Pai babão (nenhuma novidade, pois) é isso aí. A fotógrafa foi a dinda Poliana, praticamente uma japonesa.

Pai babão (nenhuma novidade, pois) é isso aí. A fotógrafa foi a dinda Poliana, praticamente uma japonesa.

Gravamos ontem mais uma edição do Mania de Esporte, o podcast do Sportmania. E, dessa vez, um formato diferente e com um convidado especial.
Para ouvir (funciona melhor no Internet Explorer e no Chrome), é só clicar aqui ou na imagem aí do lado.

Uniforme da tripulação
E tasca a buscar patrocínio. Se já não é fácil para campeões olímpicos, imaginem para uma turma de amadores que, se já conhecidos pela vela brasileira, tem um nome pouco sugestivo para quem está de fora: Boteco 1. Daí, para cada um que nos apresentávamos, ter que explicar quem somos, de onde viemos, há quanto tempo já velejamos, os resultados que já obtivemos etc etc etc. E conseguimos, aos 45 do segundo tempo.

Descarrega o carro com o material que saiu do Rio e recarrega com a tralha que não seria usada na regata
Às 9h30, toda a tripulação já estava reunida no Fandango. Depois de pouco mais de uma hora de algum trabalho, parte foi dar uma volta e tomar um café e o resto ficou a bordo. Eu aproveitei para tirar o último cochilo e já acordei com o barco em movimento, saindo do clube em direção à linha de largada.
Com pouco vento, a fragata da Marinha deu o tiro de largada uma hora mais tarde
Nosso segundo domingo começou com o tiro de largada, às 13h. E para quem esperava calmaria, começou muito bem. Vento sul de quase 10 nós e uma velejada folgada em direção a Ilhabela. Um portão de pontuação nos obrigava a passar pelo canal entre a ilha e o continente. E para que tivéssemos o melhor rendimento possível, seria necessário lidar com o vento e a maré. Como ficamos perto da costa durante todo o dia, conseguimos aproveitar o terral que chegou com o início da noite. Vento norte/noroeste entre 10 e 12 nós e meia dúzia de oito ou dez cambadas para começar a cruzar o canal.
Nesse momento, algo sensacional pelo qual não passamos no ano passado, até por conta da calmaria eterna. Como cruzar o gate bem fazia diferença para o resultado e várias manobras seriam necessárias, toda a tripulação trabalhou sem parar até passarmos pela marca fatal. Como ainda esperávamos ficar sem vento por muito tempo, pensei que aquele seria o grande momento da regata. Vento bom, noite clara de lua, navios atracados no canal funcionando como obstáculos, vários barcos andando junto.
Armando e a roupa de tempo para enfrentar o frio da madrugada
Foi só pegar mar aberto e o vento foi embora. Dois, talvez três nós. Como disse o Armando, “uma merrequinha de dar dó”. Mas mesmo a passo de cágado, rumo 90, direto pro Rio. Fui dormir pouco depois de amanhecer e, quando acordei, pouco depois das 9h, alguma coisa tinha mudado. Encontrei o mar bem mexido e o vento prometendo entrar.

Além de timonear e resolver toda a logística da equipe, Morcegão - vulgo Leonardo - foi o chef de bordo
Faltava cerca de 50 milhas para cruzar a linha de chegada na entrada da Baía de Guanabara. Àquela altura, já tínhamos enfrentado contravento fraco e forte, través, popa tranqüilo, merrecas, todos os dias com o sol no quengo, noites amenas e madrugadas muito frias. Só faltava chuva e porrada de popa, mas como a tal frente fria só era prevista para a segunda e passamos o dia com vento em paz, com o barco andando entre quatro e seis nós, nem nos preocupamos.

Mestre Pimenta, sentado na borda
Devagar, fomos chegando e conseguimos até fazer contato com as famílias e amigos para avisar onde estávamos, que jantaríamos em casa. E o dia foi passando em paz até que, pelo final da tarde, o vento começou a cair. Já estávamos pelo meio da Barra e vinha mais uma viração por aí. Aquela frente da segunda-feira estava chegando e começou a nos empurrar…

A rota do Fandango
Completamos a regata às 22h01m20s, 57 horas depois da largada. Até agora o resultado oficial não saiu, algumas informações erradas obrigaram a organização da regata a refazer todas as contas. O que posso adiantar é que o Fandango Boteco 1 terminou na segunda colocação na classe BRA RGS I. Extraoficialmente, perdemos por 1m26s. Pra quem não esperava nada além de desentalar o abandono do ano passado, quase ganhar é maravilhoso.

Amanhecendo no leme, deixando Ilhabela pra trás
Minha opinião é que o mais importante ao montar uma tripulação (principalmente as pequenas como a nossa), com os turnos funcionando, é garantir que quem fica acordado seja capaz de fazer o barco andar. No nosso caso, o turno (geralmente) rodava a cada quatro horas, sempre com três em cima. E por isso, todo mundo fez um pouco de tudo. E é o melhor que pode acontecer, pois não conheço outra maneira de aprender.

Or.: Grécia; Tocha, Luz, Luminosa.
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Sábado, 17 de outubro de 2009, 3h47. Eu estava sentado na cabeceira da Mari quando alguém chamou. “Gustavo, levanta e vem ver Helena nascer!”.
Quando descobrimos que Mari estava grávida, a decisão foi continuar com sua ginecologista até que um dia ela falou uma coisa que nos deixou com uma pulga do tamanho de um elefante atrás da orelha: “cuida de estar grávida que o parto é comigo”. Como assim?
Sinceramente, eu não estava preparado para estar grávido, não tinha menor noção de quanta coisa envolvia uma gravidez, a preparação para o parto e o parto propriamente dito. Mas Mari estava. E começou a pesquisar e descobrir tudo o que podia e mais um pouco. E junto com todas essas descobertas, fomos fazendo escolhas e nos adaptando ao que seria possível realizar.
A primeira decisão que tomamos seria fazer um parto natural. E dentro das possibilidades que encontramos, decidimos fazer um parto domiciliar. Mas junto com essa decisão, levamos o primeiro choque. O plano de saúde é, na verdade, um plano hospitalar. Todos eles. E não cobre nada que não aconteça dentro de um hospital. Chegamos a fazer uma primeira consulta com uma enfermeira obstetra, adoramos ela, combinamos tudo. Mas na hora de fazer o levantamento de como seria nossa relação com o plano, descobrimos que para ser reembolsados, não receberíamos nem um terço de todo o custo e, mesmo assim, depois de muita briga. Se recebêssemos…
Sempre acreditei que nada acontece por acaso, mas tem horas que não nos damos conta de coisas simples.
Mariana continuou procurando e conseguiu encontrar uma médica credenciada que, em tese, é naturopata. Com todas as limitações impostas pelo plano e pelo ambiente hospitalar, Mari chegou em casa da primeira consulta relativamente otimista, quase satisfeita. Em sua segunda consulta, fui junto e teve um negócio que me deixou encafifado: na hora de prescrever um remédio para a azia da Mari, ela perguntou para um pêndulo qual seria a dose. E aí, podem até tentar me convencer, mas há coisas nas quais ninguém vai me fazer acreditar. Falei isso pra dona da minha vida, mas ela não ligou muito. Me cheirou mal. Como ela estava confiante, vida que segue.
Até que um dia fomos conhecer a pediatra da equipe. Nessa altura, eu não tinha lido sequer a metade do que deveria àquela altura, mas já sabia algumas coisas. Além disso, sempre tive a mania de acreditar piamente no santo que bate ou não bate. A doutora disse que pediatra em sala de parto era pra não fazer nada, a não ser que algo fosse preciso. O problema é que o nada dela era tudo aquilo que queríamos evitar que nossa menina sofresse. Mas do que não gostei mesmo foi que, sempre que contestávamos alguma coisa, ela simplesmente dizia algo como “tudo bem, não é tão necessário mesmo”. Pombas, se não é necessário, por que fazer? E se faz, se acredita, por que não argumentar a respeito, nos explicar porque as coisas são assim? Saímos do consultório seguros de que a moça jamais tocaria em Helena.
A chegada em casa foi confusa. Conversamos, discutimos, brigamos, entramos em parafuso. Estávamos na 34ª semana de 40 previstas. E não tínhamos médico, não tínhamos nada, como seria a chegada de Helena?
Chegamos a procurar alternativas fora do Rio, mas em nada havia a segurança que queríamos. Mari foi dormir quase duas da manhã e eu, ensandecido e sem que ela soubesse, virei a noite na internet atrás de contatos possíveis e impossíveis. Passei e-mails para pediatras, obstetras, enfermeiras, clínicas, do Rio e de fora, em busca de alguma indicação. Entre esses, encontrei um blog de um médico em que havia um vídeo de um parto de cócoras. Contato? Só pelo formulário do próprio blog. Nem telefone, nem e-mail. Isso já era quase manhã de uma quinta-feira.
Essa quinta foi surpreendente para mim, recebi respostas que não imaginava com indicações e disposição para ajudar de gente que nunca me viu, que nunca ouviu falar de mim. Quando cheguei em casa, falei com a Mari, mostrei as mensagens e voltamos a ter alguma esperança de que as coisas dariam certo. Até que na sexta de manhã, o Dr. Antônio Carlos – o cara do blog – me ligou. “Gustavo, vi seu e-mail, que as coisas estão confusas, vamos conversar?”
Amanhecemos no consultório na segunda e depois de mais de duas horas de consulta, saímos de lá com a certeza de que ele era o cara, de que – mesmo que na hora do parto ele dissesse ser necessária uma cesariana – poderíamos confiar nele. E na pediatra da equipe, que é a mulher dele. Sempre deixaram claro que fariam tudo para que as coisas acontecessem da maneira mais natural possível, mas que não abriam mão da tecnologia. E sobre todos aqueles procedimentos de rotina da outra pediatra, Kátia nos explicou cada um deles e quando cada um é preciso. E as últimas semanas foram excelentes.
Quinta-feira, 15 de outubro. Antes de dormir, passei quase uma hora passando creme, fazendo massagem e carinho na barriga. Estava enorme, durinha e Mari reclamou que estava um pouco dolorida. Dormimos cedo, pouco depois das dez. Entre meia noite e uma da manhã, começaram as dores. Ela não me acordou, mas contou que sempre que gemia de dor ao meu lado, completamente sonado eu colocava a mão na barriga, perguntava se estava tudo bem e, com qualquer resposta (eu estava dormindo), virava pro lado e continuava roncando.
Acordei às 6h30 e vi Mariana sentada na beira da cama. Passei uma mensagem para o trabalho, avisando que tinha começado e que daria notícias. Começamos a marcar o tempo das contrações e o espaço entre elas. Chegamos a ficar animados, intervalo variando entre cinco e sete minutos, duração variando entre 35 e 50 segundos. Fomos assim até às nove, quando ligamos para o Antônio Carlos e mandou ir para o consultório. Ele fez o toque. Sem dilatação, colo do útero posterior e fechado. Mas quando ele viu uma contração daquelas, confirmou que era o dia. Fomos caminhar na praia e o exercício deu uma diminuída no ritmo das coisas. Voltamos pra casa e continuamos controlando.
Tínhamos na cabeça que a média de trabalho de parto de um primeiro filho variava entre oito e 12 horas, mas podia chegar a 18. No início da noite, o intervalo entre as contrações variava entre quatro e cinco minutos, com algumas chegando a durar mais de um minuto. Chegamos à Perinatal da Barra pouco depois das 11 e Mari foi direto para o centro de imagens fazer alguns exames. Antônio Carlos e Kátia chegaram pouco depois. Helena estava ótima, mas o toque mostrou dilatação de 1cm e colo ainda posterior. Depois de 24 horas. Fomos para o quarto, ele disse que faria novo toque em duas horas.
Nesse meio tempo, chegou a Fadynha, a doula, que começou a fazer alguns exercícios, massagem e levou Mari para o chuveiro quente, para relaxar, coisas que poderiam ajudar o corpo da Mari a funcionar bem.
Apesar de exausta, Mari nunca pensou em desistir. Antônio Carlos nos levou para a sala de pré-parto com a idéia de dar a ela um soro glicosado para lhe dar energia. Enquanto tudo era preparado, novo toque e só 2cm. Ao ouvir o coraçãozinho, 173 batimentos. Ainda não era questão de vida e morte, mas era óbvio que não valia mais a pena insistir. Helena poderia entrar em sofrimento fetal e Mari já estava sofrendo há muito tempo, além de estar muito debilitada.
Mas dentro do possível, foi tudo feito da maneira mais delicada possível. Gravamos um CD para tocar durante o parto. De Paul Simon a Keb Mo, de MPB4 a Nando Reis, de fado a música francesa. O aparelho de som foi para a sala de cirurgia, que estava a meia luz e com o ar condicionado desligado. E 26 horas depois de começar o trabalho de parto, voltamos ao início deste texto gigantesco.
Sábado, 17 de outubro de 2009, 3h47. Eu estava sentado na cabeceira da Mari quando alguém chamou. “Gustavo, levanta e vem ver Helena nascer!”. Ela estava com o bracinho acima da cabeça, o que impedia que ela forçasse o colo do útero para nascer. Se Mariana ficasse uma semana tendo contrações, nada mudaria.
Elvis cantava My Way quando ela chorou pela primeira vez. Ajudei a limpá-la, cortei o cordão umbilical e a levei para o colo da Mari, já ao som de Imagine. A ordem das músicas foi pura coincidência, quando gravei não organizei nada. Mas como acredito que nada é por acaso…
Depois de mais de meia hora de colo de mãe, fomos para o berçário para medi-la e outras coisinhas. 49cm, 3,865kg, cabelo preto como o pai, queixo pra frente como a mãe. Antes das seis já estava no quarto conosco e pelas oito mamou pela primeira vez. Pegou o peito de primeira.
Tudo o que aconteceu, da maneira que aconteceu, não deixa dúvidas. Não havia escolha melhor pra fazer do que o Dr. Antônio Carlos de Oliveira e sua equipe (a pediatra Kátia, o anestesista Délcio, a assistente Fernanda). Parabéns e obrigado é o mínimo que se pode dizer.
E de toda a história, a certeza que minha vida começou – de novo – às 3h47 do último sábado. A essa altura, já estamos em casa há dois dias, já passei a primeira noite em claro com minha menina no colo, o primeiro banho, as primeiras trocas (a primeira, muito atrapalhada e depois de muito suor) e a realização do mais lindo sonho que eu poderia ter um dia.