10
Nov
09

Caras e bocas

Pai babão (nenhuma novidade, pois) é isso aí. A fotógrafa foi a dinda Poliana, praticamente uma japonesa.

Montagem

10
Nov
09

Uniban

Em tempos de fim de férias (sim, elas são curtas mas existem), aproveitei os últimos dias para me dedicar à nova moça de minha vida e acabei ficando (quase) completamente aéreo ao que está acontecendo no mundo ao meu redor.
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No primeiro dia do Circuito, o Fandango (2° na Santos-Rio) persegue o Calamar e cruza a proa do Lisboa (campeão da Santos-Rio)

E neste pouco tempo desde a minha chegada da Santos-Rio, corremos o Circuito Rio e fomos mal, terminando em oitavo. Em compensação, e apesar do resultado, foram dias de velejadas inesquecíveis, das mais divertidas desses pouco mais de três anos de velejador, três novos e grandes domingos da minha vida. Agradeço penhorado ao comandante Ricardo Timotheo, Armando, Pimenta, Morcego (vulgo Leonardo Mauro) e Oscar.

DilmaObama

Quem, com o dinheiro de quem, vai pagar (mais) essa conta?

Mas como não poderia deixar de ser, apesar de tentar ficar alheio, algumas coisas conseguem quebrar qualquer barreira. A primeira delas, descobrir que o marqueteiro do Obama foi contratado para fazer a campanha da Dilma. Sinceramente, achei que existiam limites, um mínimo de simancol, mas o PT consegue se superar a cada dia. Fico até com medo dos que acontecerá nos próximos meses. Haja máquina…

FlaOutra surpresa, essa agradável, é a campanha do Flamengo na reta final do brasileirão. Dá até pra ficar com medo, mas entramos na briga. Aliás, sobre os cariocas em geral, dá muito medo. Todos começaram a ganhar e até o Flu deixa no ar que poderá escapar do rebaixamento. Será? Como quando a esmola é muita, o santo desconfia, tenho certeza que se Flu e Fogo escaparem da segundona, o Fla não será campeão. Então peço desculpas à quase toda minha família tricolor e aos amigos alvinegros MP, Mark e Barreto, mas as velas aqui de casa já estão acesas.
A outra grande novidade das últimas semanas foi a confusão da saia curta na Uniban. Minha primeira reação foi a óbvia: “estudante paulista não gosta de mulher?”. Depois foi a hora de tecer comentários sobre a moça, suas ‘qualidades’, bom gosto etc. Mas toda a situação, além de absurda, é muito mais séria do que pode parecer à primeira vista. E enquanto quebrava a cabeça tentando pensar em algo para escrever sobre o tema, pesquisando por aí para juntar e digerir as idéias dos outros, encontrei o texto abaixo.
Flavio Gomes é jornalista esportivo, especializado em automobilismo. Gosto do texto do cara quando fala de carros e, principalmente, quando fala de outras coisas. Curto, grosso, às vezes até mal educado, ranzinza, sem papas na língua. Um daqueles de quem a gente fala que quer ser igual, quando crescer.

Uniban

Reprodução: G1

A moça, a saia, a faculdade

Fiz faculdade entre 1982 e 1985. Faculdade de riquinho, FAAP. Não havia sinal de movimento estudantil ali. Na verdade, com o fim da ditadura, a eleição de Tancredo e a perspectiva de diretas em 1989, o movimento estudantil se enfraqueceu e, sendo bem sincero, foi sumindo aos poucos. Minha atividade mais próxima da subversão foi vender sanduíches naturais para arrecadar dinheiro para uma festa das Diretas.
Hoje, as entidades representativas dos estudantes servem para emitir carteirinhas para a turba pagar meia-entrada em shows e no cinema. Sem um inimigo claro, que no caso das gerações imediatamente anteriores à minha era o governo militar, ficamos sem ter do que reclamar. Porque, no fundo, por conta da politização desses movimentos todos, a questão educacional foi colocada de lado por muitos anos, e deixou de ser prioridade.
Já como repórter, cheguei a cobrir algumas confusões na USP na segunda metade dos anos 80. Sem querer simplificar demais, mas recorrendo ao que minha memória me permite lembrar, o tema central era o aumento do preço do bandeijão nos refeitórios da universidade. Deu greve e tudo. Muito pouco. Ainda mais porque, como se sabe, boa parte dos que conseguem chegar à USP vêm de escolas particulares, e o preço do bandeijão não chegava a afetar seriamente o orçamento de ninguém.
O caso dessa moça de minissaia da Uniban poderia ser um bom motivo para despertar algum tipo de reação na molecada. De repúdio aos que ofenderam a menina, de reflexão sobre os rumos da universidade, de protesto contra sua expulsão, de perplexidade com o recuo da reitoria por razões obviamente mercantis.
Reitoria… Era palavra respeitada, antigamente. Hoje, os reitores dessas espeluncas mal falam português. A transformação do ambiente universitário em quitandas que vendem diplomas é assustadora. E os estudantes são coniventes. Não exigem ensino de qualidade, compromisso com a educação, porra nenhuma. Querem se formar logo, se possível pagando pouco, e dane-se o mundo.
Fico espantado ao observar como pensa e age essa juventude urbana entre 20 e 25 anos. São fascistóides, hedonistas, individualistas, retardados ao cubo. Basta ver o perfil da menina da minissaia no Orkut. Uma completa debilóide, mas nada diferente, tenho certeza, de seus colegas de faculdade (vejam as “comunidades” às quais ela pertence; coisas como “Gosto de causar, e daí?”, “Sou loira sim, quem me aguenta?”, “Para de falar e me beija logo”, coisas do tipo). O que, evidentemente, não dá a ninguém o direito de fazer o que fizeram com ela. Até porque são todos iguais, idênticos, tontos, despreparados, sem noção.
Aí a Uniban expulsa a menina, dizendo que os alunos que a chamavam de “puta” e queriam bater na coitada estavam “defendendo o ambiente escolar”. Puta que pariu! Como é que pode? Como podem adultos, “educadores”, que teoricamente têm um pouco mais de neurônios em funcionamento, reduzirem a questão a isso? E criticarem a menina porque ela se veste assim ou assado, anda rebolando, “se insinua”?
Pior: muitos, mas muitos mesmo, alunos defenderam a expulsão. Acham que a menina é uma vagabunda que provoca os colegas. Bando de animais, intolerantes, sádicos, hostis, agressivos. Eu nunca deixaria um filho meu estudar numa universidade frequentada por esse tipo de gente e dirigida por cretinos do naipe dos que assinaram a expulsão e, depois, revogaram-na sem revelar o motivo — aquele que nunca será admitido, o prejuízo à imagem dessa porcaria de empresa, sim, empresa, e das mais lucrativas, porque chamar um negócio desses de “universidade” é desmoralizar a palavra.
O Brasil está fodido com essas gerações que vêm por aí. Um caso desses, que poderia trazer à tona discussões importantes sobre o comportamento dos jovens, suas angústias, seus rumos, resume-se ao tamanho da saia da moça e ao seu comportamento “inadequado”, seja lá o que for isso. A educação, neste país, tem sido negligenciada de forma criminosa há décadas. O governo poderia começar a limpar a área por essas fábricas de diploma, que surgem aos montes sem que ninguém se preocupe com o tipo de gente que está à frente delas.
O que se vê hoje, graças a essas faculdades privadas de esquina, sem história e princípios, é uma população cada vez maior de “nível superior” sem nível algum. Um desastre completo. Gente que não pensa, não argumenta, não lê, não raciocina coletivamente, se comporta como gado raivoso, passa o dia punhetando no Orkut e no MSN, escreve “aki”, “facu”, “xurras”, “naum”, “huahsuahsua”, um bando de tontos desperdiçando os melhores anos de suas vida com uma existência vazia, um vácuo intelectual, sob o olhar perplexo de gerações, como a minha, que um dia sonharam em fazer um mundo melhor e, definitivamente, não conseguiram.
Somos todos culpados, no fim. Me incluo.

Flavio Gomes

28
Out
09

Um tostão da minha voz

Mania_de_EsporteGravamos ontem mais uma edição do Mania de Esporte, o podcast do Sportmania. E, dessa vez, um formato diferente e com um convidado especial.

Para ouvir (funciona melhor no Internet Explorer e no Chrome), é só clicar aqui ou na imagem aí do lado.

28
Out
09

Novos domingos

Em uma terça-feira de outubro de 2008, estava a bordo do Fandango, levando o barco no qual correria minha primeira Santos-Rio de Ilhabela para o porto de largada. Ao final daquela semana, foram seis domingos, uma boa história pra contar e uma grande frustração: não completamos a prova.
Daquela semana especial, ficou a promessa de que voltaria este ano para completar a travessia do jeito que desse. E aí, apesar do plano de correr a regata em 2009 ter sido feito ainda dentro d’água em 2008, só no meio do ano começamos a correr atrás de realizá-lo.
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Uniforme da tripulação

E tasca a buscar patrocínio. Se já não é fácil para campeões olímpicos, imaginem para uma turma de amadores que, se já conhecidos pela vela brasileira, tem um nome pouco sugestivo para quem está de fora: Boteco 1. Daí, para cada um que nos apresentávamos, ter que explicar quem somos, de onde viemos, há quanto tempo já velejamos, os resultados que já obtivemos etc etc etc. E conseguimos, aos 45 do segundo tempo.

Então, antes de contar a história da regata, é preciso registrar o muito obrigado aos patrocinadores – Arapongas Tecnologia Mecânica, Ronstan e Petromais –, aos apoiadores - Sportmania e Veleiros Eventos – e ao projeto Três no Mundo, parceiro desde 2008.

1º domingo: 22 de outubro

Voltando a falar de domingos, neste ano o meu tempo disponível para a faina foi mais curto, afinal Helena chegou no dia 17 e só embarquei para Santos na tarde do dia 22. Saímos do Rio, além de mim, os comandantes Ricardo e Leonardo, e o piloto Agnaldo. Uma viagem rápida e tranqüila, com muito boa música durante todo o trajeto, boa conversa sobre assuntos tão díspares quanto as novidades do apedeuta, minhas descobertas com Helena e os planos para a regata.
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Descarrega o carro com o material que saiu do Rio e recarrega com a tralha que não seria usada na regata

Da estrada, direto para o clube para descarregar o carro e recarregá-lo com o material do barco que não viria pela água para aliviar o peso. Finalmente, a tripulação estava toda reunida e ainda com o auxílio luxuoso da presidente Claudia e do paupratodaobra Lobo. Barco pronto, ainda havia trabalho a fazer. No hotel, hora de preparar as velas e aplicar os adesivos dos patrocinadores. Depois, um bom jantar, alguns goles de gelada devidamente rebatida com a quente e cama. Seria nossa última noite de sono em uma cama confortável, pelos próximos três ou quatro dias.
Velas prontas quase meia noite da véspera da largadaÀs 9h30, toda a tripulação já estava reunida no Fandango. Depois de pouco mais de uma hora de algum trabalho, parte foi dar uma volta e tomar um café e o resto ficou a bordo. Eu aproveitei para tirar o último cochilo e já acordei com o barco em movimento, saindo do clube em direção à linha de largada.
Até aquele momento, as expectativas eram as piores possíveis. A largada foi atrasada em uma hora por falta de vento e, graças à previsão de uma enorme calmaria no final de semana, o prazo limite para os barcos completarem a prova aumentou em 24 horas, passando do meio dia de segunda para o mesmo horário de terça. Como em 2008, a promessa era ficar boiando no meio do mar por, pelo menos, dois dias e meio. O vento chegaria na segunda, com uma frente-fria que viria da Argentina.

2º domingo: 23 de outubro

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Com pouco vento, a fragata da Marinha deu o tiro de largada uma hora mais tarde

Nosso segundo domingo começou com o tiro de largada, às 13h. E para quem esperava calmaria, começou muito bem. Vento sul de quase 10 nós e uma velejada folgada em direção a Ilhabela. Um portão de pontuação nos obrigava a passar pelo canal entre a ilha e o continente. E para que tivéssemos o melhor rendimento possível, seria necessário lidar com o vento e a maré. Como ficamos perto da costa durante todo o dia, conseguimos aproveitar o terral que chegou com o início da noite. Vento norte/noroeste entre 10 e 12 nós e meia dúzia de oito ou dez cambadas para começar a cruzar o canal.

A caminho de Ilhabela, Ricardo toca o barco e Oscar trabalha nas velasNesse momento, algo sensacional pelo qual não passamos no ano passado, até por conta da calmaria eterna. Como cruzar o gate bem fazia diferença para o resultado e várias manobras seriam necessárias, toda a tripulação trabalhou sem parar até passarmos pela marca fatal. Como ainda esperávamos ficar sem vento por muito tempo, pensei que aquele seria o grande momento da regata. Vento bom, noite clara de lua, navios atracados no canal funcionando como obstáculos, vários barcos andando junto.
Cruzamos o portão às 2h49 de sábado, após 13h49m34s, na quarta posição.

3º domingo: 24 de outubro

A velejada até a ilha foi sensacional e na hora não tínhamos como saber o resultado por causa das contas necessárias para se achar o tempo corrigido. Mas comemoramos o dia excelente. Logo depois da passagem, hora de descanso para alguns. Eu fui um dos que ficou no convés e as condições da madrugada prometiam que teríamos outro dia de regata muito bom. Entramos num través aberto que nos empurrou até a Ponta das Canas (saída do canal) com velocidade média de 7 e pico de 9,5 nós. Mas aí, acabou-se o que era doce.
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Armando e a roupa de tempo para enfrentar o frio da madrugada

Foi só pegar mar aberto e o vento foi embora. Dois, talvez três nós. Como disse o Armando, “uma merrequinha de dar dó”. Mas mesmo a passo de cágado, rumo 90, direto pro Rio. Fui dormir pouco depois de amanhecer e, quando acordei, pouco depois das 9h, alguma coisa tinha mudado. Encontrei o mar bem mexido e o vento prometendo entrar.

Estávamos nos afastando da costa para aproveitar as melhores condições. Entrou uma lestada que variava entre 15 e 20 nós, contravento daqueles, com mar batido, furando onda e todo mundo na borda pra segurar o barco. O Fandango pulava mais que touro em festa do peão. E pensar que todas as previsões apontavam merreca. Na minha cabeça, só passava uma frase: “previsões são apenas isso, previsões”. Seguimos assim até pouco depois das três da tarde, nosso limite para começar a voltar para perto de terra e conseguir aproveitar o terral. O objetivo era passar pela Ilha Grande antes do amanhecer, mas como o vento caiu um pouco (outra merrequinha de dar dó durante a noite), só conseguimos chegar à Restinga da Marambaia pelas 10 da manhã do dia seguinte.

4º domingo: 25 de outubro

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Além de timonear e resolver toda a logística da equipe, Morcegão - vulgo Leonardo - foi o chef de bordo

Faltava cerca de 50 milhas para cruzar a linha de chegada na entrada da Baía de Guanabara. Àquela altura, já tínhamos enfrentado contravento fraco e forte, través, popa tranqüilo, merrecas, todos os dias com o sol no quengo, noites amenas e madrugadas muito frias. Só faltava chuva e porrada de popa, mas como a tal frente fria só era prevista para a segunda e passamos o dia com vento em paz, com o barco andando entre quatro e seis nós, nem nos preocupamos.

A virada do vento, mais uma vez, foi favorável e conseguimos manter o rumo direto para o Rio, andando no máximo 10° acima ou abaixo da linha ideal para aproveitar as melhores rajadas. E pelo início da tarde já era possível prever a chegada entre dez e meia noite. Resultados? Não tínhamos a menor idéia de como a coisa andava. Apesar da obrigação de todos os barcos informarem posições aos clubes de Santos e Rio às 8h e às 20h, as chamadas de sábado à noite e manhã de domingo não funcionou, muita gente fora do alcance (nós inclusive). Assim, você perde a noção de quem está onde, perto ou longe, no que pode dar. Estávamos mesmo felizes da vida, foi uma velejada daquelas, com direito até a banho de mar na merreca do domingo de manhã.
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Mestre Pimenta, sentado na borda

Devagar, fomos chegando e conseguimos até fazer contato com as famílias e amigos para avisar onde estávamos, que jantaríamos em casa. E o dia foi passando em paz até que, pelo final da tarde, o vento começou a cair. Já estávamos pelo meio da Barra e vinha mais uma viração por aí. Aquela frente da segunda-feira estava chegando e começou a nos empurrar…

Com a chuva que chegou e um ventinho social, resolvemos baixar o balão. Usando a genoa, o rendimento não mudaria muito e não molharíamos mais uma vela tão perto da chegada, mas o través foi virando popa raso e o Ricardo deu a ordem. Balão pra cima e, no vento que oficialmente variou entre 20 e 25 nós, planamos nas ondas de Copacabana a quase dez nós de velocidade. Armando tocando o barco e Ricardo e Morcegão trimando as velas, enquanto eu, Oscar e Pimenta nos segurávamos na borda para equilibrar o barco. Com a chuva e a porrada de popa, não faltava mais nada.
Nessa altura, passando entre as Cagarras e a Redonda, a previsão de chegada a partir das dez caia para algo pelas 8 da noite. Jantar em casa e ainda ver o Fantástico. Mas quem já velejou pelo Rio alguma vez sabe que nada é tão simples assim…
Ao se aproximar do canal entre a Cotunduba e o Pão de Açúcar, o vento começou a diminuir, diminuir, diminuir… Morreu. Resultado: levamos quase duas horas para percorrer o último quilômetro da regata, pouco mais de meia milha. Se não é inacreditável, certamente foi surreal. Velas batendo, todo mundo tentando encontrar o melhor ponto de equilíbrio do barco para aproveitar qualquer sopro que nos alcançasse e aquela agonia tão perto do final.
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A rota do Fandango

Completamos a regata às 22h01m20s, 57 horas depois da largada. Até agora o resultado oficial não saiu, algumas informações erradas obrigaram a organização da regata a refazer todas as contas. O que posso adiantar é que o Fandango Boteco 1 terminou na segunda colocação na classe BRA RGS I. Extraoficialmente, perdemos por 1m26s. Pra quem não esperava nada além de desentalar o abandono do ano passado, quase ganhar é maravilhoso.

A tripulação

Éramos seis a bordo. Para agüentar os turnos necessários para manter o rendimento do barco sempre o melhor possível, descansando o necessário, tínhamos quatro timoneiros e outros dois responsáveis pelo meio do barco. Mas todos estavam aptos a desempenhar qualquer função, claro que de acordo com as condições e a experiência de cada um.
Ricardo foi o nosso comandante. Além de ser o mais experiente a bordo, também é capaz de estar atento a cada detalhe de tudo o que acontece em volta. Impressionante. Também regulou velas, fez a secretaria e fez a proa. Contando com os pitacos de todos, dividiu com Armando – timoneiro, velas e proa – as decisões táticas.
Os outros dois timoneiros foram Pimenta e Morcegão. O primeiro, Mestre, era o responsável pelo barco, além de regular velas e fazer proa. O outro, meu comandante no Picareta, acumulou as funções de proeiro, secretário e cozinheiro. Oscar foi a bordo como proeiro, mas regulou velas e timoneou. Eu, secretário, dei minhas cacetadas nas velas, na proa e no leme.
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Amanhecendo no leme, deixando Ilhabela pra trás

Minha opinião é que o mais importante ao montar uma tripulação (principalmente as pequenas como a nossa), com os turnos funcionando, é garantir que quem fica acordado seja capaz de fazer o barco andar. No nosso caso, o turno (geralmente) rodava a cada quatro horas, sempre com três em cima. E por isso, todo mundo fez um pouco de tudo. E é o melhor que pode acontecer, pois não conheço outra maneira de aprender.

Próximos domingos

Na sexta-feira começa o 40º Circuito Rio. A Santos-Rio vale como abertura para o campeonato, ou seja, já estamos em segundo. Sobre resultados, a melhor política é fazer o mesmo que fizemos na travessia: aproveitar a velejada, o convívio a bordo e celebrar mais três domingos. Na programação, teremos duas regatas barla-sota (algumas voltas entre duas bóias) no primeiro dia, uma de percurso médio no segundo e o encerramento é uma surpresa: pode ser de um jeito ou de outro e só saberemos na hora.
Por hora, resta agradecer aos cinco grumetes que estão comigo e, como diz Seu Ricardinho, ao Maior. Sei que esse é um blog de família, mas não encontrei definição melhor: nossos domingos têm sido phoda.
20
Out
09

Verbetes e Expressões (9)

Verbetes e Expressões (9)
Helena
Or.: Grécia; Tocha, Luz, Luminosa.
•••
Sábado, 17 de outubro de 2009, 3h47. Eu estava sentado na cabeceira da Mari quando alguém chamou. “Gustavo, levanta e vem ver Helena nascer!”.
Quando descobrimos que Mari estava grávida, a decisão foi continuar com sua ginecologista até que um dia ela falou uma coisa que nos deixou com uma pulga do tamanho de um elefante atrás da orelha: “cuida de estar grávida que o parto é comigo”. Como assim?
Sinceramente, eu não estava preparado para estar grávido, não tinha menor noção de quanta coisa envolvia uma gravidez, a preparação para o parto e o parto propriamente dito. Mas Mari estava. E começou a pesquisar e descobrir tudo o que podia e mais um pouco. E junto com todas essas descobertas, fomos fazendo escolhas e nos adaptando ao que seria possível realizar.
A primeira decisão que tomamos seria fazer um parto natural. E dentro das possibilidades que encontramos, decidimos fazer um parto domiciliar. Mas junto com essa decisão, levamos o primeiro choque. O plano de saúde é, na verdade, um plano hospitalar. Todos eles. E não cobre nada que não aconteça dentro de um hospital. Chegamos a fazer uma primeira consulta com uma enfermeira obstetra, adoramos ela, combinamos tudo. Mas na hora de fazer o levantamento de como seria nossa relação com o plano, descobrimos que para ser reembolsados, não receberíamos nem um terço de todo o custo e, mesmo assim, depois de muita briga. Se recebêssemos…
Sempre acreditei que nada acontece por acaso, mas tem horas que não nos damos conta de coisas simples.
Mariana continuou procurando e conseguiu encontrar uma médica credenciada que, em tese, é naturopata. Com todas as limitações impostas pelo plano e pelo ambiente hospitalar, Mari chegou em casa da primeira consulta relativamente otimista, quase satisfeita. Em sua segunda consulta, fui junto e teve um negócio que me chegou mal: na hora de prescrever um remédio para a azia da Mari, ela perguntou para um pêndulo qual seria a dose. E aí, podem até tentar me convencer, mas há coisas nas quais ninguém vai me fazer acreditar. Falei isso pra dona da minha vida, mas ela não ligou muito. Me cheirou mal. Como ela estava confiante, vida que segue.
Até que um dia fomos conhecer a pediatra da equipe. Nessa altura, eu não tinha lido sequer a metade do que deveria àquela altura, mas já sabia algumas coisas. Além disso, sempre tive a mania de acreditar piamente no santo que bate ou não bate.  A doutora disse que pediatra em sala de parto era pra não fazer nada, a não ser que algo fosse preciso. O problema é que o nada dela era tudo aquilo que queríamos evitar que nossa menina sofresse. Mas do que não gostei mesmo foi que, sempre que contestávamos alguma coisa, ela simplesmente dizia algo como “tudo bem, não é tão necessário mesmo”. Pombas, se não é necessário, por que fazer? E se faz, se acredita, por que não argumentar a respeito, nos explicar porque as coisas são assim? Saímos do consultório seguros de que a moça jamais tocaria em Helena.
A chegada em casa foi confusa. Conversamos, discutimos, brigamos, entramos em parafuso. Estávamos na 34ª semana de 40 previstas. E não tínhamos médico, não tínhamos nada, como seria a chegada de Helena?
Chegamos a procurar alternativas fora do Rio, mas em nada havia a segurança que queríamos. Mari foi dormir quase duas da manhã e eu, ensandecido e sem que ela soubesse, virei a noite na internet atrás de contatos possíveis e impossíveis. Passei e-mails para pediatras, obstetras, enfermeiras, clínicas, do Rio e de fora, em busca de alguma indicação. Entre esses, encontrei um blog de um médico em que havia um vídeo de um parto de cócoras. Contato? Só pelo formulário do próprio blog. Nem telefone, nem e-mail. Isso já era quase manhã de uma quinta-feira.
Essa quinta foi surpreendente para mim, recebi respostas que não imaginava com indicações e disposição para ajudar de gente que nunca me viu, que nunca ouviu falar de mim. Quando cheguei em casa, falei com a Mari, mostrei as mensagens e voltamos a ter alguma esperança de que as coisas dariam certo. Até que na sexta de manhã, o Dr. Antônio Carlos – o cara do blog – me ligou. “Gustavo, vi seu e-mail, que as coisas estão confusas, vamos conversar?”
Amanhecemos no consultório na segunda e depois de mais de duas horas de consulta, saímos de lá com a certeza de que ele era o cara, de que – mesmo que na hora do parto ele dissesse ser necessária uma cesariana – poderíamos confiar nele. E na pediatra da equipe, que é a mulher dele. Sempre deixaram claro que fariam tudo para que as coisas acontecessem da maneira mais natural possível, mas que não abriam mão da tecnologia. E sobre todos aqueles procedimentos de rotina da outra pediatra, Kátia nos explicou cada um deles e quando cada um é preciso. E as últimas semanas foram excelentes.
Quinta-feira, 15 de outubro. Antes de dormir, passei quase uma hora passando creme, fazendo massagem e carinho na barriga. Estava enorme, durinha e Mari reclamou que estava um pouco dolorida. Dormimos cedo, pouco depois das dez. Entre meia noite e uma da manhã, começaram as dores. Ela não me acordou, mas contou que sempre que gemia de dor ao meu lado, completamente sonado eu colocava a mão na barriga, perguntava se estava tudo bem e, com qualquer resposta (eu estava dormindo), virava pro lado e continuava roncando.
Acordei às 6h30 e vi Mariana sentada na beira da cama. Passei uma mensagem para o trabalho, avisando que tinha começado e que daria notícias. Começamos a marcar o tempo das contrações e o espaço entre elas. Chegamos a ficar animados, intervalo variando entre cinco e sete minutos, duração variando entre 35 e 50 segundos. Fomos assim até às nove, quando ligamos para o Antônio Carlos e mandou ir para o consultório. Ele fez o toque. Sem dilatação, colo do útero posterior e fechado. Mas quando ele viu uma contração daquelas, confirmou que era o dia. Fomos caminhar na praia e o exercício deu uma diminuída no ritmo das coisas. Voltamos pra casa e continuamos controlando.
Tínhamos na cabeça que a média de trabalho de parto de um primeiro filho variava entre oito e 12 horas, mas podia chegar a 18. No início da noite, o intervalo entre as contrações variava entre quatro e cinco minutos, com algumas chegando a durar mais de um minuto. Chegamos à Perinatal da Barra pouco depois das 11 e Mari foi direto para o centro de imagens fazer alguns exames. Antônio Carlos e Kátia chegaram pouco depois. Helena estava ótima, mas o toque mostrou dilatação de 1cm e colo ainda posterior. Depois de 24 horas. Fomos para o quarto, ele disse que faria novo toque em duas horas.
Nesse meio tempo, chegou a Fadynha, a doula, que começou a fazer alguns exercícios, massagem e levou Mari para o chuveiro quente, para relaxar, coisas que poderiam ajudar o corpo da Mari a funcionar bem.
Mari estava exausta, claro, e Antonio Carlos nos levou para a sala de pré-parto. A idéia era dar a ela um soro glicosado para lhe dar energia. Enquanto tudo era preparado, novo toque e só 2cm. Ao ouvir o coraçãozinho, 173 batimentos. Ainda não era questão de vida e morte, mas era óbvio que não valia mais a pena insistir. Helena poderia entrar em sofrimento fetal e Mari já estava sofrendo há muito tempo, além de estar muito debilitada.
Mas dentro do possível, foi tudo feito da maneira mais delicada possível. Gravamos um CD para tocar durante o parto. De Paul Simon a Keb Mo, de MPB4 a Nando Reis, de fado a música francesa. O aparelho de som foi para a sala de cirurgia, que estava a meia luz e com o ar condicionado desligado. E 26 horas depois de começar o trabalho de parto, voltamos ao início deste texto gigantesco.
Sábado, 17 de outubro de 2009, 3h47. Eu estava sentado na cabeceira da Mari quando alguém chamou. “Gustavo, levanta e vem ver Helena nascer!”. Ela estava com o bracinho acima da cabeça, o que impedia que ela forçasse o colo do útero para nascer. Se Mariana ficasse uma semana tendo contrações, nada mudaria.
Elvis cantava My Way quando ela chorou pela primeira vez. Ajudei a limpá-la, cortei o cordão umbilical e a levei para o colo da Mari, já ao som de Imagine. A ordem das músicas foi pura coincidência, quando gravei não organizei nada. Mas como acredito que nada é por acaso…
Depois de mais de meia hora de colo de mãe, fomos para o berçário para medi-la  e outras coisinhas. 49cm, 3,865kg, cabelo preto como o pai, queixo pra frente como a mãe. Antes das seis já estava no quarto conosco e pelas oito mamou pela primeira vez. Pegou o peito de primeira.
Tudo o que aconteceu, da maneira que aconteceu, não deixa dúvidas. Não havia escolha melhor pra fazer do que o Dr. Antônio Carlos de Oliveira e sua equipe (a pediatra Kátia, o anestesista Délcio, a assistente Fernanda). Parabéns e obrigado é o mínimo que se pode dizer.
E de toda a história, a certeza que minha vida começou – de novo – às 3h47 do último sábado. A essa altura, já estamos em casa há dois dias, já passei a primeira noite em claro com minha menina no colo, o primeiro banho, as primeiras trocas (a primeira, muito atrapalhada e depois de muito suor) e a realização do mais lindo sonho que eu poderia ter um dia.

Helena

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Or.: Grécia; Tocha, Luz, Luminosa.

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Sábado, 17 de outubro de 2009, 3h47. Eu estava sentado na cabeceira da Mari quando alguém chamou. “Gustavo, levanta e vem ver Helena nascer!”.

Quando descobrimos que Mari estava grávida, a decisão foi continuar com sua ginecologista até que um dia ela falou uma coisa que nos deixou com uma pulga do tamanho de um elefante atrás da orelha: “cuida de estar grávida que o parto é comigo”. Como assim?

Sinceramente, eu não estava preparado para estar grávido, não tinha menor noção de quanta coisa envolvia uma gravidez, a preparação para o parto e o parto propriamente dito. Mas Mari estava. E começou a pesquisar e descobrir tudo o que podia e mais um pouco. E junto com todas essas descobertas, fomos fazendo escolhas e nos adaptando ao que seria possível realizar.

A primeira decisão que tomamos seria fazer um parto natural. E dentro das possibilidades que encontramos, decidimos fazer um parto domiciliar. Mas junto com essa decisão, levamos o primeiro choque. O plano de saúde é, na verdade, um plano hospitalar. Todos eles. E não cobre nada que não aconteça dentro de um hospital. Chegamos a fazer uma primeira consulta com uma enfermeira obstetra, adoramos ela, combinamos tudo. Mas na hora de fazer o levantamento de como seria nossa relação com o plano, descobrimos que para ser reembolsados, não receberíamos nem um terço de todo o custo e, mesmo assim, depois de muita briga. Se recebêssemos…

Sempre acreditei que nada acontece por acaso, mas tem horas que não nos damos conta de coisas simples.

Mariana continuou procurando e conseguiu encontrar uma médica credenciada que, em tese, é naturopata. Com todas as limitações impostas pelo plano e pelo ambiente hospitalar, Mari chegou em casa da primeira consulta relativamente otimista, quase satisfeita. Em sua segunda consulta, fui junto e teve um negócio que me deixou encafifado: na hora de prescrever um remédio para a azia da Mari, ela perguntou para um pêndulo qual seria a dose. E aí, podem até tentar me convencer, mas há coisas nas quais ninguém vai me fazer acreditar. Falei isso pra dona da minha vida, mas ela não ligou muito. Me cheirou mal. Como ela estava confiante, vida que segue.

Até que um dia fomos conhecer a pediatra da equipe. Nessa altura, eu não tinha lido sequer a metade do que deveria àquela altura, mas já sabia algumas coisas. Além disso, sempre tive a mania de acreditar piamente no santo que bate ou não bate.  A doutora disse que pediatra em sala de parto era pra não fazer nada, a não ser que algo fosse preciso. O problema é que o nada dela era tudo aquilo que queríamos evitar que nossa menina sofresse. Mas do que não gostei mesmo foi que, sempre que contestávamos alguma coisa, ela simplesmente dizia algo como “tudo bem, não é tão necessário mesmo”. Pombas, se não é necessário, por que fazer? E se faz, se acredita, por que não argumentar a respeito, nos explicar porque as coisas são assim? Saímos do consultório seguros de que a moça jamais tocaria em Helena.

A chegada em casa foi confusa. Conversamos, discutimos, brigamos, entramos em parafuso. Estávamos na 34ª semana de 40 previstas. E não tínhamos médico, não tínhamos nada, como seria a chegada de Helena?

Chegamos a procurar alternativas fora do Rio, mas em nada havia a segurança que queríamos. Mari foi dormir quase duas da manhã e eu, ensandecido e sem que ela soubesse, virei a noite na internet atrás de contatos possíveis e impossíveis. Passei e-mails para pediatras, obstetras, enfermeiras, clínicas, do Rio e de fora, em busca de alguma indicação. Entre esses, encontrei um blog de um médico em que havia um vídeo de um parto de cócoras. Contato? Só pelo formulário do próprio blog. Nem telefone, nem e-mail. Isso já era quase manhã de uma quinta-feira.

Essa quinta foi surpreendente para mim, recebi respostas que não imaginava com indicações e disposição para ajudar de gente que nunca me viu, que nunca ouviu falar de mim. Quando cheguei em casa, falei com a Mari, mostrei as mensagens e voltamos a ter alguma esperança de que as coisas dariam certo. Até que na sexta de manhã, o Dr. Antônio Carlos – o cara do blog – me ligou. “Gustavo, vi seu e-mail, que as coisas estão confusas, vamos conversar?”

Amanhecemos no consultório na segunda e depois de mais de duas horas de consulta, saímos de lá com a certeza de que ele era o cara, de que – mesmo que na hora do parto ele dissesse ser necessária uma cesariana – poderíamos confiar nele. E na pediatra da equipe, que é a mulher dele. Sempre deixaram claro que fariam tudo para que as coisas acontecessem da maneira mais natural possível, mas que não abriam mão da tecnologia. E sobre todos aqueles procedimentos de rotina da outra pediatra, Kátia nos explicou cada um deles e quando cada um é preciso. E as últimas semanas foram excelentes.

Quinta-feira, 15 de outubro. Antes de dormir, passei quase uma hora passando creme, fazendo massagem e carinho na barriga. Estava enorme, durinha e Mari reclamou que estava um pouco dolorida. Dormimos cedo, pouco depois das dez. Entre meia noite e uma da manhã, começaram as dores. Ela não me acordou, mas contou que sempre que gemia de dor ao meu lado, completamente sonado eu colocava a mão na barriga, perguntava se estava tudo bem e, com qualquer resposta (eu estava dormindo), virava pro lado e continuava roncando.

Acordei às 6h30 e vi Mariana sentada na beira da cama. Passei uma mensagem para o trabalho, avisando que tinha começado e que daria notícias. Começamos a marcar o tempo das contrações e o espaço entre elas. Chegamos a ficar animados, intervalo variando entre cinco e sete minutos, duração variando entre 35 e 50 segundos. Fomos assim até às nove, quando ligamos para o Antônio Carlos e mandou ir para o consultório. Ele fez o toque. Sem dilatação, colo do útero posterior e fechado. Mas quando ele viu uma contração daquelas, confirmou que era o dia. Fomos caminhar na praia e o exercício deu uma diminuída no ritmo das coisas. Voltamos pra casa e continuamos controlando.

Tínhamos na cabeça que a média de trabalho de parto de um primeiro filho variava entre oito e 12 horas, mas podia chegar a 18. No início da noite, o intervalo entre as contrações variava entre quatro e cinco minutos, com algumas chegando a durar mais de um minuto. Chegamos à Perinatal da Barra pouco depois das 11 e Mari foi direto para o centro de imagens fazer alguns exames. Antônio Carlos e Kátia chegaram pouco depois. Helena estava ótima, mas o toque mostrou dilatação de 1cm e colo ainda posterior. Depois de 24 horas. Fomos para o quarto, ele disse que faria novo toque em duas horas.

Nesse meio tempo, chegou a Fadynha, a doula, que começou a fazer alguns exercícios, massagem e levou Mari para o chuveiro quente, para relaxar, coisas que poderiam ajudar o corpo da Mari a funcionar bem.

Apesar de exausta, Mari nunca pensou em desistir. Antônio Carlos nos levou para a sala de pré-parto com a idéia de dar a ela um soro glicosado para lhe dar energia. Enquanto tudo era preparado, novo toque e só 2cm. Ao ouvir o coraçãozinho, 173 batimentos. Ainda não era questão de vida e morte, mas era óbvio que não valia mais a pena insistir. Helena poderia entrar em sofrimento fetal e Mari já estava sofrendo há muito tempo, além de estar muito debilitada.

Mas dentro do possível, foi tudo feito da maneira mais delicada possível. Gravamos um CD para tocar durante o parto. De Paul Simon a Keb Mo, de MPB4 a Nando Reis, de fado a música francesa. O aparelho de som foi para a sala de cirurgia, que estava a meia luz e com o ar condicionado desligado. E 26 horas depois de começar o trabalho de parto, voltamos ao início deste texto gigantesco.

Sábado, 17 de outubro de 2009, 3h47. Eu estava sentado na cabeceira da Mari quando alguém chamou. “Gustavo, levanta e vem ver Helena nascer!”. Ela estava com o bracinho acima da cabeça, o que impedia que ela forçasse o colo do útero para nascer. Se Mariana ficasse uma semana tendo contrações, nada mudaria.

Elvis cantava My Way quando ela chorou pela primeira vez. Ajudei a limpá-la, cortei o cordão umbilical e a levei para o colo da Mari, já ao som de Imagine. A ordem das músicas foi pura coincidência, quando gravei não organizei nada. Mas como acredito que nada é por acaso…

Depois de mais de meia hora de colo de mãe, fomos para o berçário para medi-la  e outras coisinhas. 49cm, 3,865kg, cabelo preto como o pai, queixo pra frente como a mãe. Antes das seis já estava no quarto conosco e pelas oito mamou pela primeira vez. Pegou o peito de primeira.

Tudo o que aconteceu, da maneira que aconteceu, não deixa dúvidas. Não havia escolha melhor pra fazer do que o Dr. Antônio Carlos de Oliveira e sua equipe (a pediatra Kátia, o anestesista Délcio, a assistente Fernanda). Parabéns e obrigado é o mínimo que se pode dizer.

E de toda a história, a certeza que minha vida começou – de novo – às 3h47 do último sábado. A essa altura, já estamos em casa há dois dias, já passei a primeira noite em claro com minha menina no colo, o primeiro banho, as primeiras trocas (a primeira, muito atrapalhada e depois de muito suor) e a realização do mais lindo sonho que eu poderia ter um dia.




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