Tem limite

Tags

, , , , ,

Vocês, provavelmente, já viram o comercial abaixo na TV.

“E daí, o que é que tem limite?”, devem estar se perguntando a meia dúzia de três ou quatro leitores que visitam o cafofo. Viadagem tem limite. Burrice tem limite. Ou pelo menos deveriam ter, né não?

Depois de ver o filme, resta alguma dúvida sobre a intenção do roteiro, de fazer uma piada com o Neymar fugindo de um homem depois de se exibir para as moças? Resta alguma dúvida de que é apenas uma brincadeira, sem qualquer conotação mais profunda? Resta alguma dúvida de que os Trapalhões faziam um humor muito mais pesado?

Pois está o maior bafafá nas redes sociais e no site da Lupo, com acusações de preconceito, de homofobia.

Será que não fica claro que o Neymar (heterossexual) foge de um homem (heterossexual)? Pois, afinal de contas, ele não quer se exibir, aparecer quase nu para outro homem.

Tem muita gente por aí sem nada pra fazer e com tempo demais pra pensar e falar merda, né não? E o pior é que, com o barulho que fazem por nada, estamos muito próximos de sermos todos proibidos de nunca mais falar nada sobre nada, nunca mais podermos sorrir ou rir de qualquer coisa.

Essas ‘minorias organizadas’ e suas pseudoditaduras do bem estão passando dos limites. Há muito tempo.

P.S.: será que eu preciso explicar que o termo ‘viadagem’ não tem nada a ver com ser ou não ser gay?

Bolsa Família e a conspiração

Tags

, , , , , , , , , , ,

Confusão do Bolsa Família em Juazeiro (BA) / Foto: Futura Press

Sabem essa confusão que aconteceu com Bolsa Família no último final de semana? Pois é, ando encafifado com algumas coisas, algumas perguntas que não vi ninguém fazer por aí. A primeira é sobre o modo como o tal boato se espalhou, atingindo apenas alguns estados. Desafio a turma que está acostumada com a internet, em como as coisas se movimentam e multiplicam na rede, a me explicar como é que só metade dos estados do país foi atingida.

Mais uma dúvida: a bagunça começou na sexta à noite. Por que o governo demorou tanto para dar uma resposta e tranqüilizar a população, permitindo tantos incidentes?

A outra pergunta que não vi ninguém fazer por aí é a mais básica, principalmente quando há acusações de crimes e investigação da polícia federal: quem leva ou levou vantagem com a confusão?

A ministra Maria do Rosário, do alto de sua çabedoria, correu ao twitter para jogar a culpa na oposição. Algo brilhante para uma estadista. E depois tentou consertar, dizendo algo como “foi a pessoa e não a ministra”. Quer dizer, quase um combate entre Pelé e Edson Arantes do Nascimento.

Mas e a pergunta? Ou melhor, e a resposta? Quem é que – depois de antecipar a campanha eleitoral em um ano – anda com um monte de pepinos na mão para resolver? Coisas simples como inflação disparando, desaceleração da indústria, gastos bilionários e não justificados com a Copa, uma relação surreal com o Congresso etc etc etc?

Independente de se concordar com sua existência ou não, é fato que as bolsas do governo funcionam bem, são pagas regiamente, o dinheiro está garantido e mais um monte de etcs. Então, a quem interessa um confusão danada e que desvia a atenção de todos os outros problemas do país para poder vir a público e fazer um barulho imenso, explicando que tudo está bem, que o programa é ótimo, que nada vai mudar e ainda vai ampliar? Que tudo será investigado, que foi um crime, que é desumano (e isso é verdade) o que aconteceu?

Essa resposta, na verdade, responde às outras duas perguntas que fiz. E a quase todas que vocês fizerem.

É, eu sei, há mesmo um tantinho de teoria da conspiração aí, mas você duvida? Eu não. Afinal, como estamos cansados de saber, não faltam aloprados por aí.

Da Paraíba para o soul

Tags

, , , , , ,

O fato de nascer na terra do maior São João do mundo e ser um dos pais do soul-funk brasileiro é apenas uma curiosidade. Mas que não diz nada sobre sua formação musical. Genival Cassiano dos Santos nasceu em Campina Grande em 1943 e, ainda antes de completar 10 anos, se mudou para o Rio com a família. E foi aqui, já sob as bênçãos de São Sebastião, que – enquanto trabalhava como ajudante de pedreiro – aprendia os primeiros acordes de bandolim e violão com seu pai.

Os Diagonais: Hyldon, Cassiano, Camarão e Amaro

A carreira Cassiano começou no início da década de 60, quando formou – ao lado do irmão Camarão e Hyldon – o Bossa Trio. O grupo foi o embrião dos Diagonais que, já com a presença de Amaro, gravou o primeiro LP em 1969. O lançamento coincidiu com a volta de Tim Maia ao Brasil. O síndico ouviu, gostou e convidou o quarteto para gravar os vocais e ser a banda de apoio de seu primeiro disco. Cassiano, guitarrista, ainda emplacou duas canções no repertório: Eu amo você e Primavera.

Cassiano, Imagem e SomCom o LP de Maia explodido nas paradas e suas duas canções imediatamente transformadas em clássicos, o caminho natural foi a gravação de seu primeiro disco em 1971. Imagem e Som ainda contou com os Diagonais no seu elenco e é um disco clássico do soul-funk brasileiro. Além de reapresentar Primavera, ainda tem destaques como duas parcerias com Tim Maia (Ela mandou esperar e Tenho dito, que tem uma linha de baixo fabulosa de Camarão), Eu, meu filho e você e Uma lágrima.

O segundo LP dos Diagonais já previa o rumo do grupo. Logo depois do lançamento de Cada um na sua, o grupo rompeu com Tim Maia, se desfez e – naturalmente – Hyldon e Cassiano seguiram suas carreiras solo.

O paraibano gravou e fez sucesso com mais dois discos: Apresentamos nosso Cassiano (1973) e Cuban soul (1976). Nesse período, teve duas canções nas trilhas de novelas da Globo. A lua e eu, em O Grito (1976) e Coleção, em Locomotivas (1977). Não por acaso, mais dois clássicos de sua lavra.

A carreira de intérprete foi interrompida em 1978, quando precisou retirar um dos pulmões. Mesmo assim, ainda trabalhou como compositor nos anos seguintes, com canções gravadas por Alcione, Gilberto Gil e Cláudio Zoli, por exemplo.

Cassiano, Cedo ou TardeEm 1991, voltou ao estúdio e gravou Cedo ou tarde, disco de duetos com uma pequena coletânea de seus sucessos e a inédita Know how – com participações de Ed Motta, Marisa Monte, Sandra de Sá e Luis Melodia, entre outros.

Cassiano continua trabalhando como compositor, apesar de um tanto esquecido, e com participações bissextas como guitarrista em projetos especiais. Infelizmente, pra quem gosta de música.

Enfim, mais uma personagem da séria série “isso é que é funk, porra!”

O náufrago

Tags

, , , , , ,

Chegou o fim de semana. E rir um tantinho é um jeito bom de começar. Então, vale ver o filme de Donia Liechti e Vicky Penzes sobre um sujeito que, aparentemente, naufragou e foi parar numa ilha deserta, tendo de arrumar comida e abrigo. O problema é que apareceu uma gaivota um tantinho boba.

Bobinho…

Tags

, , , , , , , , , , , ,

Oswaldo de Oliveira

Uma das coisas mais legais do campeonato carioca que foi muito ruim e terminou no último domingo foi a entrevista do Oswaldo de Oliveira ainda no campo, logo depois da partida. Algo como “já ganhei títulos mais relevantes, não seria um profissional realizado sem ganhar um carioca. Porque esse é o campeonato da minha infância, em que eu aprendi a amar o futebol”. Memória afetiva é isso aí.

Também sou apaixonado pelo carioquinha. Além de freqüentar o maior e mais belo do mundo, andei atrás do Flamengo pela Rua Bariri, Moça Bonita, Ítalo de Cima, Caio Martins, Ilha e Conselheiro Galvão. Também vi jogo do América no Andaraí. E sinto saudade, claro. De tudo. Especialmente de um Carioca bom de verdade.

Mas no modo como o calendário do futebol brasileiro está já há algum tempo, os estaduais, de forma geral, se transformaram em estorvo para os clubes. Começam muito cedo, sem permitir que haja uma pré-temporada decente, e ainda dá prejuízo.

Assim, num momento de ócio, decidi resolver os problemas do mundo. Ok, dá um desconto. Resolvi fazer uma sugestão para enxugar e tentar melhorar o nosso querido campeonato.

Nas três divisões do estado há 56 clubes inscritos, 20 da capital e 36 do interior (Niterói e Baixada incluídos). Além disso, o campeonato da série A ocupa (ao todo, com semifinais e finais de turno e final) 21 datas. Para fazê-lo em apenas 11 datas, cerca de um mês e meio a menos, bastaria dividir os clubes entre capital e interior e realizar as taças Guanabara e Rio simultaneamente. Na prática, quase uma volta à situação antes da fusão.

Fórmula 1ª divisão

Nas duas taças, oito clubes (bastaria fazer uma combinação entre os melhores colocados das duas divisões atuais para montar a tabela) divididos em dois grupos de quatro.

Na capital, sorteio dirigido com dois grandes em cada grupo. Jogos de ida e volta dentro do grupo (6 rodadas); os dois primeiros de cada nas semifinais em jogo único e cruzamento olímpico com vantagem do empate para os primeiros colocados; final da Taça Guanabara em dois jogos.

No interior, sorteio simples para a formação dos grupos ou uso da classificação deste ano para a divisão dirigida (1-4-5-8; 2-3-6-7). E aplica-se basicamente a mesma fórmula de disputa. Nas semifinais, ao invés do empate a vantagem seria o mando de campo. Na final da Taça Rio, o mandante da segunda partida seria aquele com a melhor campanha.

A final do campeonato seria em dois jogos entre os dois campeões, com mando de campo no último jogo para o clube de melhor campanha considerando todos os jogos anteriores.

Seriam rebaixados os últimos colocados de cada grupo das taças Rio e Guanabara.

Fórmula 2ª divisão

A estrutura seria a mesma da primeira divisão. A diferença seria o número de clubes, 12 ao invés de 8. O finalistas das taças Rio e Guanabara subiriam para a primeira divisão. O campeonato teria duas datas a mais e seriam rebaixados apenas os dois últimos da taça Rio.

Fórmula 3ª divisão

Devido ao número de clubes, apenas a Taça Rio teria a terceirona. Seriam 16 clubes divididos em quatro grupos de quatro. Com jogos ida e volta, classificam-se os dois primeiros da cada um. O cruzamento para as quartas de final seria igual ao da Libertadores: o melhor primeiro enfrentando o pior segundo, em jogo único, e assim sucessivamente, com mando de campo para os de melhor campanha. Com a final em dois jogos, também seriam necessárias 13 datas, como na segundona. Os dois finalistas sobem.

Valor

Ao contrário do que pode parecer numa primeira olhada, ao contrário de segregacionista como alguém pode pensar, esse formato faria bem a todos os clubes. Na capital, clubes tradicionais que se apequenaram seriam fortalecidos, pois poderiam captar mais e melhores patrocínios pela exposição de mais qualidade e também entrariam no bolo dos direitos de transmissão.

O mesmo vale para os clubes do interior. A certeza de disputar dois títulos (Taça Rio e Estadual), o que hoje não ocorre (ou acontece muito raramente), aumentaria o poder de barganha. Além disso, poderiam negociar de forma independente os direitos de transmissão com as várias emissoras (afiliadas das grandes ou não) que há no interior.

De quebra, seria bom para as comunidades, bairros de subúrbio de cidades pequenas. Haveria, sem dúvida, ganhos de auto-estima do morador/torcedor local. E tanto clubes como patrocinadores poderiam desenvolver ações específicas. A roda gira.

Mas

Alguém lembrará, claro, que são muito poucos jogos para os clubes médios e pequenos, especialmente para aqueles que não participam da Copa do Brasil ou de qualquer série do Brasileirão. Afinal, para que existam, é preciso mantê-los em atividade, gerando receita.

Acreditem, há muitas possibilidades para resolver o problema. Mas há que se pensar um pouco mais e, assim de sopetão, eu já resolvi o problemaço que é o estadual. Então é bom que mais alguém tenha idéias

Pensando bem…

…é melhor deixar pra lá. Afinal de contas, o jogo político e de poder dos nossos cartolas, principalmente da federação, é muito mais importante do que racionalizar o campeonato e potencializar seus ganhos. De mais a mais, não dá nem pra imaginar que os quatro grandes se uniriam, apesar das divergências, para propor e bancar algo assim. Além disso, sou só um profissional de comunicação que não entende nada. Bobinho…

Foto do dia: Steven Dempsey

Tags

, , , , , , , , , , , , , ,

Nada demais, na verdade. Mas quando vi a foto, lembrei desses menores que se apresentam no lugar dos outros ou fazem suas próprias cagadas, lembrei dos atropelamentos por ônibus, lembrei dos criminosos confessos que por artimanhas de advogados não vão presos.

Ah, e lembrei também do José Dirceu e sua turma.

Breaking Out / Foto: Steven Dempsey

Será que a foto de uma pizza ou algo do gênero cairia melhor?

O Maraca (2)

Tags

, , , , , , , , , , , , , ,

maracanazolotado cópiaAo contrário da maioria dos rubro-negros, me acostumei a entrar no Maracanã pela rampa da UERJ. Muito mais perto e prático para quem vinha andando de Vila Isabel ou da praça Niterói. Resquícios de um tempo em que andar entre adversários não era risco de morte. Pelo contrário, risco de piadas e boas risadas de parte a parte.

Assim, já entrava na arquibancada no meio da Raça, aquela multidão e seus urros mesmo em jogos de pouca gente. Também não foram poucas as vezes em que cheguei cedo o suficiente para assistir ao desfile das bandeiras. No tempo em que não havia divisórias e setores no anel superior, as organizadas dos dois clubes que estariam em campo entravam com seus panos desfraldados pelo meio do campo e corriam até chegarem aos seus lugares. Espetáculo sem igual.

Como sem igual era chegar em cima da hora, tudo cheio, e levar aquela pancada de gritos e multidão, tudo já quente em volta. É sobre isso muitas outras coisas que fala Lúcio de Castro.

Mataram meu Maracanã. Podem chamar de Estádio Justo Veríssimo

Tem mais de um ano. Falava aqui dos vendilhões do templo. Para ser mais exato, em 2 de março de 2012. “Os vedilhões do templo – como querem acabar com o carnaval carioca” tratava também do Maracanã. Escrevi outros tantos textos sobre o fim do Maracanã. O sábado que passou foi o dia de enfim passar da teoria para a prática, confirmar tais expectativas.

Minto. Não era necessário confirmar tais expectativas. O fim do templo onde cultuávamos nossos deuses, o sagrado e o profano se misturavam na geral e arquibancada e tanto reis quanto plebeus estavam juntos já havia se confirmado. Na arquitetura do novo estádio que destruiu o antigo e muito mais do que isso: no papel, oficialmente, como no estudo de viabilidade econômica para o futuro administrador, curiosamente feito pela IMX, de Eike Batista, onde qualquer máscara vai abaixo, ao expressar “mudança do perfil do público”. Está lá no tal estudo, acima de qualquer discussão teórica. A constatação da elitização daquele que foi símbolo da mistura de classes na cidade não é passível de argumentação. Está no papel. É oficial.

Com muito penar percorri caminhos de uma vida toda no último sábado, quando o Maracanã seria reinaugurado”. Sabia que ia rever a velha namorada, ainda que ela não fosse mais a mesma. Mas amores são assim, é possível passar por cima de tudo. No fundo, ainda guardava a ilusão que aquela história de amor entre nós podia voltar. Como se o tempo voltasse…Pensava no momento em que sairia do túnel tantas vezes atravessado e daria de cara com aquele monumento. Encontrei tanta gente no caminho. Segurei o passo. Encontrar a velha namorada exige solenidade. Tinha que ser sozinho. Os versos de Vinícius não saiam da cabeça. Ia dar o último passo no túnel e o Maracanã seria como nas palavras do poetinha, a “me entreabrir a porta como uma velha amante”.

Bobagem, sabia tanto que a “velha amante”, a namorada dos melhores anos de nossas vidas não estava mais ali. Mas amantes são assim mesmo, só materializam ao constatar que acabou e se descobre a amada nos braços de outro.

Me desprovi de todos os conceitos anteriores. Se já era sabido que o sentido do velho Maracanã tinha ido abaixo com sua elitização, ao menos talvez fosse possível, com todas as ressalvas, constatar que realmente o novo estádio é bonito, moderno. Tudo o que se diz dos novos estádios por aí: ainda que matem tradições, histórias, são belos, funcionais, modernos.

Entrei com esse sentimento, tentando me desarmar de minhas ideias sobre o tema o mais possível. E aqui deixo meu relato do que vi, deixando para trás até mesmo a convicção de que nada desculparia tal mudança: o Maracanã acabou. Mataram o Maracanã. Se essa ideia de beleza do novo, moderno, apesar dos pesares, vale para outros, não vale para o Maracanã.

Pois obviamente o que fazia o belo, o impressionante do Maracanã era exatamente sua exuberância. Era ser monumental. Majestoso. Algo impressionante. Se sentir pequeno diante de tal obra. A epifania que era cruzar aquele túnel e se sentir tão pequeno. E ser abraçado pelo canto daquela gente. Epifania sim, sem medo de exagerar ou blasfemar. Algo que só se sente diante da força das águas das cataratas do iguaçu ou como chegar no último degrau de Machu Picchu. Ou do sol morrendo atrás dos Dois Irmãos. Poucas coisas podiam ser iguais aquele momento. Exagero? Quantos e quantos vindos de fora se exatasiaram com tal visão? Quantos craques tremeram ao deixar o túnel e cegar-se com a majestade do Maracanã? Quantos deram tanto de sua vida para um dia viver aquilo, seja no gramado ou na arquibancada…

Acabou. Quem viveu isso vai constatar e ver o mesmo. Acabou. Quando se chega ao fim do túnel, o Maracanã não está mais ali. Um estádio acanhado, bonitinho como outro qualquer. Bonitinho mas ordinário. Como será que deixou-se fazer isso? Quem cometeu essa boçalidade? “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”. O Maracanã não era um estádio qualquer. Transformar o Maracanã numa “arena” (eles merecem mesmo esse nome ridículo) e achar que ficou mais bonito do que era, é destruir Machu Picchu, é achar que se pode deixar o pôr do sol mais bonito.

Talvez o argumento valesse para qualquer outro estádio. “Mudou tudo, elitizou-se, mas é preciso reconhecer que está mais bonito”. Não, no Maracanã não vale. Ora, será que não é tão óbvio saber que a beleza do Maracanã era aquilo tudo. Era seu aspecto monumental. Vejam que não estou falando de coisas imateriais, ainda que não se possa separar a beleza do Maracanã do grito da geral, da gente misturada. Estou falando sobre a boçalidade de destruir algo monumental, diferente de tudo para deixá-lo igual a outros tantos.

Pois eles conseguiram. O Maracanã agora é igual a outros tantos. Não chamem aquilo lá de Maracanã, por favor. Chamarei de Estádio Justo Veríssimo, aquele personagem do Chico Anísio que defendia a morte dos pobres, “quero que pobre se exploda”, dizia ele. È esse o novo espírito do monstrengo moderno que conceberam. Inócuo, um dragão que não cospe mais. Mataram o meu Maracanã, amor de toda uma vida.

Nesse momento, só me ocorre a frase do Dr Ulisses ao promulgar a constituição de 1988. “Tenho ódio e nojo à ditadura”. Pois como cidadão, carioca, brasileiro, traços indissolúveis de minha identidade, tenho ódio e nojo de quem fez isso com o Maracanã. Como jornalista, ainda que não acredite que uma profissão possa estar separada da cidadania, tenho apenas que contar essa história. Como fizeram isso? Quem fez isso?

Como fizeram isso com o Maracanã? Ele agora é mais um. Uma arena. Igualzinha a todas as outras. Não era. Era diferente de tudo. Mataram o amor de toda uma vida dos cariocas e dos brasileiros. Presidenta, você estava lá aplaudindo isso. Governador, você assina isso e responderá por todas as suas gerações. Todas as noites, até seu último dia, você vai ouvir o Gerdau, geraldino histórico do Maracanã gritando no seu ouvido, como fazia na geral: “Pra frente, chuta….!!!”. Todos os seus ouvirão. Não adianta botar o guardanapo na cabeça. O Gerdau estará lá. “Pra frente, chuta”…

Trataremos desse funeral com os rituais com que os povos conseguem superar seus dramas. Nenhum lugar, nenhuma cidade do mundo amou tanto um estádio como o Rio amou o Maracanã. Vivia no seu imaginário. Nenhuma cidade tinha em seus cantos um estádio. Como fizeram isso? É essa a modernidade? Lamento por alguns do bem que vejo ouvir o canto da sereia.

Trataremos desse funeral. Não sei como ainda. Mas esse povo sempre soube se reinventar. Sempre que a vida foi negada por aqui, em São Sebastião do Rio de Janeiro. Metáfora de um Brasil. E o Maracanã era a metáfora maior disso tudo. Acabou. Não sei como terá de ressurgir. Assim sempre foi a gente daqui. Lembrei-me de “Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi”, trabalho maior de José Murilo de Carvalho. Que nos dá conta de nossa história. De como fizemos e nos reinventamos em ginga, samba, futebol, capoeira e vida quando tudo era negado. Mais uma vez estamos diante disso, como lá atrás. De alguma forma nos reinventaremos. Ainda que agora seja tão difícil aceitar uma das maiores violências já cometidas contra a população do Rio, do Brasil. E contra a história. Mataram o Maracanã.

O Maraca

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

MaracanãJá não lembro mais quantos anos eu tinha, se 8 ou 9, quando fui ao Maracanã pela primeira vez. Meu primeiro jogo foi América e Internacional. Fazendo uma conta simples, comecei minha aventura no maior e mais belo estádio do mundo há mais ou menos 30 anos.

Nele eu vi bola, música e até papai Noel. Vi grandes jogos e imensas peladas de muitos times e da seleção. Vi o Zico voltar, fazer lançamento para Renato de bicicleta e, depois, e se despedir de novo. Vi o Maradona acertar o travessão do meio campo e Bebeto e Romário ensaiarem o que fariam em 94. Estava lá quando a arquibancada caiu.

Nele, pisei do gramado à tribuna de honra, passando pela querida geral. Só não fiz o que esses caras aí da foto fizeram. O vivi com mil e com 120 mil pessoas. Tomei banho de pó de arroz ao lado do meu pai, torci pelo Botafogo com amigos. E com o Flamengo… Quantos sorrisos, quantas comemorações, quantos dramas e lágrimas pelo quase conquistado. E na minha memória, aquele urro que começava baixinho e crescia apoiado no eco do concreto até tomar conta de todo o anel: Meeeennnnngooooo, Meeeennnnngooooo…

No complexo, fiz aula de natação e vôlei, treinei e experimentei a pista de atletismo. Joguei bola no portão 18 quando estudava ali em frente, joguei bola na quadra da escola Arthur Friedenreich.

Amanhã ele será reaberto. E tenho a impressão que muita gente, como eu, terá dificuldade de chamá-lo de Maracanã de coração aberto, de chamá-lo de Maraca com a intimidade típica de quem era da casa. E ontem dei de cara com o texto abaixo, no blog do Arthur Muhlemberg.

Ai de ti, Maracanã

1. Ai de ti, Maracanã, que deste tuas costas ao clamor de tuas arquibancadas e soterraste tua geral humilde em busca das glórias vãs; céus e terra te negarão o sono, e 200 mil vozes hão de assombrar-te pelas noites.

2. Ai de tuas poltronas acolchoadas, ai de teus camarotes de luxúria, ai de tua soberba para poucos, porque para muitos te quis e para muitos foste erguido. Porque nem tua cobertura há de te esconder os teus inúmeros pecados quando minha ira se lançar contra ti.

3. Acaso não te lembraste do silêncio que te dei quando nasceste? Que te fiz carioca, mas te inaugurei paulista, para que soubessem que não és lar de ninguém? Acaso não te conduzi até a final do Mundial, para que fosses profanado pela Celeste estrangeira e calasses tua ambição desmedida? Não te testei timaços e timinhos pela régua das vitórias?

4. Não te consignei eu aos clássicos, porque eras neutro e palco perfeito, um lugar a ser conquistado no grito e no campo pelas quatro forças que ao teu redor orbitam, e pelos ídolos que desfilaram tantas cores? Pois hoje vejo que te prostituis a consórcios que não te conhecem, e não mais serás informado pela Suderj em teus vindouros telões de LED.

5. Enorme era teu campo, e encolheu-se; ampla era tua capacidade, e apequenou-se; agrandaste teu estacionamento e será imensa tua final, mas não como sonhavas quando aprenderam a te amar. Ai de ti, Maracanã, pois culparás os cabrais que não te deram dimensão exata nem te fizeram olímpico e pagarás com teu orçamento estraçalhado, teu parque aquático em deserto e tua pista soterrada.

6. E aqueles que te cantaram hinos aos domingos, ao se sentarem em tuas cadeiras numeradas, não te reconhecerão; e a nova torcida que terás tampouco tu hás de reconhecer. E eu hei de emudecer teu eco catedral à sombra de tua intrepável lona cobertora, para que sejas silencioso e ordeiro como um shopping de aeroporto.

7. E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres.

8. Ai daqueles que combinarem de se encontrar no Bellini, pois se perderão, com suas camisetas piratas e seus ingressos falsos repassados por cambistas torpes a custo de quatro dígitos, indo parar na Uerj. Nem assim teu banheiro será mais limpo do que foi nos dias de tua glória.

9. Selarei teu portão 18, e não mais se concederá tua imensa cortesia aos múltiplos conchavos, quando traficavas influência em teus corredores e escadas rolantes. Perpétua será tua dor, cativa será tua vergonha.

10. Desfraldai vossas bandeiras, uniformizados, porque só assim recordareis o espetáculo que fazíeis: tuas faixas darão lugar aos camarotes da luxúria, e teus cânticos não serão ouvidos no isolamento perfeito dos proseccos, mojitos e DJs, numa publicitária orgia no templo que virou programa.

11. E tu, Maracanã, com teus ouvidos de concreto lamentarás aqueles palavrões que sentados não bradamos, mesmo com o grito molhado na cevada, e gemerás em cada viga, em cada solda, em cada rejunte, no chapisco de teus muros, nos parafusos dos mais buchas, em cada cu que assentares (78 mil lugares?), na tua escassez de gigantismo a flagelar-te com a memória de quando eras mais nosso porque cabiam mais de nós.

Márvio dos Anjos

(d’apres Rubem Braga)

100% incoerente

Tags

, , , , , , , , , , ,

Anúncio Itaipava Arena Fonte Nova / Criação: Y&RSinceramente, não acredito que a proibição de cerveja nos estádios faça diferença, mesmo, na violência que hoje permeia o futebol. As grandes brigas, inclusive com mortes, têm relação com a rivalidade entre gangues travestidas de torcida. E isso já está mais do que provado.

Mesmo assim, os çábios de Brasília, um dia, resolveram proibir o consumo de qualquer bebida alcoólica nos estádios brasileiros. Em alguns lugares, por normas locais, a proibição também vale nos entornos com variações de raio.

No entanto, descobri hoje – no blog do Juca Kfouri – que a Arena Fonte Nova será (ou já é, não sei) a Itaipava Arena Fonte Nova.

É claro que a venda do direito de nomear os estádios, ou naming rights em português moderno, é uma das formas de arrecadação e recuperação dos investimentos feitos por proprietários ou concessionários. Mas eu não entendi a lógica da Fonte Nova.

Vale lembrar que, mesmo sob concessão, o estádio é de propriedade do estado. Assim, o ente federativo deveria ter o poder (dever, na verdade) de participar dessas negociações e impor alguns limites. Pombas, se o consumo de cerveja no estádio é proibido, não posso permitir que uma bebida dê nome ao estádio e incentive o seu consumo.

Depois, comecei a pensar na cervejaria. Pagam uma pequena fortuna para dar nome ao estádio mas se não rolar uns capilés a mais, rádios e TVs não vão citar a marca ao se referir ao estádio (o que acho um absurdo, se a marca faz parte do nome; mas isso é outra discussão pra outro dia). No caso da Fonte Nova, que já tem seu nome consagrado, nem o público vai aderir à nova nomenclatura. Além disso, seu principal produto não pode ser consumido no espaço a que ela dá nome.

Outro detalhe diz respeito aos maiores eventos que o estádio receberá. Segundo a lei geral da Copa, durantes as copas das Confederações e do Mundo, haverá venda de cerveja, como já é mais que sabido e sempre foi esperado, pois um dos maiores patrocinadores da FIFA é a Budweiser. Ou seja, na hora de brilhar, a marca Itaipava não poderá ser usada pois vai contra os ‘donos’ do estádio durante as competições.

Desculpem, sei que existem inúmeros conceitos e argumentos que justificam a ação, mas sou meio burro pra algumas (muitas) coisas. Alguém pode me explicar, didaticamente, a lógica da ação e a relação custo benefício do negócio?

P.S. 1: como disse, sou contra a proibição. Mas já que é proibido, a legislação deveria ser completa, por coerência, e proibir também qualquer tipo de publicidade nos estádios, dos naming rights às placas de campo.

P.S. 2: acredito que toda e qualquer escolha é, por definição, individual. Para o bem e para o mal, independente de grupos de pressão. Então, acho ridículo a proibição de qualquer tipo de publicidade em qualquer lugar ou horário, cigarros e remédios incluídos.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 710 outros seguidores