Quem diria que eu, um dia, iria reproduzir aqui algo publicado pela Veja? Pois é, às vezes a gente queima a língua.
Enfim, para tentar encerrar o assunto.
O discurso aparentemente mais ameno do bandido é ainda mais perigoso
O Ahmadinejad mais perigoso, por incrível que pareça, nem é aquele que nega com clareza o Holocausto — até porque ele percebeu que isso lhe gera alguns contratempos. O Ahmadinejad mais perigoso, por incrível que pareça, nem é aquele que financia o terrorismo. O Ahmadinejad mais perigoso, por incrível que pareça, nem é aquele que promete “varrer Israel do mapa” — ou o que trata divergências a bala, o que mata homossexuais, o que persegue mulheres, o que conduz um programa nuclear secreto… O Ahmadinejad mais perigoso é o que fala (…) mais manso. Porque esse discurso mais suave esconde o negador do holocausto, o anti-semita delirante, o aniquilador potencial de um país, o cão raivoso que criminaliza a diferença.O Ahmadinejad mais perigoso é o que disfarça sua delinqüência belicista com palavras de aparente racionalidade, prontas a convencer ignorantes, a ganhar a adesão de desinformados, a receber o apoio daqueles que não percebem suas malévolas intenções sub-reptícias.Nem o cumprimento de sua parte na conversa com o Brasil — a defesa de que o país tenha assento permanente no Conselho de Segurança da ONU — escapa a seu pensamento insidioso, às idéias travessas e perigosas que povoam aquele cérebro tumultuado. Ou como ler a afirmação de que as guerras nos últimos 60 anos tiveram a “intervenção” dos países que integram o Conselho de Segurança? Peguemos a maior de todas elas, a Segunda, e consideremos os cinco países que integram o CS: EUA, Rússia, Reino Unido, França e China. Pode-se condenar a pusilanimidade de governos em cada um desses países em face daquele conflito, mas foram eles os promotores do desastre? Sem o que ele chama de “intervenção”, qual teria sido o nosso destino?Observem que ele continua a negar o direito de Israel existir, fazendo tabula rasa da história do Oriente Médio, como se a fundação de Israel, em 1948, tivesse obstado, em sua própria natureza, a criação do estado palestino. Os árabes que se mobilizaram em face da nova situação o fizeram para construir um novo estado ou para impedir o que estava sendo criado?Ahmadinejad mente de maneira miserável quando afirma que dezenas de soluções foram apresentadas, todas rejeitadas. Está acusando Israel de intransigência. A verdade está justamente no contrário. Basta lembrar que Ehud Barack, então primeiro-ministro de Israel, ofereceu, em julho de 2000, quase tudo o que Yasser Arafat reivindicava: um estado palestino em Gaza e na quase totalidade da Cisjordânia, com a capital em Jerusalém Oriental. Arafat deu sinais de que aceitaria o acordo, mas decidiu romper as conversações unilateralmente. Por quê? Ora, o que teria sido dele — e daqueles que o sucederam — sem uma “causa” não é mesmo? Causa que, diga-se, fez de Arafat um dos homens mais ricos do planeta.A delinqüência continua quando ele diz que os palestinos não podem pagar pelos “60 milhões de mortos da Segunda Guerra… Por vias tortas, nega o Holocausto de novo. Sem dúvida, os seis milhões de mortos que ele não reconhece integram os 60 milhões. Ao opor uma grandeza à outra, tenta retirar a especificidade da brutalidade nazista. Os que pereceram nos campos de concentração ou foram eliminados nas ruas não estavam em guerra com ninguém, não integravam um exército regular, nem mesmo estavam — porque, na maioria das vezes, não houve tempo para isso — numa força de resistência. Homens, mulheres, velhos, crianças… Morreram porque eram judeus. Só por isso. E outros porque eram ciganos, porque eram gays, porque eram considerados incapazes segundo os critérios de competência do nazismo.O banditismo moral de Ahmadinjead é tal, que ele fala em 60 milhões de mortos para poder, assim, negar 6 milhões de mortos. Por que esse discurso é mais perigoso? Porque ele dificulta a reação.Um dia, um vagabundo desta espécie irá para a lata de lixo da história, em companhia daqueles que o promoveram. “Lata de lixo da história” já é clichê como destino final das excrescências humanas. Mas essa gente não merece nada melhor do que isso.


