike Batista, onde qualquer máscara vai abaixo, ao expressar “mudança do perfil do público”. Está lá no tal estudo, acima de qualquer discussão teórica. A constatação da elitização daquele que foi símbolo da mistura de classes na cidade não é passível de argumentação. Está no papel. É oficial.

Com muito penar percorri caminhos de uma vida toda no último sábado, quando o Maracanã seria reinaugurado”. Sabia que ia rever a velha namorada, ainda que ela não fosse mais a mesma. Mas amores são assim, é possível passar por cima de tudo. No fundo, ainda guardava a ilusão que aquela história de amor entre nós podia voltar. Como se o tempo voltasse…Pensava no momento em que sairia do túnel tantas vezes atravessado e daria de cara com aquele monumento. Encontrei tanta gente no caminho. Segurei o passo. Encontrar a velha namorada exige solenidade. Tinha que ser sozinho. Os versos de Vinícius não saiam da cabeça. Ia dar o último passo no túnel e o Maracanã seria como nas palavras do poetinha, a “me entreabrir a porta como uma velha amante”.

Bobagem, sabia tanto que a “velha amante”, a namorada dos melhores anos de nossas vidas não estava mais ali. Mas amantes são assim mesmo, só materializam ao constatar que acabou e se descobre a amada nos braços de outro.

Me desprovi de todos os conceitos anteriores. Se já era sabido que o sentido do velho Maracanã tinha ido abaixo com sua elitização, ao menos talvez fosse possível, com todas as ressalvas, constatar que realmente o novo estádio é bonito, moderno. Tudo o que se diz dos novos estádios por aí: ainda que matem tradições, histórias, são belos, funcionais, modernos.

Entrei com esse sentimento, tentando me desarmar de minhas ideias sobre o tema o mais possível. E aqui deixo meu relato do que vi, deixando para trás até mesmo a convicção de que nada desculparia tal mudança: o Maracanã acabou. Mataram o Maracanã. Se essa ideia de beleza do novo, moderno, apesar dos pesares, vale para outros, não vale para o Maracanã.

Pois obviamente o que fazia o belo, o impressionante do Maracanã era exatamente sua exuberância. Era ser monumental. Majestoso. Algo impressionante. Se sentir pequeno diante de tal obra. A epifania que era cruzar aquele túnel e se sentir tão pequeno. E ser abraçado pelo canto daquela gente. Epifania sim, sem medo de exagerar ou blasfemar. Algo que só se sente diante da força das águas das cataratas do iguaçu ou como chegar no último degrau de Machu Picchu. Ou do sol morrendo atrás dos Dois Irmãos. Poucas coisas podiam ser iguais aquele momento. Exagero? Quantos e quantos vindos de fora se exatasiaram com tal visão? Quantos craques tremeram ao deixar o túnel e cegar-se com a majestade do Maracanã? Quantos deram tanto de sua vida para um dia viver aquilo, seja no gramado ou na arquibancada…

Acabou. Quem viveu isso vai constatar e ver o mesmo. Acabou. Quando se chega ao fim do túnel, o Maracanã não está mais ali. Um estádio acanhado, bonitinho como outro qualquer. Bonitinho mas ordinário. Como será que deixou-se fazer isso? Quem cometeu essa boçalidade? “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”. O Maracanã não era um estádio qualquer. Transformar o Maracanã numa “arena” (eles merecem mesmo esse nome ridículo) e achar que ficou mais bonito do que era, é destruir Machu Picchu, é achar que se pode deixar o pôr do sol mais bonito.

Talvez o argumento valesse para qualquer outro estádio. “Mudou tudo, elitizou-se, mas é preciso reconhecer que está mais bonito”. Não, no Maracanã não vale. Ora, será que não é tão óbvio saber que a beleza do Maracanã era aquilo tudo. Era seu aspecto monumental. Vejam que não estou falando de coisas imateriais, ainda que não se possa separar a beleza do Maracanã do grito da geral, da gente misturada. Estou falando sobre a boçalidade de destruir algo monumental, diferente de tudo para deixá-lo igual a outros tantos.

Pois eles conseguiram. O Maracanã agora é igual a outros tantos. Não chamem aquilo lá de Maracanã, por favor. Chamarei de Estádio Justo Veríssimo, aquele personagem do Chico Anísio que defendia a morte dos pobres, “quero que pobre se exploda”, dizia ele. È esse o novo espírito do monstrengo moderno que conceberam. Inócuo, um dragão que não cospe mais. Mataram o meu Maracanã, amor de toda uma vida.

Nesse momento, só me ocorre a frase do Dr Ulisses ao promulgar a constituição de 1988. “Tenho ódio e nojo à ditadura”. Pois como cidadão, carioca, brasileiro, traços indissolúveis de minha identidade, tenho ódio e nojo de quem fez isso com o Maracanã. Como jornalista, ainda que não acredite que uma profissão possa estar separada da cidadania, tenho apenas que contar essa história. Como fizeram isso? Quem fez isso?

Como fizeram isso com o Maracanã? Ele agora é mais um. Uma arena. Igualzinha a todas as outras. Não era. Era diferente de tudo. Mataram o amor de toda uma vida dos cariocas e dos brasileiros. Presidenta, você estava lá aplaudindo isso. Governador, você assina isso e responderá por todas as suas gerações. Todas as noites, até seu último dia, você vai ouvir o Gerdau, geraldino histórico do Maracanã gritando no seu ouvido, como fazia na geral: “Pra frente, chuta….!!!”. Todos os seus ouvirão. Não adianta botar o guardanapo na cabeça. O Gerdau estará lá. “Pra frente, chuta”…

Trataremos desse funeral com os rituais com que os povos conseguem superar seus dramas. Nenhum lugar, nenhuma cidade do mundo amou tanto um estádio como o Rio amou o Maracanã. Vivia no seu imaginário. Nenhuma cidade tinha em seus cantos um estádio. Como fizeram isso? É essa a modernidade? Lamento por alguns do bem que vejo ouvir o canto da sereia.

Trataremos desse funeral. Não sei como ainda. Mas esse povo sempre soube se reinventar. Sempre que a vida foi negada por aqui, em São Sebastião do Rio de Janeiro. Metáfora de um Brasil. E o Maracanã era a metáfora maior disso tudo. Acabou. Não sei como terá de ressurgir. Assim sempre foi a gente daqui. Lembrei-me de “Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi”, trabalho maior de José Murilo de Carvalho. Que nos dá conta de nossa história. De como fizemos e nos reinventamos em ginga, samba, futebol, capoeira e vida quando tudo era negado. Mais uma vez estamos diante disso, como lá atrás. De alguma forma nos reinventaremos. Ainda que agora seja tão difícil aceitar uma das maiores violências já cometidas contra a população do Rio, do Brasil. E contra a história. Mataram o Maracanã.

Estive aqui pensando uma maneira de acabar com essa paz insuportável (4)

A história das UPP, a ocupação da Rocinha, a prisão do Nem… Tudo isso acabou chegando ao ponto do entrevero doméstico depois de pequenas discordâncias mais do que pacíficas no almoço de domingo.

Discordâncias baseadas na minha falta de crença na política adotada, com invasões de favelas transformadas em entretenimento – não tenho a menor dúvida de que houve muita gente sentada em frente à TV durante todo o dia da ocupação da Rocinha e Vidigal com baldes de pipoca a tiracolo. Afinal, é tudo espetáculo.

No almoço, enquanto alguns teciam loas à coisa toda, encerrei dizendo que voltaríamos a falar sobre o assunto em 2020. Torco e rezo, sinceramente, para estar errado sobre isso tudo. Mas…

É um tanto óbvio que há algo de muito errado por aí. É bastante claro que todo o carnaval está preocupado em atender expectativas ligadas aos grandes eventos que vêm por aí, Copa e Olimpíadas.

Há alguns dias, publiquei aqui que não conseguia me convencer com as explicações sobre o episódio da prisão de Nem. Cheguei a ouvir de amigos que eu era maluco, que gostava de procurar pêlo em ovo. Pois é muito bom me dar conta de que não sou o único maluco.

Hoje, depois de umas boas semanas sem visitar o blog do Lúcio de Castro, encontrei novo texto. Brilhante. Porque, além de boa análise e certa dose de informação, deixa no ar uma belíssima pergunta, no mínimo constrangedora: somos mesmo teleguiados e ninguém questiona nada?

Abaixo, trecho do texto publicado no dia 17 de novembro. Vale, também, ler este aqui, de quase um ano atrás, que o próprio autor cita.

Na mesma noite, a mesma polícia federal intercepta outro comboio, como o primeiro: de policiais militares e um carro. Um carro que furou o cerco das revistas na Rocinha, sob a alegação dos policiais, justificando que não revistaram ali porque “iriam conduzir o veículo a uma delegacia”. O tal comboio segue. Novamente, como na parte da tarde, um efetivo da polícia federal intercepta o tal comboio. Ao abrirem a mala, lá está o bandido Nem. O curioso é que nem mesmo diante da oferta de suborno, segundo a versão de quem fazia parte do comboio, os policiais que estavam antes da chegada da PF tiveram a curiosidade de abrir a mala. Claro que, diante de tal oferta de suborno, já não havia porque respeitar qualquer imunidade diplomática. Se queriam subornar, era porque algo errado existia. Mas só a PF teve a curiosidade de abrir a mala.

Algumas mal traçadas linhas

Existe uma certa regra entre profissionais e empresas de comunicação: textos para internet têm que ser curtos. Já vi até anúncios de empregos com a seguinte competência exigida: “saber escrever para internet”.

Pois é, meus amigos, não sou o outrista mas discordo. Porque texto bom é texto bom, não importa o tamanho, nem a mídia em que ele está publicado. É como uma reportagem, que é bem apurada ou não.

Então, da série Leitura obrigatória, segue abaixo um excelente texto de Augusto Nunes, que não é longo nem curto, é bom. E depois, alguns links. Afinal, final de semana tai e ler nunca é demais. Divirtam-se.

Estadistas não consultam marketeiros

A era dos marqueteiros produziu incontáveis espantos: acabou com todos os vincos e rugas, erradicou os cabelos brancos, instituiu a obrigatoriedade do uso do uniforme terno-azul-marinho-camisa-azul-celeste-gravata-vermelho-cheguei, aposentou os óculos de aros grossos, converteu arrogantes vocacionais em poços de humildade, permitiu a gargantas franzinas formularem incongruências com voz de tenor, transformou azarões em favoritos, elegeu perfeitas nulidades e promoveu bestas quadradas a gênios da raça. Mas não produziu um único estadista.

O sumiço dessa fina estirpe não pode ser debitado inteiramente na conta do profissionais do marketing político. Mas é impossível imaginar um marqueteiro soprando o que deve ser feito aos ouvidos de um estadista. Gente assim sabe que pesquisas de opinião captam um estado de ânimo condicionado por circunstâncias passageiras ─ e pelo imaginário popular. Sabe que a voz do povo não é ditada pela Divina Providência: é apenas a voz do povo, e não traduz necessariamente o que é melhor para um país.

Como os políticos comuns, profissionais do marketing político pensam na próxima eleição. Estadistas pensam na próxima geração. Em 1938, já que a maioria dos britânicos queria um tratado de paz com a Alemanha, os marqueteiros teriam sugerido a Winston Churchill que fosse mais polido com Adolf Hitler. Nos anos seguintes, sobraçando levantamentos do Instituto Gallup, teriam implorado a Franklin Roosevelt que mantivesse os Estados Unidos fora de uma guerra que, para sete entre dez americanos, era um problema europeu.

Na eleição que se seguiu ao triunfo contra a Alemanha nazista, Churchill também seria aconselhado a livrar-se do charuto, beber menos, esconder que dormia depois do almoço, emagrecer pelo menos 15 quilos, usar fotografias que amputassem a calvície e, sobretudo, parar de denunciar com tanta veemência a política expansionista da União Soviética. Cansados de guerra, os ingleses não queriam sequer ouvir falar em Guerra Fria. Churchill talvez não tivesse perdido a eleição. Mas perderia a chance de voltar nos anos 50, o lugar que lhe coube na História e o respeito que sempre merecerá  de todas as gerações.

A oposição brasileira precisa mais de líderes com visão histórica que de candidatos com chances de vitória. O país que presta está pronto para o combate frontal e sem prazo para terminar. Se o preço a pagar pela chegada ao poder for a rendição sem luta, os democratas preferem a derrota. O que está em jogo não é o Palácio do Planalto, é o futuro. Não se trata de escolher entre nomes, mas entre a liberdade e o autoritarismo. José Serra e todos os oposicionistas decentes devem mirar-se no exemplo do primeiro-ministro britânico. A farsa precisa ser desmascarada. A fraude não resiste ao confronto com a verdade. Quem se opõe tem o dever de denunciar com dureza os crimes e pecados do adversário.

Churchill perdeu as primeiras batalhas. Sabia, quando começou a guerra contra o inimigo primitivo e poderoso, que tinha o apoio declarado de menos que 5% dos ingleses. Mas também sabia que tinha razão. E a civilização sobreviveu.

Lei seca (Eduardo Lara Resende)

O bolso e a liberdade (Giorgio Seixas)

O meu Maracanã e o Maracanã dos proxenetas (Lúcio de Castro)

A curiosidade que mata (Victor Martins)

Como será o amanhã?

Durante muito tempo eu fui um dos muitos e muitos rubro-negros que conheço que diziam que o Flamengo precisava de alguém para dar um jeito no clube, mesmo que isso significasse ficar alguns anos aturando resultados chinfrins. Afinal, seria o preço a pagar pela organização que nos daria um futuro ainda mais rico de conquistas do que já foi nosso passado. Dito assim, quase um épico.

Só que o que parecia um sonho, aconteceu. Quer dizer, começou a acontecer. Zico voltou ao Flamengo como diretor e começou a organizar o clube. E se é verdade que os novos reforços não exatamente uma coca-cola, parecem suficientes para se manter na média desses campeonatos muquiranas (em termos de qualidade de futebol) que andamos disputando por aqui.

O senão dessa linda história de final feliz que esperamos ver um dia é que para colocar o Flamengo no prumo será preciso atacar alguns feudos e mesmo uma referência como o Galo enfrentará problemas. Nada demais se imaginarmos que o Flamengo é uma nação dentro de outra, mas com a mesma origem básica. E vocês sabem bem como anda o país que é dirigido de Brasília.

Lúcio de Castro faz bela análise do caso. Leiam com atenção, mesmo aqueles que não forem rubro-negros. Porque em menor escala, muitos clubes passam pelos mesmos problemas. E se você não sabe quem é o Cabo Anselmo, clique aqui ou aqui.

Zico deve tomar cuidado com o Cabo Anselmo

Valdemar Lemos não é um técnico consagrado. Como qualquer profissional, merece todo respeito, mas, convenhamos, o Flamengo talvez tenha sido um pouco demais pra ele. Tamanho e currículo à parte, Valdemar teve um grande mérito no Flamengo, que talvez tenha passado despercebido para a maioria, que, na maior parte das vezes, desconhece o submundo que é o bastidor desse negócio chamado futebol. Pois esse mesmo Valdemar, sem a estatura devida para comandar o Flamengo, teve enorme estatura, se opondo a negócios escusos que se constituíam livremente na feira em que o Flamengo havia se transformado. Não conheço Valdemar nem sei como ele é, mas sei de fontes seguras que, convocado a escalar fulano ou sicrano que beneficiavam esse ou aquele empresário, negou-se a tomar parte da pouca vergonha e disse não. Seguiu escalando o time com suas convicções. Acertando, errando, mas com suas convicções.

No meio da tormenta daqueles dias, estava eu na sala de embarque do Galeão. Avistei um conhecido torcedor rubro-negro, daqueles que vivem profissionalmente do clube. Carregando uma faixa numa bolsa, pronto para embarcar para outro destino. No caso dele, onde o Flamengo ia jogar, se a memória não me falha, Natal, contra o América local. Pergunto pra ele sobre a faixa. Sem pudor nenhum, me conta que um cartola do Flamengo pagara para ele a confecção da faixa e a passagem de avião para estender no estádio um vistoso “Fora Valdemar”. Um cartola prejudicado pelo pé firme do treinador em não ser cúmplice da negociata. Assim funcionam as coisas nos bastidores do futebol, e o torcedor comum, esse ingênuo na maior parte das vezes, desconhece que muitas coisas são encomendas, “matérias pagas” se fizermos uma analogia com o linguajar do jornalismo. Protestos muitas vezes não são espontâneos e atendem a interesses prejudicados, e por aí vamos no mundinho do futebol. E eu me pergunto várias vezes como, mesmo sabendo de coisas assim, gosto cada vez mais do tal do futebol…

A lembrança do episódio, nem tão velho assim, não é gratuita. O amigo logo verá, e possivelmente irá ficar estarrecido. Não devia. Os bastidores são isso aí mesmo. E muitas vezes quando apontamos, o camarada vê perseguição, clubismo, ser do contra, etc. Bobagem. Por dentro, as coisas são muito piores.

Pois não é que alguns desses torcedores profissionais já se articulam pra começar a jogar fervura contra Zico no Flamengo? Quem conhece os bastidores da Gávea anda impressionado com o jogo que começa a se desenhar, os mesmos torcedores profissionais de sempre já sendo articulados pelos mesmos cartolas de sempre também, jogando veneno aqui e ali, vazando negociações para que Zico não tenha tanto sucesso assim, etc…Como Zico é marca acima de qualquer suspeita e de muita força, o jogo é mais sujo ainda, feito nas alcovas e em tom de conspiraçãozinha barata. Mas já acontece.

Vale lembrar que é semana de Flamengo x Vasco, propícia a esse tipo de coisa. E vale lembrar muito mais: em seu pouco tempo de Flamengo, Zico já questionou a ordem anterior, o modo de fazer anterior, e, talvez tenha passado despercebido para alguns, questionou a predominância e força de alguns empresários na Gávea, com o fatiamento de jogadores inclusive na base. As discussões disciplinares, mais rasas, talvez tenham feito muitos perderem a essência de algumas linhas de ação de Zico, já contrariando alguns interesses. È muito impossível imaginar, por exemplo, que um empresário como Eduardo Uram siga, com Zico presente, a conquistar sempre generosas fatias de jogadores rubro-negros. Vale lembrar ainda que Zico herdou um departamento das mãos de Marcos Brás. É, de Marcos Brás. É esse o Flamengo que recebeu.

Muita gente será contrariada nesses novos tempos. Muitos interesses, muitas relações entranhadas já há anos na Gávea. Hélio Ferraz, vice de futebol, o homem que recebeu o empresário Pina Zahavi de braços abertos e tapete vermelho na Gávea, e depois ficou com a conta do helicóptero pra pagar, não apareceu na posse de Zico nem para apertar sua mão.

Falta dinheiro. Vai faltar mais. Assim que o goleiro Bruno foi preso, Hélio Ferraz já pulou para lembrar que existe ainda uma dívida do Flamengo com Pina Zahavi pelo goleiro. Faltam atacantes. Ainda assim, Zico resiste a prática usual do Flamengo dos últimos anos: ser barriga de aluguel para os produtos dos mesmos empresários de sempre.

A memória me leva até outro bastião rubro-negro e seus dias de Gávea, com um monte de interesses sendo contrariados e jogando contra. Leovegildo Júnior, o Maestro Júnior, assumira o futebol. Para limpar. Faltava atacante. Qualquer semelhança…Um cartola se mexe por conta dele e apresenta Dimba (!), ganhando muito acima do que Dimba merecia, e dinheiro na mão, enquanto os salários do time estavam atrasados. Rachou o time, claro. Mas para os interesses contrariados deve ter sido bom. Júnior não resistiu e o Flamengo se atrasou mais ainda no tempo. Puxando pela memória, alguns irão lembrar dos profissionais nas arquibancadas, os coros contra um mito da história rubra-negra, todo esse filme.

Contei aqui recentemente e num programa na ESPN sobre minha experiência sobre a ação de empresários em categorias de base. Em 2003, em parceria com o grande repórter e amigo Fellipe Awi, fizemos uma série para o jornal O Globo chamada “Nos Porões do Futebol”. Entre outros assuntos, mostramos com provas, contratos, depoimentos, que vários jogadores das divisões de base do Flamengo eram obrigados a assinar com alguns empresários. Alguns jogadores que não aceitaram ficaram no caminho. Pois bem: a geração que está aí subindo, é essa, de 2003, 2002, quando estavam no mirim ou infantil. O preço está aí. E Zico tem tocado no assunto do descalabro que encontrou para reposição de peças.

O vespeiro é grande. No meu entender, como sempre disse, só lamento que Zico tenha assumido o Flamengo sem ser a última palavra. Ainda assim, por sua inquestionável morar e ética, pode fazer a única coisa que o Flamengo precisa agora: uma desratização, uma faxina geral. Que já parece ensaiar. Mas o vespeiro é grande, e já começa a se articular, asseguro. Veremos muita gente boa nas arquibancadas da vida e botequins sendo usada como massa de manobra, manipulada e incendiada por torcedores profissionais da vida. Os Cabos Anselmo da vida. Ateiam fogo e saem de cena. E quando a casa é destruída, voltam para seus lugares e seguem rindo de tudo, e gozando dos privilégios de sempre. Com suas quatro décadas de janela, Zico saberá e precisa utilizar seu único instrumento quando os Cabos Anselmo soarem as trombetas do apocalipse e começarem a minar seu trabalho, como já fazem: sua enorme credibilidade para gritar e avisar que tem traíra na área.

Lúcio de Castro

57 dZ

Como vocês vão ler aí embaixo, pra muita gente hoje é Natal. Pra muita gente, hoje começa o ano 57 dZ. Hoje é aniversário de Zico. Andei quebrando a cabeça sobre o que escrever sobre o cara que me fez apaixonar por futebol e, de quebra, despertou em mim o amor por uma certa camisa vermelha e preta.

Andei meio perdido, sem saber o que escrever porque, mal ou bem, já tinha usado o jogo de final do ano promovido pelo Galinho para lembrar da minha infância e homenagear meu pai.

Daí que recebi a entrevista abaixo por e-mail. Obrigado Marcelo, pela dica; parabéns ao Lúcio pela entrevista; parabéns ao Zico, por tudo. Inclusive seu aniversário.

Zico, 57 anos

     por Lúcio de Castro*

Estar próximo e conviver com seus ídolos. Para muitos que estão de fora do jornalismo e para muitos jornalistas, é um dos grandes atrativos da profissão. Penso exatamente o contrário, e aprendi isso ainda foca. De maneira geral, quase em 100% dos casos, conviver com o ídolo, conhecer, é se decepcionar, perder aquela magia. É o ser humano em carne e osso, com todas as suas fraquezas, vaidades, todas as nossas imperfeições.

Acrescidas geralmente da vaidade absurda das estrelas, de uma vida dupla, uma coisa publicamente e outra privada. Aprendi logo outra lição: com a câmera ligada, todo mundo é legal. Assim que desliga… Quando admiro muito alguém, rezo para não conhecer muito ou conviver para manter isso intacto. Sobraram uns três ou quatro com quem, além de manter intacta a admiração, vi ela ela crescer. Falarei deles com o tempo.

Romário (tão diferentes, mas os dois sangue-bons!), Guga e…Já começo a fazer força…Ainda saem mais uns poucos…Mas Zico é muito diferente. Zico é impressionante. Que se danem os manuais chatinhos, vou fazer uma reverência aqui com imenso prazer.

Imaginem que já fiquei de longe olhando Zico sem que ele soubesse que eu estava ali para ver ele lidando com as pessoas. Aquele cara não podia ser tão legal, tão simples. Quebrei a cara. Sem câmera, sem ninguém ver, Zico é como eu, como você. Sem ser politicamente correto, chato. Para você que tem alguma dúvida se ele é isso mesmo que parece ser, te digo: esse cara é do cacete!

Para muitos que conheço, hoje, dia do aniversário dele, é dia de Natal. Zico também não gosta muito desse papo de Deus. Então, aproveitei para bater um papo sem muitas questões elaboradas, quase um varandão da saudade. O papo que teríamos num botequim. Falando “pra” em vez de “para”, “tá” em vez de “está”, resenhando. Ainda assim, ou por isso mesmo, saiu notícia.

Veja se o seu sentimento é o mesmo que tive: acho que Zico tá pronto pra ser o próximo presidente do Flamengo, e começa a considerar isso. Bastante. Nesse meio do futebol, de nossa cartolagem, vai ser um oásis, alguém duvida?

Lúcio de Castro – Quase sessentão, já dá pra fazer um balanço de tudo até aqui?
Zico – Não, me tira dessa de sessentão! Agora ainda não dá pra sentar nessa de sessentão porque três anos são importante pra caramba! Vai demorar ainda! Tem três anos ainda pra isso, muita coisa pra fazer até lá!!! Tou aqui pra fazer 57 e você vem com esse papo de sessentão!!! Mas dá pra olhar pra trás, agradecer a Deus por tudo, ter feito uma coisa que gosto, que sempre tive vontade, ter construído uma família, ter tido uma família que me ensinou uma série de valores. Dá pra olhar pra trás e me orgulhar.

Lúcio – Em tempos de balanço, já dá pra dimensionar o que é ser avô?
Zico – Um momento maravilhoso. O Parreira me falava nisso, e é realmente maravilhoso. E podendo retomar algumas coisas, alguns momentos da minha vida em que não pude estar tão presente com a Sandra pelos compromissos. Nossa vida é muito corrida, você acaba perdendo muita coisa do crescimento dos filhos, viagem, concentração… Agora tenho tempo, tou vivendo uma uma experiência única vendo uma nova geração da família!

Lúcio – Viver tudo isso que viveu, o Maracanã das tardes de domingo em reverência e idolatria durante anos, Copas do Mundo, Tóquio, Libertadores, a massa gritando que você é o Rei, muda um pouco a condição em relação aos pobres mortais, quer você queira ou não. São experiências únicas, não parecem humanas para nós, os mortais. Talvez por isso quando a carreira acaba a distância de tudo isso seja tão forte e em alguns casos, insuportáveis quando viram apenas lembranças. Como vive isso tudo, essa saudade? Daria muita coisa pra ter um pouco mais dessas emoções?
Zico – Sinto falta, claro mas tem que ter compensação por tudo isso que vivi. Vou num jogo como fui no último jogo do Flamengo, e a torcida tem um enorme carinho. Isso mostra o que realizamos, mas não olho pra trás no sentido de ver o que faz falta e sim das coisas boas que vivi. Falta aquela adrenalina sim, da competição, do clima, o estádio lotado, a maioria sente falta é disso e isso não tem volta. Mas tive a oportunidade como técnico de viver uma adrenalina que não esperava mais. Viver uma Champions League é uma adrenalina muito parecida com a de uma Copa do Mundo, uma coisa muito forte.

Lúcio – Já tivemos a oportunidade de conversar isso antes, pessoalmente, mas não dá pra passar…Na minha opinião, o Flamengo só terá jeito efetivamente quando se livrar das diversas correntes que ali habitam, em sua maioria como parasitas. E para se livrar delas todas, só alguém que tenha com muita força ali dentro, alguém que possa limpar tudo. Ou seja, só você. Tá chegando a sua hora de ser presidente do Flamengo?
Zico – Acho que por tudo o que construí no Flamengo tenho alguma vantagem sobre outros. Acho que tem pessoas capacitadas pra isso, com projetos e programas. Vejo a própria Patrícia Amorim como uma pessoa que viveu dentro do clube, pode fazer transformações. Agora, o que não posso aceitar é que um clube como o Flamengo tenha um colégio eleitoral de dois mil eleitores, e que um presidente seja eleito com 700 votos. Isso que tem que ser revisto. Do jeito que é hoje, o sujeito para ser eleito tem que fazer um monte de acordos, coalizões, e isso pega lá na frente. É isso que gera todas essas correntes vivendo ali dentro.

Lúcio- Mas hoje você avalia mais concretamente essa hipótese de ser presidente do Flamengo?
Zico – Hoje já chego a avaliar isso sim.

Lúcio – O que ficou de mais forte pra você daquele time mágico do Flamengo que você fez parte?
Zico – A amizade, o respeito. Hoje mesmo, antes de falar contigo, estávamos juntos em uma gravação, e o clima ainda é espetacular. Ganhamos muito porque a gente se gostava, se respeitava. Eu sabia do meu papel, minha importância, mas o fundamental era transformar isso em benefício do coletivo. Agora, quer saber mesmo: o mais importante de tudo é que todo mundo jogava muita bola! Todos jogavam muita bola!

Lúcio – Com tanta estrada, tendo visto de tudo no futebol, como ninguém você pode tentar explicar: de onde vem essa magia do futebol brasileiro, que resiste intacta através dos tempos aos piores cartolas, aos piores homens, a um monte de lama…
Zico – Resiste pela qualidade do jogador brasileiro, pela necessidade de sobrevivência, de correr atrás do pão de cada dia. A maior parte vem de baixo mesmo. Isso faz com que se passe por cima de tudo. O jogador sabe que tão acima dele sugando, se beneficiando das coisas, que tem tudo isso. O jogador sabe, mas ele precisa vencer e faz tudo por isso.

Lúcio – Hoje já consegue definir o que é ser Flamengo?
Zico – Não, não… Não dá pra definir. É uma série de coisas mágicas. Amor, paixão, isso tudo que faz o Flamengo ser essa religião que é.

Lúcio – Olhando para trás, pensando em quem ficou na caminhada, quem faz muita falta?
Zico – Meus pais fazem muita falta. E meu irmão Antunes. Na verdade, meus pais viveram a vida deles, fazem uma falta imensa, mas pela lei natural da vida chegaria esse momento. Mas meu irmão Antunes, que foi o cara que me criou, já que meu pai já me teve mais velho, estaria com 65 anos hoje, era para estar aí…Ele tomou conta de mim, aprendi muito com ele, faz muita falta. Mas vivi numa família maravilhosa, muito humilde mas que me passou os valores morais, educacionais, de luta, de trabalho. Meu pai pegava o trem às 7 da manhã pra trabalhar, ia pro centro e voltava só de noite para oferecer o melhor que podia aos filhos. Não deixava faltar nada, mesmo sendo humilde. E no fim de tudo, o que ele teve mais orgulho não foi de ser o pai do Zico, mas de deixar uma família formada com os seus valores.
Me faz muita falta até hoje o Geraldo. Ele foi meu irmão preto, minha mãe tinha ele como filho e chamava ele de “meu filho marrom”. Geraldo foi um talento fantástico, não tenho dúvida de que teria sido um dos grandes da história do futebol brasileiro de todos os tempos. Perdemos ele muito cedo. Geraldo foi um dos poucos jogadores que vi jogar sem olhar para a bola. Quem joga e quem conhece futebol sabe o que estou dizendo. São poucos que fazem isso. Tenho uma lembrança permanente do Geraldo, é muito presente em minha vida.

Lúcio – Pra fechar, quem te agrada e faz parar pra ver um jogo de futebol, quem é diferente no futebol de hoje?
Zico – O Messi é diferenciado, dá gosto de ver. Mas tou adorando ver esse Neymar jogar! Esse garoto é diferente…Rapaz…

(nota do blog: Geraldo Cleofas jogou nas categorias de base do Flamengo com Zico. Se firmou em 1974 nos profissionais, e em 1975 foi convocado para a seleção brasileira pela primeira vez. Em 1976, com 22 anos, morreu de choque anafilático ao realizar uma simples operação de amígdalas.)

*Lúcio de Castro é carioca, formado em História e em Jornalismo, que exerce há 10 anos. Conquistou alguns dos principais prêmios de jornalismo como o Embratel (2003 e 2006), Anamatra de Direitos Humanos 2009, Prêmio Direitos Humanos MJDH 2008, Ibero-Americano (UNICEF-EFE) e Fundación Nuevo Periodismo (dirigida por Gabriel Garcia Márquez).

Fonte: ESPN Brasil